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T.T. ou Tiago Teixeira

por Carla Hilário Quevedo, em 16.10.08

Quando há uns anos, Miguel Esteves Cardoso inventou no seu blogue Pastilhas o termo «otoverme» para rotular os temas musicais que se entranhavam no ouvido do inocente e de lá tão cedo não saíam, o tema Lady, deixa-te levar, de T.T. com Lady V, estava longe dos estúdios de gravação. O refrão é fatal para qualquer esponja auditiva: «Lady, deixa-te levar / Não vais conseguir chegar / Anda vem pra mim / pra miiiimm». Os erros gramaticais não evitam a repetição logo seguidos do breve diálogo «ela: eu quero me deixar levaaar / ele: então porque é que andas sempre a evitar (a miiiimm)». A preposição «para» está na moda. Vemo-la a reger qualquer verbo – vir para, falar para, ligar para – e a desembocar num complemento circunstancial de lugar brasileiro: «mim». O problema é que «vem pra mim» é uma aberração linguística que fica no ouvido. Ou seja: a canção é um perigo à solta. Não por causa da mistura com vocábulos em inglês – «baby, eu quero ser tua lady» (a ausência do artigo só fortalece o possessivo) – mas porque dar pontapés na gramática atrai. Mas atentemos no empenho poético do compositor: «Não penses que contigo não quero estar / Não penses que o meu número eu não quero dar»...

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-10-08.

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publicado às 18:41