Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Diário outonal (9)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.12.17

- Blogger de sempre, emigrado no Twitter, Ivan Nunes partilhou esta maravilha na timeline, através da magia do retweet, provando deste modo que a internet não é só dos trolls em geral e em particular. Há muito espaço para nerds criativos e originais. Muito bem!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:07

Diário outonal (8)

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.17

- Vai fazer 20 anos que vi um anúncio no Público em que uma empresa não identificada pedia um assistente editorial. Enviei uma carta manuscrita a acompanhar o currículo. "Mas isto é coisa que se apresente, uma cartinha assim escrita à mão?', reclamou, sorridente, o Pedro Rolo Duarte. Trabalhei no DNa durante uns meses, e o que me impressionou no Pedro foi o seu profissionalismo. Além de criativo, era um excelente editor, uma profissão que faz tanta falta nos jornais de hoje. Sabia do seu ofício, que incluía perceber o potencial das pessoas. A dada altura, depois de várias traduções e revisões, o Pedro perguntou-me se tinha "alguma coisa escrita minha" e mostrei-lhe dois contos curtos. Publicou ambos no DNa. Acho que era generoso com as pessoas de quem gostava. Ver os dois, enfim, "contos" (ambos para lá de maus) impressos no papel deu-me a perfeita noção dos meus limites. Tenho a agradecer-lhe várias coisas, entre as quais esta. Obrigada, Pedro. 

- Ontem foi um dia muito triste. A noite trouxe a graça desta frase do Miguel: "E agora? Com quem é que eu não vou almoçar todas as quartas-feiras?" Ouviu-se uma gargalhada do céu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:45

Diário outonal (7)

por Carla Hilário Quevedo, em 17.11.17

- Ainda a propósito da Web Summit, ficámos a saber que o Panteão tem estado muito animado. Quem diria... Gostava de saber se o génio geek que inventou este teste definitivo esteve presente no evento em Lisboa. Ora aí está uma criatura a quem gostaria de fazer umas perguntas (a terminar em "duh!").

image1.jpeg

- Quanto ao deslumbrante quadro de Leonardo Da Vinci, arrematado por uns meros 400 milhões de dólares (os restantes 50 milhões e trocos correspondem a variadas taxas), Salvator Mundi, só lamento não ter a quantia disponível para poder fazer o telefonema da licitação. É tão injusto.

- Li duas boas piadas sobre a venda deste quadro, uma no Inimigo Público e outra no The Onion. No Guardian foi publicado um artigo sério sobre como se chegou a um valor tão elevado. É pôr um grupinho de bilionários a competir. Os homens são mais tansos, isso é certo, mas divertem-se mais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:08

Diário outonal (6)

por Carla Hilário Quevedo, em 11.11.17

- Ontem, no Irritações (o programa foi gravado na quinta-feira), irritei-me com a Web Summit, mais precisamente com o endeusamento das figuras que nos visitam para falar sobre aplicações. Para mim, uma startup é uma empresa que começa para cima, por isso, naturalmente que não fui à cimeira dos techies e dos nerds empreendedores. Atenção que me parece excelente que a Web Summit se realize em Lisboa. Acho perfeito que se reúnam aqui, que gastem aqui e que fiquem por cá a viver. Portugal precisa de investimento e precisa sobretudo de pessoas para crescer. O que me irrita na Web Summit é o estado de fascínio pueril pelos semideuses que dominam algoritmos e inventam aplicações para encontros, restaurantes, viagens ou seja o que for. Irrita-me que a imprensa e os governantes glorifiquem pessoas como o inventor do Tinder, ou um advogado "que chegou a presidente da Microsoft", pronto, ou uma senhora que inventou o booking.com (que dá imenso jeito, claro) ou outro que "lidera" o Messenger. Já para não falar do robô Sophia, que, segundo uma amiga, "não dá uma para a caixa". São de certeza "excelentes profissionais", com o quociente emocional certo e as características adequadas para trabalhar em equipa e liderar ao mesmo tempo. Mas é preciso pôr as coisas nos seus devidos lugares. Estas pessoas tiveram boas ideias e enriqueceram por causa delas, o que é excelente e não passa disso. Alguém alguma vez quis ouvir o inventor do limpa pára-brisas? E o que devemos fazer ao inventor da roda? Bem vistas as coisas, já merecia uma estátua.

