
Há poucas semanas, os investigadores do King’s College arruinaram o santo graal do orgasmo feminino: o ponto de Gräfenberg, mais conhecido por Ponto G. Anunciado nos anos cinquenta e com existência formalizada nos anos oitenta, o tal ponto era afinal mais um produto da fé que da realidade. Os cientistas ingleses chegaram a esta conclusão após terem estudado 1800 mulheres, ou mais precisamente novecentas mais as irmãs gémeas. Sem entrar em pormenores que me escapam, a tese era a seguinte: se o ponto G existia numa mulher, também podia ser encontrado noutra com a genética idêntica. Como tal não aconteceu, decidiram que o Ponto G não existia. E quem somos nós para discordar da seriedade e da exactidão da ciência? No entanto, perante um tal escândalo, os franceses, não podiam ficar calados. Partiram para a violência e comprovaram o Ponto G nos exames de 56% das mulheres observadas. Isto significa que os ingleses e os franceses encontraram uma nova modalidade em que competir. Mas o melhor desta discussão foi o contra-argumento de um cientista francês aos chatos dos ingleses: «Não é uma questão de genética mas de uso». Vive la France!
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 5-2-10
Um homem perigoso
por Vasco Pulido Valente, no Público
Alegadamente, o primeiro-ministro aprovou (ou, pelo menos, conhecia) um plano secreto e pouco saboroso para remover alguns críticos, que o irritavam, fazendo comprar a TVI e parte da imprensa por gente da sua confiança. As criaturas que ele queria exterminar eram, entre outras, o casal José Eduardo Moniz-Manuela Moura Guedes, como responsável pelo Jornal de Sexta, e José Manuel Fernandes, como director do PÚBLICO. Isto, a ser verdade, roça o absurdo. Nem o Jornal de Sexta, nem o PÚBLICO tinham o poder de pôr em risco o Governo ou sequer de afectar significativamente o prestígio e o estatuto de Sócrates. Se alguém tinha esse poder era o próprio José Sócrates, para não falar no grupo obscuro e anónimo, que, segundo se depreende dos documentos que o Sol revelou, o serviu zelosamente no terreno.
Não vale a pena insistir na ilegalidade e, sobretudo, na profunda imoralidade da operação, se por acaso existiu como a descreveram. Em qualquer sítio para lá de Badajoz, nenhum político sobreviveria um instante a essa grosseira tentativa de suprimir com dinheiro público o livre exame e a livre crítica, que a Constituição e os costumes claramente garantem. Mas não deixa de surpreender (e merecer comentário) que um primeiro-ministro de um partido que se gaba das suas tradições democráticas, declare por sua iniciativa, e sem razão suficiente, guerra aberta à generalidade dos media, que não o aprovam, defendem e bajulam. Não há precedentes na história deste regime de um ódio tão obsessivo à discordância, por pequena que seja, ou a qualquer oposição activa, de princípio ou de facto.
O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós.

... a chave de ontem do Euromilhões - 34 35 38 39 46 + 3 4 - foi uma vergonha.
... com Vasco Pulido Valente em 1993. Nem tudo se perde.

Linda Fiorentino
... ai, este país. Por muito que se ame Portugal, há alturas em que se duvida das vantagens em continuar a viver aqui. E se há dúvidas, então é porque o amor que julgávamos incondicional está a ser posto à prova. Ou estará a atravessar aquilo a que Alasdair MacIntyre chama uma crise epistemológica. Teremos de lidar com o problema resdescrevendo-o. Pode ser mais simples do que parece e passa por frases como: «Mas depois onde é que íamos comer um linguado grelhado por oito euros?» ou ainda «E este sol, meu Deus!». Nem todas as crises são para dramas. Entretanto, por uma vez na vida, estou em desacordo com Vasco Pulido Valente no artigo de ontem no Público. Não completamente, só porque também não gosto nada do artigo que Mário Crespo escreveu. Nada contra Mário Crespo, que não conheço, mas, mas, um grande mas. Às tantas temos Sócrates contra a TVI, o Público, o Sol e o Mário Crespo. Mas o que terá feito Mário Crespo para volta e meia estar no centro das atenções? Palavra de honra que não me apercebi de nada. Mas passemos à parte que me custa, que é a de não concordar com Pulido Valente. Ou pior: custa-me a minha certeza pesada de ter razão. O restaurante do Tivoli não é a Assembleia, mas o homem é o mesmo. Na verdade, Sócrates é de uma coerência impressionante: grita no restaurante como grita no Parlamento. Foi o próprio PM, com o seu comportamento, que acabou com as poucas hipóteses de ter conversas privadas. Neste caso (e no dos políticos em geral), a privacidade tem de ser conquistada. Está longe de ser um dado adquirido e ainda menos um direito. Pela simples razão de que estas pessoas nos representam. Não quer dizer que tenham de ser modelos de virtudes. Mas convém que não sejam completamente inseguros, irresponsáveis e de uma imprudência perigosa.
The Hangover (um hino à estupidez masculina - amei)
Esta semana o país ficou a saber que o primeiro-ministro, José Sócrates, o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, e o ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, almoçaram no restaurante do Hotel Tivoli. No mesmo local almoçavam Nuno Santos, director de Programas da SIC com Bárbara Guimarães, colaboradora da estação, e ainda outros clientes anónimos. Ficámos a saber o que seria um pormenor iníquo da vida portuguesa porque a dada altura José Sócrates terá dito em alto e bom som o que pensava a respeito de Mário Crespo. Alguém incomodado com a conversa, contou o que ouviu ao jornalista da SIC Notícias, entretanto tratado de «mentalmente débil» para baixo, e Mário Crespo descreveu o relato na sua coluna no Jornal de Notícias. O seu texto de opinião não chegou a ser publicado. Ora, o que têm em comum as cinco pessoas que almoçavam no Tivoli? Todas são figuras públicas. As diferenças entre elas são igualmente evidentes: nem todas têm responsabilidade sobre os destinos da nação. Esta diferença curiosamente não parece contar muito quando se fala da vida privada dos políticos. É como se fôssemos todos iguais. Pois não somos. Quando um Primeiro-ministro se refere publicamente seja ao que for ou a quem for, perdeu o direito à privacidade. Sobretudo quando nem sequer se preocupa em baixar a voz. Por uma mera questão de bom senso, mesmo a mais anónima das criaturas se coíbe de insultar ausentes em pleno restaurante, pois sabe que isso pode ter consequências desagradáveis. Mais que a não publicação do artigo de Mário Crespo ou mesmo que os termos exactos da conversa, interessa perceber qual é afinal o valor das palavras de um alto dirigente do país, e se tem direito a ter conversas privadas em público em que revela um desagrado anormal por quem não concorda com ele. Desvalorizar a conversa, remetendo-a para a esfera privada, é uma forma de desresponsabilizar o autor das suas palavras. Qual é o limite da privacidade de um governante? O que significa invocar o direito à privacidade num lugar público?
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