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Letra e música

por Carla Hilário Quevedo, em 24.03.15

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publicado às 23:02

Ouvidos em sangue

por Carla Hilário Quevedo, em 24.03.15

O massacre auditivo aconteceu há dias quando a TVI anunciou o começo de uma nova novela. A Única Mulher é o titulo desta aventura televisiva que não verei, não por snobismo mas por ódio a novelas. Ainda assim, mesmo com a necessária e pacífica mudança de canal, não é possível escapar aos anúncios com a canção a acompanhar. É costume ser uma 'coisa' (nome técnico) que fica no ouvido, mas desta vez não só fica como faz com que os pobres ouvidos de qualquer pessoa sensível fiquem em sangue. O tema cantado por Anselmo Ralph, além de apresentar as dificuldades de cantar uma frase como, “O que na raiva eu te digo/ Pois é ela a falar por mim” e de tentar uma rima insuportável em “Pois na verdade o que eu sintúúú é que túúú”, tem um refrão que desafia a própria, digamos, melodia. Falo de: “Tu pra mim és a únicamúúlher que me completa”. Não houve ninguém que percebesse o que isto dói? Será dos mesmos autores do verso clássico “tudo foi em vããão, ããão”?

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 20-3-15

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publicado às 22:58

Quem é o saudável?

por Carla Hilário Quevedo, em 24.03.15

Fazer uma biografia de alguém que nasceu na segunda metade do século XX pode ser um pesadelo por razões opostas às que dificultam a descrição de uma vida antiga. O limite das fontes no segundo caso não existe no primeiro. Suspeito por isso que o filão de biografias sobre Steve Jobs será longo. Notícias sobre Becoming Steve Jobs, uma nova biografia a publicar no fim deste mês, relatam um episódio em que Tim Cook, co-fundador da Apple e amigo próximo de Jobs, depois de uma visita em que ficou impressionado com o estado de Jobs, decidiu fazer análises para saber se poderia doar parte do fígado. Este acesso de altruísmo foi punido com três berros por Steve Jobs, que se recusou a ouvir argumentos que o fizessem mudar de ideias. Segundo Cook, o episódio mostra que Jobs não era o monstro de egoísmo que tem sido retratado. Até diria mais: revela que Tim Cook talvez não estivesse completamente bem e que Steve Jobs, mesmo às portas da morte, era saudável.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 20-3-15

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publicado às 22:54

Gatinhos, sempre

por Carla Hilário Quevedo, em 23.03.15

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App PictureShow com filtro Quad

 

Daqui a uns séculos, os historiadores referir-se-ão aos tempos que vivemos como a época em que a humanidade oscilava neuroticamente entre assistir a vídeos de execuções perpetradas pelo autoproclamado Estado Islâmico e vídeos queridos de gatinhos. Não sei o que move alguém a clicar num vídeo em que se anuncia uma degolação ou um linchamento de uma mulher que queimou um exemplar do Alcorão. Não vi nem quero ver. Que curiosidade é esta que leva pessoas aparentemente normais a querer assistir a uma decapitação online?

 

Do lado oposto à violência na Síria e no Iraque, autênticos infernos na terra, temos uma profusão de vídeos de gatinhos e cãezinhos e gatinhos e bebés. Embora não pareça, penso que um extremo não vive sem o outro e que a overdose de fofura terá sido criada para combater a violência absurda que nos entra todos os dias pelos ecrãs de computadores, tablets, smartphones. Não se pode sossegar porque há sempre algum site a impingir notícias de terror. Não conheço os números, mas tenho curiosidade em comparar a quantidade de visualizações do linchamento com o de um vídeo que vi há tempos de um cão a lamber as costas de um bebé, num movimento que o massaja. A criança, sentada no chão, não está minimamente incomodada com o que se está a passar, pelo contrário. O vídeo mostra como crescer é abdicar de várias formas inesperadas de prazer. Ou então é de mim.

 

Há dias, em conversa com a minha amiga Robin sobre a maravilha que é o Bored Panda fiquei a saber que o BuzzFeed tem uma pessoa a tempo inteiro a escolher os melhores vídeos de gatinhos. Um trabalho de sonho! O site tem uma secção sobre notícias de animais, onde se incluem as indispensáveis Cat News, e aí temos acesso a uma vasta quantidade de vídeos sobre os nossos amigos mais fofos. Há imagens de gatos a bocejar, uma selecção criteriosa de gatos a espreguiçar-se e até uma reportagem sobre o reencontro emocionante de um homem que vivia em Kobani, na fronteira entre a Síria e a Turquia, e a sua gata, que tinha deixado para trás por causa da tomada da cidade pelo Estado Islâmico. A primeira vez que voltou a casa para levar o bicho com ele para a Turquia, a gata tinha dado à luz. Os ataques continuaram, o homem teve de fugir e decidiu deixar gata e gatinhos para trás porque assim teriam mais hipóteses de sobreviver. Três meses depois, Kobani foi libertada. Quando o homem voltou à cidade, tinha a gata sentada nos escombros à espera dele. É uma história de amor, que une o mais tenebroso ao mais absolutamente fofo. Se isto não tem interesse jornalístico, não sei o que poderá ter!  

 

Sou fã de vídeos de gatinhos e digo-o sem vergonha nem pudor. Prefiro assistir a quatro minutos de cenas de cães brincalhões a tentarem ser amigos de gatos do que a ver a maior parte dos telejornais, isto para não falar de qualquer programa da tarde na televisão portuguesa. Não é por apatia. É mesmo porque já vi demais, já percebi o que não queria, já me entraram pelo ecrã dentro com a realidade violenta que não tem solução. E também porque não tenho um aquário e olhar para o tecto é um bocado monótono. Gatinhos, sempre.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 17:32

Continuando

por Carla Hilário Quevedo, em 22.03.15

Watrous, 1900.jpg

Harry Wilson Watrous, The Discussion, 1900

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publicado às 18:13

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 21.03.15

Penguins of Madagascar (uma absoluta maravilha). Boyhood (estava tudo a correr bem até chegar a adolescência).

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publicado às 10:32

Não relação entre uma coisa e outra

por Carla Hilário Quevedo, em 21.03.15

Li há dois dias um artigo no Guardian com o título eloquente I didn't have anorexia because I wanted to look like a fashion model, que vai ao encontro do que escrevi. A ideia de os distúrbios alimentares estarem relacionados com aquilo que as raparigas vêem nas revistas é estúpida e perigosa porque faz com que um problema grave de saúde pareça frívolo. O meu agradecimento a Hadley Freeman também por ajudar a combater a ideia falsa de que "é preciso passar por certas coisas para as compreender". 

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publicado às 10:15

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 21.03.15

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Ava Gardner, 1940

 

... como é que uma pessoa muda a sua conduta desajustada e desequilibrada que só lhe traz infelicidade? Como pode fazer para ter paz de espírito? Estas perguntas têm sido respondidas de várias maneiras, algumas das quais fraudulentas, como a astrologia ou a auto-ajuda. A psicanálise não tem os resultados esperados para todos. Ah, e claro: a educação superior, sempre, também não garante a felicidade. Acontece que a verdade (desculpem a arrogância, mas são muitos anos a pensar no mesmo, por motivos que não quero esclarecer) é mais complexa. Pode dar-se o caso de só poder haver paz para os que têm condições para isso, o que significa que por vezes não há nada que se possa fazer e não há nada que possam fazer. Simplesmente a chamada 'vida boa' não se consegue por nada que 'façamos'. Também não depende da inteligência de cada um. É outra coisa. Tem que ver com coragem, mas não tem nada que ver com heroísmo.

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publicado às 09:58