Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Cenas da vida conjugal

por Carla Hilário Quevedo, em 22.04.14

- É incrível que tenham passado os últimos dois dias a spoilar Game of Thrones no Twitter. Cambada de chatos!

- Mas o que é que nos pode supreender?

- Parece que neste episódio há uma cena terrivel que os puritanos dos americanos não admitem. Já estão a dizer que a série nunca mais será a mesma.

- Os irmãos outra vez? 

- Sim, mas...

- Com o anão?

- Não, querido...

- Com a mulher do anão?

- Também não, meu amor... 

- O pai abençoa a união?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:33

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 22.04.14

World War Z (muito bom e Angelina Jolie escolheu a actriz que contracenou com Brad Pitt: "quero-a deslavada, assim loirinha, pequenina e a sair ao pai", disse). Ieri, Oggi, Domani (adorei as três histórias, sobretudo a segunda). 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:30

Muito melhor

por Carla Hilário Quevedo, em 20.04.14
App PictureShow com filtro Quad sobre Ricardo "Carlos Miguel" Araújo Pereira

 

O título do novo programa de Ricardo Araújo Pereira pode dar a impressão de que a fasquia está baixa. Afinal de contas, quase tudo será “melhor do que falecer”, sobretudo para quem viu as duas versões de Insidious, dois filmes de terror que retratam o Além como um sítio escuro, mal frequentado e pestilento. Ninguém quer aquilo, mas sobretudo, e agora dirigindo-me aos que acreditam que isto acaba aqui, ninguém realmente quer sair deste vale de lágrimas. A menos que se sofra de uma doença mental, ninguém quer falecer. Daí o título. Acontece que há pessoas que não negam à partida um além que desconhecem. E até pode ser verdade que vamos desta para melhor. Neste caso, a fasquia está altíssima. Melhor do que falecer é rir. E se houver melhor do que rir? Só noutro mundo o poderemos saber. Mas nunca vamos poder contar a ninguém.

 

Mais dúvidas existem sobre ser melhor a liberdade do que a prisão, a coragem do que a cobardia, o pensamento do que a apatia. Ser radical e moralista só fica bem aos muito jovens. Os mesmos radicalismos e moralismos em pessoas mais velhas soam a tentativas desesperadas de se agarrarem a uma juventude que se negam a acreditar que passou. A verdade, ou a vida, não é assim tão simples e isso é bom. Depois de tudo espremido, só não restam dúvidas quanto à necessidade de termos a presença diária de Ricardo Araújo Pereira na televisão em horário nobre. A única estranheza está na ausência dos restantes membros do grupo Gato Fedorento. É uma falta a que nos teremos de habituar. Miguel Guilherme é um excelente actor, que quase não precisa de falar para provocar o riso. Mas é uma novidade para o espectador conservador.

 

Passaram mais de dez anos desde que assisti pela primeira vez ao vivo a um sketch protagonizado por Ricardo Araújo Pereira, numa discoteca em Alcobaça. Não me lembro da ocasião que o levava àquele sítio com José Diogo Quintela, mas em boa hora fui ver o espectáculo dos dois. O sítio foi abaixo quando o Ricardo apareceu a fazer de Bad Boy MC Crazy Motherfucker, o Carlos Miguel da Cova da Moura. Houve pessoas a cair da cadeira quando o Carlos Miguel descreveu uma luta no bairro: “Com uma ponta e mola, rasga a barriga do outro. Começa a saltar à corda com o intestino delgado do rapaz, só com uma mão e a boca, nhm, nhm”. Uma década depois, temos a mesma atitude de surpresa. A graça continua a estar no inesperado, em contrariar as expectativas, nos jogos com as palavras, no gosto pela língua portuguesa. O humor de Ricardo Araújo Pereira é, por isso, intemporal; tão fresco e moderno como Teofrasto.

  

O melhor de “Melhor do que falecer” é ser mais uma prova do talento do Ricardo, que cresce em público da melhor maneira que há, que é a de nos fazer esperar pelo melhor, dando sempre o que esperamos dele, fazendo com que esperemos ainda mais, até fazer do público um monstro de egoísmo e capricho.

 

Dizem que “Melhor do que falecer” faz pensar. Pois, talvez, depois, alguns ou a muitos fará pensar. A mim, faz-me rir à gargalhada e faz-me bem à memória. Só de me lembrar, volto a rir como da primeira vez.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 19/20-4-14.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:54

Afinal havia outras influências

por Carla Hilário Quevedo, em 20.04.14

George Bush's paintings bear uncanny resemblance to Google images

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:51

Líderes mundiais

por Carla Hilário Quevedo, em 16.04.14

Por falar em ex-presidentes na reforma, vale a pena contar a história que o recém-pintor George W. Bush revelou numa entrevista a propósito da sua exposição de retratos. Todos os retratados tiveram alguma relação com o ex-Presidente norte-americano. Um deles é Vladimir Putin. Quando esteve na Casa Branca, Bush apresentou o seu amado Barney, um scottish terrier, se não me engano, ao Presidente russo. O comentário de Putin foi: «Chamas a isso um cão, pá?». Meses depois, Bush foi de visita à Rússia e Putin fez questão de lhe apresentar o seu cão. Quando o chamou, o bicho apareceu a correr a toda velocidade. Era um cão enorme que imagino ser uma mistura de rottweiler com husky siberiano. Putin disse: «O meu cão é maior, mais forte e mais rápido do que o teu». Foi esta frase que inspirou o artista quando fez o retrato. Lembro que uma destas pessoas foi por duas vezes o homem mais poderoso do mundo e que o outro é ainda hoje o segundo mais poderoso.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-4-14

