O título deste texto pertence ao escritor Alain de Botton, que acaba de lançar um livro intitulado A Religion for Atheists. O conceito original do Ateísmo 2.0 foi apresentado pelo autor numa TED Talk. Segundo de Botton, os ateus não devem ficar fixados na não existência de Deus. Devem, sim, fazer um esforço para melhorar a sua vida, desenvolvendo uma espécie de «projecto wiki» pessoal das soluções de cada religião que mais lhes agrada. Por exemplo, a Igreja Católica nos Estados Unidos angariou cerca de 97 biliões de dólares no ano passado para ajudar os necessitados. O autor sugere que os ateus aprendam com este exemplo de solidariedade, e que sejam capazes de formar as suas próprias comunidades de inter-ajuda. Fiquei com a ideia de que Alain de Botton quer o melhor de todos. Até imergir na água (mikveh) para se purificar dos pecados, como é da tradição judaica. Mas uma resposta que deu no fim da conferência ajudou à sua tese: há que ser bem-educado em relação às diferenças. A tolerância é o mais importante. É o que permite que um ateu e um crente sejam amigos, por exemplo. Se o Ateísmo 2.0 contribuir para a assimilação deste valor cristão, já não é mau.
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 3-2-12
... por isso resta-nos esperar pela versão americana de The Killing. Pode ser que sejam mais competentes e sérios a contar a história, sobretudo o final.
... ao longo de mais de dois meses, assisti a The Killing com entusiasmo. A série estava muito bem construída, as personagens eram fiáveis e a trama parecia pensada ao pormenor. Cada episódio terminava com um suspeito diferente e com a promessa de no episódio seguinte sabermos mais sobre as descobertas deixadas no ar no episódio anterior. Foram meses de puro prazer até ontem. Os dois últimos episódios de The Killing são altamente decepcionantes e comprometem a credibilidade da série. É certo que em vários momentos da história tinha ficado com a impressão de que Sarah Lund era incompetente e que a investigação policial deixava muito a desejar, mas a própria história, o modo como estava construída e como nos era apresentada, dava indicações de que, apesar da polícia dinamarquesa, tudo se resolveria no momento do desenlace, do reconhecimento do assassino, no momento em que a verdade seria, por fim, revelada. Havia pontas soltas, mas a própria narrativa prometia explicações. The Killing é um policial, uma obra de ficção, com regras, que de novo nada têm. É por isso possível (e desejável) apontar os erros e os desvios (pôr Lund sob suspeita é uma escolha errada porque, mesmo num ambiente de incompetência, arranjar um chefe que vem de fora para a acusar é rebuscado, pouco credível, além de inútil, pois afasta o espectador: foi nesse momento que deixei de acreditar na série). Não quero dar exemplos concretos e estragar o suspense a quem não viu o fim. Admito que a falta de exemplos funcione aqui contra mim. O importante é que as expectativas foram sendo criadas e bem geridas por parte dos argumentistas. É por isso legítimo falar em decepção. Fiquei furiosa com o final insatisfatório. Acho que fomos enganados. Lamento dizer, mas, para mim, a primeira temporada de The Killing é uma fraude.
"Se este Governo suspender a aplicação do acordo ortográfico, terá dado um contributo inestimável à cultura portuguesa", por João Pereira Coutinho
Estou com Vasco Graça Moura e ninguém tem nada com isso, da Ana Cristina Leonardo.
Graça Moura dá ordem aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico
Parece que o Acordo Ortográfico (AO), embora ainda não tenha entrado em vigor, é de uso obrigatório nas instituições* portuguesas. Enquanto a maior parte dos cidadãos o ignora, resistindo assim às mudanças impostas, nas escolas os alunos aprendem a escrever português à moda do dito Acordo. Um pai decidiu agir contra esta imposição e quer impedir que a filha aprenda a escrever assim. Por notícias avançadas pelo SOL, ficámos a saber que um movimento dos pais contra o Acordo Ortográfico será o modo mais eficaz de abolir este processo. António Emiliano, professor de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, é da opinião que, à semelhança do que aconteceu com a TLEBS, «uma terminologia nova para a gramática que não fazia sentido nenhum», que acabou por ser vencida graças à resistência das associações de pais, o Acordo Ortográfico poderá ser combatido usando o mesmo método. Também Ivo Miguel Barroso, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, defende que estas mudanças na grafia por decreto são inconstitucionais e apresentou um pedido de revisão da constitucionalidade do Acordo na Provedoria de Justiça. Por fim, ainda no SOL, leio que no Brasil há também tentativas de impedir que o AO entre em vigor. São incontáveis as queixas isoladas de cidadãos nas redes sociais e nos blogues. Nos jornais, vários comentadores e colunistas optam pela grafia dita «antiga», fazendo assim parte da imensa massa de resistentes passivos à escrita de vocábulos como «Egito» - parece que é um país – ou «telespetador – um novíssimo erro ortográfico, segundo as regras malucas do AO, pois aquele cê de «telespectador» não é mudo. Até quando vamos aturar este ataque inexplicável à língua portuguesa?
Publicado hoje no Metro.
* Para ser rigorosa, serviços do Estado e entidades tuteladas pelo Governo.
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