- Quanto aos visitantes nervosos da Web Summit que esperam ter uma ideia milionária a partir de uma conversa com estes semideuses devo dizer que estas coisas não acontecem por osmose. 

- Imaginem que tínhamos uma Book Summit e que vinham cá os escritores que mais livros vendem em todo o mundo. Estou a imaginar uma reunião de pesadelo com Paulo Coelho, Nicholas Sparks, Dan Brown, tudo organizado pelo esperto do Alain de Botton. O que teriam essas pessoas para dizer? “Tive uma ideia, escrevi um romance e vendi cem mil exemplares”? E?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:54

Diário outonal (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 09.11.17

- É a brilhantíssima Mindhunter, série tão bem escrita e interpretada, a excelente segunda temporada de Stranger Things (sétimo episódio incluído), Alias Grace, de que gostei por ser curta e por não demonizar a religião, e um cartoon de Maddie Dai. 

DOIxa7jXcAI3HIK.jpg-large.jpeg

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:53

Diário outonal (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 29.10.17

- Passados estes dias de exaltação mais que justificada acerca de um acórdão judicial sobre mais um caso sórdido de violência doméstica, fica a ideia de que, em Portugal, mal por mal antes ir parar ao hospital do que ao tribunal. Ainda sou do tempo em que era ao contrário. As pessoas normais viviam na ilusão de que um homem que desse um soco numa mulher, com ou sem bebé ao colo, receberia a devida punição (a meu ver, sempre insuficiente, mas sou uma pessoa antiga). A realidade das sentenças sobre violência doméstica que vieram agora a público ajuda a esclarecer aqueles que, do seu sofá moral, aparecem a acusar as vítimas de não terem dito nada "mais cedo". Como se fosse pouco, ficámos também a saber que há quem leia processos judiciais na diagonal e assine sem saber ao certo o que lá está escrito. Há de tudo neste mundo.

- É possível pagar e não ver o espectáculo do Ricardo Araújo Pereira? Os bilhetes estão esgotados e gostava de contribuir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:35

Diário outonal (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 28.10.17

- Há dias ouvi miar alto perto da janela da cozinha. Era um gato preto bem tratado que parecia perdido. Convidei-o a entrar em casa e reconheci-o. Dei-lhe leite, fiz-lhe umas festinhas e peguei no telefone para sossegar a dona, uma vizinha, que não tinha dado pela falta do bicho. Enquanto esteve aqui, o gato esteve manso e andou à vontade. Não lhe peguei ao colo porque não conhecia intimamente, miou como quem fala muito, ouvi e respondi como pude. Depois veio a dona, agarrou nele com uma toalha e disse que a criatura era um demónio. Mais tarde falámos. "O que fizeste ao bicho que está um anjinho?" Só o tratei como uma pessoa.

- Uma gata da rua teve dois gatinhos pretos. Têm ambos manchas brancas na zona do peito que se alongam até ao focinho. Dizer que são "muito queridos" é pouco. Decidi, no entanto, não intervir no Grande Esquema das coisas. Não posso agora dar atenção a um bicho, mas um ano e meio depois da morte do Varandas, voltei a achar graça à ideia de ter um gatinho pequenino. Os sofás que entretanto comprei também já não são assim tão novos. Talvez em 2018.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:32