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:30

Reformas e reformas

por Carla Hilário Quevedo, em 16.04.14

Se perguntássemos o que fazem os presidentes em Portugal quando deixam de ser presidentes, a resposta seria fácil. Eanes abandonou a política, mas faz um comentário ali, apoia fulano acolá e não comenta sicrano. Mário Soares não abandona a política nem que o amarrem ao sofá. Jorge Sampaio continua atento e sempre discreto. O Washington Post quis ouvir respostas e parece que são poucos os ex-presidentes norte-americanos que se mantêm politicamente activos. Jimmy Carter, se o deixarem, vai a todas, mas no estrangeiro. Clinton tornou-se o guru dos Democratas e é decisivo em eleições partidárias. Mas são excepções. A regra é não fazerem nada de especial, a não ser no caso de Bush filho, que descobriu que é artista. Quem teve graça foi o desaparecido Herbert Hoover. Apesar de continuar activo na política, quando lhe perguntaram o que faziam os ex-presidentes, respondeu: «Tomamos comprimidos e inauguramos bibliotecas». Se calhar não é má ideia.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-4-14

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:23

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 16.04.14

Carrie White aka Sissi Spacek

 

... ao contrário do que fez o próprio Stephen King no Twitter com o mais recente episódio de Game of Thrones - raios o partam, que passou a ser conhecido por Stephen "Spoiler" King - não quis spoilar - pior do que o bullying só o spoilling - o fim de Carrie. Só posso acrescentar que o final do livro é um clássico, porque prevê a continuação do terror. O fim na adaptação para cinema de 2013 interpreta essa continuação e oferece uma solução interessante para Sue Snell, muito de acordo com a redenção a que a personagem se propõe. Só Brian de Palma julga que a história de Carrie acaba com ela. Percebeu menos e pior.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:51

Algumas comparações

por Carla Hilário Quevedo, em 15.04.14

App PictureShow com filtro Vivid e moldura 135 Reversible sobre imagem com Carrie velha e Carrie nova. 

 

A história de Carrieta White, de Stephen King, cuja publicação data de 5 de Abril de 1974, não me era desconhecida, mas nunca tinha tido lido o livro nem visto o filme de Brian de Palma, de 1976, com o título homónimo “Carrie”. Foi a versão recente da realizadora Kimberly Peirce que me levou ao filme de Brian de Palma e à obra original de Stephen King. A versão de 2013, ao contrário do que dizem as más-línguas, está bem pensada. Mas o mais interessante de ambas as versões é mesmo a obra que as une da autoria de Stephen King.

 

Dizem que “Carrie” é uma história de terror. Para quem não sabe, a telecinésia, como a palavra indica, é a capacidade de mover (“cinésia”, que tem que ver com “cinema”) objectos à distância (“tele” tem que ver com distância: cf. “televisão” ou “telefone”). Carrie é uma rapariga de 16 anos que a dada altura descreve a sua mente como estando “dobrada”, a fazer lembrar o cérebro que se “ajoelha” do monólogo Not I, de Samuel Beckett. Basta que Carrie pense na possibilidade de um objecto ou uma pessoa se moverem para isso acontecer. Num excerto do seu livro On Writing, recentemente publicado no Guardian, Stephen King conta que Carrie “surgiu” depois de ter lido um artigo na Life sobre telecinésia. Existia a crença de que sobretudo as raparigas no início da adolescência, por alturas do aparecimento da primeira menstruação, tinham este poder. A esta ideia juntava-se a memória de um trabalho de Verão num liceu e um balneário feminino com cortinados cor-de-rosa nos chuveiros.

 

Carrie, de Brian de Palma, começa com uma imagem de raparigas no recreio a jogar voleibol. Segue-se a célebre cena do chuveiro, num balneário sem cortinas nem privacidade. Carrie está sozinha, a tomar banho e, de repente, sangue escorre pelas pernas abaixo. Ninguém a está a matar, mas Carrie pensa que está a morrer, e o seu desespero, que resulta da sua ignorância, é um pretexto para a crueldade das outras raparigas. Não lhe atiram facas, como acontecerá numa extraordinária crucificação final com outra protagonista, mas, entre gritos e risos, atiram-lhe tampões e pensos higiénicos. O livro começa, no entanto, com uma notícia de um evento insólito. Uma chuva de pedras caiu sobre a casa onde viviam Margaret White e a sua filha, Carrieta, de três anos. As referências à infância de Carrie e a sugestão de o seu poder ter começado desde cedo como reacção a uma mãe fanática religiosa e a um pai sempre armado com uma Bíblia e um revólver, não aparecem nas versões cinematográficas, mas são exploradas com mestria no livro. A única breve referência surge no início da versão de Kimberley Peirce, com o nascimento de Carrie, que a mãe, no seu estado psicótico, pensa ser um cancro. Em vez de morrer, dá à luz uma filha que atormenta e educa na ignorância.

 

Julianne Moore é uma Margaret White tão aterradora quanto Piper Laurie, mas Chloë Grace Moretz está longe de ser a Carrie imortalizada por Sissi Spacek. Há um pânico constante na Carrie moderna, incrédula mesmo que exerça o seu poder vezes sem conta. Em ambas há delicadeza física e beleza, duas características que Stephen King não previu no seu primeiro romance, mas que Hollywood não teve coragem de assumir. 

 

Dizem que “Carrie” é uma história de terror. Por mim, é só a história de uma rapariga que tenta sobreviver à mãe. Ninguém lhe pode levar a mal.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 12/13-4-14

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:32