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Pensar em voz alta

por Carla Hilário Quevedo, em 10.01.12

A expressão 'pensar em voz alta' dá muito jeito. Significa, paradoxalmente, que estou a dizer o que não foi pensado. Não é vinculativo, não me podem acusar de estar a dizer uma estupidez, nem podem usar esta inconfidência voluntária como se fizesse parte da minha opinião ou fosse sequer da minha responsabilidade. Se digo que estou a pensar em voz alta estou, com infantilidade, a pedir imunidade, como numa brincadeira de crianças. Faz sentido porque pensar é livre, e é um alívio porque é uma maneira convencional de parar a realidade sem consequências. Mas nem sempre podemos recorrer desta suspensão no discurso. Lembrei-me deste recurso retórico quando Hugo Chávez insinuou que os americanos teriam descoberto uma maneira de contaminar os líderes sul-americanos incómodos com cancro. Chávez estava a pensar em voz alta, e tem todo o direito a matutar no que entender, mas as circunstâncias de estar a fazer um discurso para milhares de pessoas, transmitido em directo pela televisão, sabendo que as agências internacionais de informação o difundiriam para o mundo inteiro, não o isentam das suas responsabilidades políticas. Digo eu, a pensar em voz alta.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 6-1-11

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publicado às 15:53