Diário outonal (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 23.10.17

- No início do seu mandato presidencial, pareceu-me a dada altura que Marcelo dava muitos beijinhos e falava demais. Não parecia ter grandes razões para agir assim, mas era assim que agia. Aos poucos o Presidente passou a beijar mais e a não falar tanto, o que me pareceu do mais elementar bom senso. Percebi que era aquele o seu estilo, que não tinha medo das pessoas, e que assumia na perfeição o seu papel de mais alto representante do Estado, junto de todos, fracos ou menos fracos. Era muito criticado pela direita por causa deste seu comportamento, não sabemos se por ciúme ou medo de o Presidente estar envolvido num romance com o governo. Em Portugal, as analogias, sabemo-lo bem, variam entre a doença e as relações amorosas, e nem a realidade entediante de serem todos homens impedem os comentadores de se referirem deste modo a uma relação institucional. Até porque se é "institucional", há certamente "casamento", "divórcio". Seja como for, aqueles que há pouco tempo o criticavam por ser demasiado cúmplice com Costa, agora levam-no em ombros por ter sido "firme". A nenhum destes comentadores passa pela cabeça que Marcelo tenha valores mais altos em mente e que se guie por algo que vai além do que poderia ser o seu interesse mais imediato. A impressão com que fico, quase sempre, é a de que não há grandes diferenças entre políticos e comentadores políticos. Todos, cada um à sua maneira, fazem política. Não há nenhum mal nisso, mas há um mal em todos pensarem e dizerem o mesmo. 

- Numa manifestação pacífica em Belém, pouco antes de Marcelo falar ao País, podia ler-se num cartaz qualquer coisa como: "Basta de afectos". Pressupõe-se que a mente brilhante que deu origem a este cartaz considere excessivo aquilo que pouco depois vimos ser essencial às pessoas que sobreviveram a um autêntico inferno. Imagino o que tenha pretendido dizer com aquilo, mas aquele cartaz ridículo é a prova de que a falta de jeito existe em todo o lado. 

- João Miranda resumiu muito bem em imagens a relação do País com Costa e Marcelo. A felicidade de Constança, que claramente não sofre de síndrome de Estocolmo, com aquele que a libertou é mais reveladora do que qualquer carta. Não, nem tudo é casamento. Às vezes, é rapto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:22

Diário outonal

por Carla Hilário Quevedo, em 22.10.17

- Apesar das opiniões praticamente unânimes - que tenha dado por isso, só André Ventura não gostou do discurso do Presidente da República -, fiquei atónita quando li que o discurso de Marcelo tinha sido "brutal". Não quero passar a minha existência diarística intermitente a criticar jornalistas, mas acho sempre tudo um bocado jovem demais, com "descodificações" e "entrelinhas" que não podem deixar de ficar aquém de qualquer expectativa. Qualquer pessoa que leia o Washington Post, o TLS e o NYRB, chega aos jornais portugueses e - com excepções muito dignas, atenção - parece que está a ler o DN jovem, com a agravante de ter sido extinto há séculos. 

- Marcelo fez um discurso magnífico que começa desta forma aparentemente simples e que é a base de toda a sua exposição: "O Presidente da República é, antes de mais, uma pessoa. Uma pessoa que reterá para sempre na sua memória imagens como as de Pedrógão." Está aqui para quem quiser ouvir outra vez. 

- Entretanto, os jornais e as televisões passaram estes dias a insistir que Costa tinha pedido desculpa ao País. Isto porque o Primeiro-ministro respondeu o seguinte ao líder parlamentar do PSD: ""Não vou fazer jogos de palavras, se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas". As análises e os comentários feitos ao PM foram, apesar de tudo, caridosas, e nenhuma reduziu o Primeiro-ministro àquele tipo de pessoa que adora dar boas notícias e que não sabe lidar com os problemas. É, porém, apenas isto que temos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:17

Diário pós-estival (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 09.10.17

- É triste que na sucessão no PSD, o partido não apresente nenhuma mulher como possível líder do partido. Continua a ser tudo demasiado masculino e aborrecido. 

- Gostei deste documentário de Michael Moore, em que vai a vários países roubar as melhores ideias para aplicar nos Estados Unidos. Muito engraçada a visita à Islândia, país onde foi eleita presidente uma mulher solteira com uma filha de sete anos. Depois da crise financeira que levou o país à ruína, mais de 70 banqueiros foram julgados, alguns condenados à prisão, e muitas mulheres estiveram na linha da frente da recuperação económica e financeira. Uma mulher, CEO de uma empresa, disse que nunca viveria nos Estados Unidos, porque é uma sociedade demasiado individualizada, em que o bem comum é desprezado. Não sei se terá razão, pois não conheço tão profundamente nem uma realidade nem a outra. É bom não confundirmos "a comunidade", formada por diferentes indivíduos, com "o colectivo". Ou seja, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Em Itália, por exemplo, vive-se bem. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:17