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Líderes mundiais

por Carla Hilário Quevedo, em 16.04.14

Por falar em ex-presidentes na reforma, vale a pena contar a história que o recém-pintor George W. Bush revelou numa entrevista a propósito da sua exposição de retratos. Todos os retratados tiveram alguma relação com o ex-Presidente norte-americano. Um deles é Vladimir Putin. Quando esteve na Casa Branca, Bush apresentou o seu amado Barney, um scottish terrier, se não me engano, ao Presidente russo. O comentário de Putin foi: «Chamas a isso um cão, pá?». Meses depois, Bush foi de visita à Rússia e Putin fez questão de lhe apresentar o seu cão. Quando o chamou, o bicho apareceu a correr a toda velocidade. Era um cão enorme que imagino ser uma mistura de rottweiler com husky siberiano. Putin disse: «O meu cão é maior, mais forte e mais rápido do que o teu». Foi esta frase que inspirou o artista quando fez o retrato. Lembro que uma destas pessoas foi por duas vezes o homem mais poderoso do mundo e que o outro é ainda hoje o segundo mais poderoso.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-4-14

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publicado às 18:30

Reformas e reformas

por Carla Hilário Quevedo, em 16.04.14

Se perguntássemos o que fazem os presidentes em Portugal quando deixam de ser presidentes, a resposta seria fácil. Eanes abandonou a política, mas faz um comentário ali, apoia fulano acolá e não comenta sicrano. Mário Soares não abandona a política nem que o amarrem ao sofá. Jorge Sampaio continua atento e sempre discreto. O Washington Post quis ouvir respostas e parece que são poucos os ex-presidentes norte-americanos que se mantêm politicamente activos. Jimmy Carter, se o deixarem, vai a todas, mas no estrangeiro. Clinton tornou-se o guru dos Democratas e é decisivo em eleições partidárias. Mas são excepções. A regra é não fazerem nada de especial, a não ser no caso de Bush filho, que descobriu que é artista. Quem teve graça foi o desaparecido Herbert Hoover. Apesar de continuar activo na política, quando lhe perguntaram o que faziam os ex-presidentes, respondeu: «Tomamos comprimidos e inauguramos bibliotecas». Se calhar não é má ideia.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-4-14

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publicado às 18:23

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 16.04.14

Carrie White aka Sissi Spacek

 

... ao contrário do que fez o próprio Stephen King no Twitter com o mais recente episódio de Game of Thrones - raios o partam, que passou a ser conhecido por Stephen "Spoiler" King - não quis spoilar - pior do que o bullying só o spoilling - o fim de Carrie. Só posso acrescentar que o final do livro é um clássico, porque prevê a continuação do terror. O fim na adaptação para cinema de 2013 interpreta essa continuação e oferece uma solução interessante para Sue Snell, muito de acordo com a redenção a que a personagem se propõe. Só Brian de Palma julga que a história de Carrie acaba com ela. Percebeu menos e pior.

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publicado às 09:51

Algumas comparações

por Carla Hilário Quevedo, em 15.04.14

App PictureShow com filtro Vivid e moldura 135 Reversible sobre imagem com Carrie velha e Carrie nova. 

 

A história de Carrieta White, de Stephen King, cuja publicação data de 5 de Abril de 1974, não me era desconhecida, mas nunca tinha tido lido o livro nem visto o filme de Brian de Palma, de 1976, com o título homónimo “Carrie”. Foi a versão recente da realizadora Kimberly Peirce que me levou ao filme de Brian de Palma e à obra original de Stephen King. A versão de 2013, ao contrário do que dizem as más-línguas, está bem pensada. Mas o mais interessante de ambas as versões é mesmo a obra que as une da autoria de Stephen King.

 

Dizem que “Carrie” é uma história de terror. Para quem não sabe, a telecinésia, como a palavra indica, é a capacidade de mover (“cinésia”, que tem que ver com “cinema”) objectos à distância (“tele” tem que ver com distância: cf. “televisão” ou “telefone”). Carrie é uma rapariga de 16 anos que a dada altura descreve a sua mente como estando “dobrada”, a fazer lembrar o cérebro que se “ajoelha” do monólogo Not I, de Samuel Beckett. Basta que Carrie pense na possibilidade de um objecto ou uma pessoa se moverem para isso acontecer. Num excerto do seu livro On Writing, recentemente publicado no Guardian, Stephen King conta que Carrie “surgiu” depois de ter lido um artigo na Life sobre telecinésia. Existia a crença de que sobretudo as raparigas no início da adolescência, por alturas do aparecimento da primeira menstruação, tinham este poder. A esta ideia juntava-se a memória de um trabalho de Verão num liceu e um balneário feminino com cortinados cor-de-rosa nos chuveiros.

