O New Oxford American Dictionary elegeu um verbo como palavra do ano. Unfriend, que no Público apareceu traduzida por «desamigar», nasceu no contexto das redes sociais, mais concretamente no Facebook. A tradução parece sensata. Trata-se de retirar um estatuto, neste caso de amigo literalmente virtual, descontinuando uma ligação. É por isso que os amigos do Facebook não são necessariamente nossos amigos: são pessoas a quem atribuímos um estatuto. Se for verdade que qualquer palavra implica pelo menos um antónimo, então para amigar temos desamigar sem dificuldade. Outro ponto a favor da tradução é a sugestão amorosa do verbo original. A partir do momento em que temos pessoas a falar umas com as outras tudo pode acontecer. Acontece muito o insulto, daí haver a necessidade do bloqueio. Também acontece o enjoo, o que leva ao desamiganço. E assim amigalhaços passam a desamigalhaços. Mas, por vezes, os amigos começam por ser virtuais e depois saltam para fora da máquina e acompanham-nos durante muito tempo na nossa vida. Tornam-se amigos à moda antiga, sem utilidades à mistura, e até nos esquecemos de que tudo começou numa rede social ou num blogue. No entanto, o conceito de se desligar de alguém no mundo virtual, ou, neste caso, de retirar a alguém um certo estatuto, não é novo. Com o lincar nos blogues veio o deslincar. E ligar e desligar têm efeitos bem diferentes. Se por um lado a ligação parece agradar muito, o acto de desligar alguém poucas vezes é entendido como um acto de paz e amor. Ninguém entende no mundo virtual que o problema seja: «Não és tu, sou eu». Depois de unlink ou deslincar, nos blogues, temos unfriend no Facebook e unfollow, no Twitter. E agora? Como vamos traduzir a elegância da palavra unfollow? «Des-seguir» está simplesmente fora de questão. «Inseguir» também. Proponho que recuperemos a mais famosa redundância da língua portuguesa: «deslargar». Porque seguir alguém no Twitter é como ouvir alguém que já está largado a pensar em voz alta. O que é que as redes sociais trouxeram de novo ao modo como as pessoas se relacionam umas com as outras?
Publicado hoje no Metro. Deixe a sua opinião através do
How doth the little crocodile
Improve his shining tail,
And pour the waters of the Nile
On every golden scale!
How cheerfully he seems to grin,
How neatly spreads his claws,
And welcomes little fishes in,
With gently smiling jaws!
Lewis Carroll, Alice in Wonderland


Penélope Cruz precisa de um iPhone com a máxima urgência para twittar, twittar, aqui e além.
Mais um caso de apedrejamento na Somália. Desta vez, os homens do grupo Al-Shabab assassinaram um adúltero. Por misericórdia, a execução da namorada foi adiada porque a mulher está grávida e vão esperar que a criança nasça para poderem matar a mãe e entregar a criança aos familiares. O grupo fundamentalista Al-Shabab está a especializar-se na aplicação da Sharia mas está também a ser alvo de críticas. O Presidente Ahmed acusa-os de desprestigiar o Islão e de obrigarem as mulheres a usar quilos de roupa sobreposta com intenções que de religioso têm muito pouco. Parece que a intransigência religiosa não é mais que uma desculpa para defender o monopólio dos têxteis. Interessa ao grupo Al-Shabab, que fabrica a roupa, vender o máximo de trapos. E nada mais eficaz que impor a obrigação do seu uso para vender mais. Na Somália as agências de publicidade não são necessárias. No entanto, o Presidente Ahmed também declarou ser a favor da aplicação da Sharia. Por sua vez, o grupo Al-Shabab acusa Ahmed de ter uma visão demasiado branda do Islão. Fico à espera que o sindicato dos pedreiros da Somália tome uma posição sobre o assunto.
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 13-11-09.
Rachel Christie, a Miss Inglaterra, perdeu a coroa porque se envolveu numa cena de pancadaria com a Miss Manchester. O combate travado numa discoteca parece que aconteceu por causa de um homem. Terá sido um problema de calças em vez dos estafados problemas de saias. O lugar de rainha da beleza de Inglaterra passou a ser ocupado por Katrina Hodge, uma beldade que faz parte do Royal Anglian Regiment. Sim, a menina está no exército. Hodge já foi condecorada pelos seus méritos na campanha de Bassorá, no Iraque, onde conquistou o epíteto de Combat Barbie. A rainha que foi obrigada a abdicar do trono é uma atleta de alta competição, candidata a medalha de ouro nas próximas Olimpíadas, nessa modalidade exigente chamada heptatlo. Estamos a assistir a um momento crucial na história dos concursos de beleza. Ainda há pouco as rainhas eram escolhidas entre candidatas que desejavam a paz entre os povos e que queriam acabar com a fome no mundo. Agora temos uma geração de super-mulheres que gostam de acção e que querem esmagar as suas rivais. Sugiro que as próximas candidatas comecem já a fazer abdominais e flexões e deixem de lado as mariquices de outrora.
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 13-11-09.
As histórias de toxicodependência de Kate Moss e de violência de Naomi Campbell são bem conhecidas. Os tablóides exploram ao máximo tricas sobre mulheres bonitas caídas em desgraça. E mulheres bonitas caídas em desgraça adoram falar com jornalistas. É o caso de Stephanie Seymour, mais uma super-modelo da colheita de noventa, cujo divórcio tem sido objecto de interesse pela imprensa britânica. O falatório tem sido tanto que o casal desavindo acordou em não falar mais com os media. Mas enquanto falaram, Peter Brant, o marido, fez várias queixas surpreendentes sobre a mulher. Conta que abusava de opiáceos, álcool e Vicodin e que era violenta. Seymour é uma mistura de Moss e Campbell. Um Frankenstein com cara de anjo. Um artigo na edição da Vanity Fair de Dezembro conta que Seymour, antes de casar, fora processada por Axl Rose por esta lhe ter atirado uma cadeira e lhe ter dado um murro numa zona delicada. A rapariga com ar de quem não parte um prato é uma delinquente. Mas o pior mesmo, diz Brant, é uma vez ter metido cinco Warhol, uma Cindy Sherman, cinco molduras da Tiffany e um tapete de pele de leopardo, tudo ao monte no porta-bagagem do jipe. Isso, ele não lhe perdoa.
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 13-11-09.

Federico Barocci, Enea che fugge da Troia, 1598, Galleria Borghese, Roma
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