 

Carrie, de Brian de Palma, começa com uma imagem de raparigas no recreio a jogar voleibol. Segue-se a célebre cena do chuveiro, num balneário sem cortinas nem privacidade. Carrie está sozinha, a tomar banho e, de repente, sangue escorre pelas pernas abaixo. Ninguém a está a matar, mas Carrie pensa que está a morrer, e o seu desespero, que resulta da sua ignorância, é um pretexto para a crueldade das outras raparigas. Não lhe atiram facas, como acontecerá numa extraordinária crucificação final com outra protagonista, mas, entre gritos e risos, atiram-lhe tampões e pensos higiénicos. O livro começa, no entanto, com uma notícia de um evento insólito. Uma chuva de pedras caiu sobre a casa onde viviam Margaret White e a sua filha, Carrieta, de três anos. As referências à infância de Carrie e a sugestão de o seu poder ter começado desde cedo como reacção a uma mãe fanática religiosa e a um pai sempre armado com uma Bíblia e um revólver, não aparecem nas versões cinematográficas, mas são exploradas com mestria no livro. A única breve referência surge no início da versão de Kimberley Peirce, com o nascimento de Carrie, que a mãe, no seu estado psicótico, pensa ser um cancro. Em vez de morrer, dá à luz uma filha que atormenta e educa na ignorância.

 

Julianne Moore é uma Margaret White tão aterradora quanto Piper Laurie, mas Chloë Grace Moretz está longe de ser a Carrie imortalizada por Sissi Spacek. Há um pânico constante na Carrie moderna, incrédula mesmo que exerça o seu poder vezes sem conta. Em ambas há delicadeza física e beleza, duas características que Stephen King não previu no seu primeiro romance, mas que Hollywood não teve coragem de assumir. 

 

Dizem que “Carrie” é uma história de terror. Por mim, é só a história de uma rapariga que tenta sobreviver à mãe. Ninguém lhe pode levar a mal.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 12/13-4-14

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publicado às 19:32

PUB

por Carla Hilário Quevedo, em 13.04.14

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publicado às 19:16

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 12.04.14

Comme Un Chef (muito divertido). The Conjuring (longo e demasiado violento).

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publicado às 19:06

Bomba-correio

por Carla Hilário Quevedo, em 12.04.14

A propósito desta citação de Fernando Pessoa e do meu comentário, Hugo Carreira fez-me a seguinte pergunta: "Nova Iorque (a capital cultural e financeira dos Romanos de hoje) também está quase na latitude de Lisboa. E como pode o sermos "capazes só de obter a proporção fora da lei" ser um elogio?" O eixo Atenas-Lisboa-Nova Iorque faria provavelmente sentido para Pessoa, uma vez que "Nova Iorque" é o caso perfeito da liberdade "da pressão do Estado e da sociedade", em que o indivíduo pode crescer e viver com a possibilidade de escolha ao seu alcance, num sistema legal que o protege e não o oprime. Lisboa e Atenas, os helénicos, para obterem a "proporção" (aqui a referência será a Aristóteles e à teoria do meio) necessária à liberdade (e a proporção, ou a moral, é imprescindível para que não nos matemos uns aos outros, por exemplo), têm de se emancipar de um Estado opressivo e dos constrangimentos de leis tantas vezes hostis à liberdade individual. O que me parece que Pessoa está a dizer é que acredita em capacidades que os portugueses têm vindo a negar ao longo de séculos, talvez porque a emancipação do indivíduo não convenha ao Estado. Também não convém a muitos indivíduos, é certo. O que aconteceria em Portugal se um dia as pessoas percebessem que podem fazer o que querem da sua vida? Como em Nova Iorque? Ora aí está uma experiência social que não me importava nada de fazer.

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publicado às 18:27

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 12.04.14
Anna Karina

... houve duas polémicas feias esta semana. A primeira envolve Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura, na entrega do prémio APE pelo romance E a Noite Roda a Alexandra Lucas Coelho. Não faço ideia do que será estar sentado numa plateia a ouvir um discurso crítico ao governo a que pertenço, mas imagino o que seria a minha reacção pública num caso parecido. No fim do discurso crítico, dirigir-me-ia ao premiado, que cumprimentaria com um "parabéns e boa sorte" e nem mais uma palavra. Barreto Xavier resolveu ficar ofendido e tomar as dores do governo, que interessante, e teceu considerações sobre as críticas de Lucas Coelho, como se fosse mais do que o seu cargo, que consiste, lembro, em representar e servir o Estado. Desde o caso dos Miró que percebemos que Barreto Xavier não tem perfil para ocupar nenhum cargo público de relevância e, neste caso, tenho pena que Passos Coelho não seja mais parecido com Salazar. O segundo desastre vem de Assunção Esteves, que respondeu com falsa ligeireza que o problema de os militares irem às comemorações do 25 de Abril e não discursarem é deles. Bem sei que vivemos numa época em que a frontalidade é valorizada, mas, de novo, não da parte de altos funcionários do Estado. Sou das pessoas que não tem o menor interesse em ouvir nada do que os Capitães de Abril têm para dizer. Mas quem é que quer ouvir a tropa? Está tudo doido? Preferia, no entanto, que Assunção Esteves tivesse tido mais calma, mais distanciamento, a resolver este assunto, tão fácil de solucionar. O País, sabêmo-lo, é lindo. Mas tão cansativo... 

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publicado às 10:38