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por Carla Hilário Quevedo, em 03.05.03
As mulheres e o futebol



À primeira vista não haveria razão nenhuma para as mulheres não gostarem de futebol. Afinal de contas, trata-se de assistirmos a 22 rapazes bem constituídos a correr durante 90 minutos. Mas há uma razão ainda mais forte para as mulheres não gostarem de futebol: não conhecemos nenhum deles. E poupem-me a conversa do canalizador, do electricista ou do jardineiro porque essa é uma invenção masculina. Só os homens desejam o que não conhecem. Com as mulheres as coisas passam-se de outra maneira. (Note-se que estou a generalizar e muito provavelmente a enganar-me muito.)



Mesmo depois de ouvir a Germaine Greer e o George Steiner a analisarem o fenómeno do futebol e de assistir à defesa deste desporto pela pitonisa da Martha Nussbaum, a verdade é que não percebo o entusiasmo. Confesso que é um jogo que me aborrece, tal qual um mau filme que não vejo até ao fim. Depois de muito tempo a pensar nestas coisas ("só eu sei porque fico em casa!"), percebi que tem a ver com o ritmo. Para que consiga seguir um jogo de futebol até ao fim, este tem de ser rápido, porque os 90 minutos jogados lentamente significam o dobro ou mais; ou seja, tornam o jogo insuportável. Cheguei também à conclusão de que os jogos entre equipas portuguesas são lentos, algo que não ajuda nada ao meu caso. Admito que, por um motivo de rapidez de acção, gosto de ver um Machester United-Real Madrid (e se o Figo não jogar, ainda melhor) ou um Argentina-Brasil, este último não tanto apenas pela velocidade mas também pela emotividade.



E as regras? As regras confundem muito a minha pobre cabeça. Felizmente, não é só a minha. Ainda no outro dia falava sobre as minhas angústias futebolísticas com três homens (sendo um deles o meu marido, um portista ferrenho, o outro o nosso maradona, sportinguista doente e o terceiro, o umbigoniilista, um benfiquista moderado) e nenhum me soube explicar a regra misteriosa do fora de jogo. Todos tinham interpretações diferentes para a dita regra. Percebi que até no futebol há espaço para a teoria de o "leitor poder preencher os espaços em branco". Mas afinal não há certezas nenhumas a que nos possamos agarrar? Juntamente com o fora de jogo, o canto e o pontapé de baliza (quando é uma coisa e quando é outra) pertencem à minha lista de dúvidas de estimação.



O meu desprezo, no entanto, vai para os jogos amigáveis. Fico muito irritada quando me falam num jogo magnífico e amigável. Um jogo ganha-se, perde-se ou empata-se. Essa coisa do amigável anula as primeiras duas possibilidades; um jogo amigável, por sê-lo, é justo que termine sempre num empate, mesmo que aparentemente haja um vencedor e um perdedor. Tentaram explicar-me que se tratava de um ensaio em que se podiam conseguir receitas de publicidade e mais não sei o quê. E eu pergunto: e os apostadores apostam em que "amigo"? Vencer um jogo amigável não tem nenhuma glória e perdê-lo não é vergonha nenhuma.



No outro dia, cometi um erro de distracção total ao assistir a uns três minutos de um jogo aparentemente importante. "O quê? Já são 21h03?" perguntei, e o Nuno, com um risinho de gozo, respondeu: "21 minutos e 3 segundos de jogo. Girls and football... You gotta love 'em!"

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publicado às 20:56

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por Carla Hilário Quevedo, em 03.05.03
Ontem ouvi uma notícia perturbadora. Um homem desapareceu em Águeda após se ter despedido da mulher com um "vou ali e já venho". Onde estará agora? Em Bragança ou em Chaves?

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publicado às 20:18

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por Carla Hilário Quevedo, em 03.05.03
Vira uma pessoa as costas durante uns míseros dias para se concentrar no estudo profundo de A Ilíada (deve ser, deve), e pumba, tem logo uma quantidade de e-mails a pesarem na caixa do correio. Mas o que é essa história da "estória"? Qual é o problema da palavra homossexualidade? E como é que entusiasmo é uma palavra grega? E, finalmente, o que diabo está escrito no final da mensagem?



Bom, antes de mais, obrigada por todas as mensagens e perguntas que enviaram (desde já anuncio que não sou loura, como julga o DiFool). Prometo três parágrafos curtíssimos e explicativos da etimologia de cada um destes três vocábulos:



1. A palavra "estória" não está registada no dicionário da Academia das Ciências, facto que prova que é melhor do que se diz para aí. O dicionário de Cândido de Figueiredo tem a palavra registada como história em português antigo (whatever that means) e não lhe dá muita importância. Mas vamos lá ao que importa: história é composta de dois vocábulos - 'istos, que significa rede e roí, o verbo fluir em grego antigo - que juntos têm o bonito sentido de "uma rede que flui". À espécie de apóstrofo (') que vêem antes da palavra istos, chama-se espírito rude e trata-se do sinal de aspiração que transliterado para latim resultou num h. E o que é que estória tem a ver com isto? Nada.



2. A palavra homossexualidade significa "do mesmo sexo" porque 'omos não quer dizer homem (como tenho ouvido por aí), mas o mesmo.



3. Finalmente, o vocábulo entusiasmo é de origem grega (julgo até que a primeira vez que aparece é em Platão), porque compreende a preposição en, que significa dentro e theos, deus. Ou seja, o entusiasmo é termos deus em nós, o que me parece uma ideia superior.



No final do post anterior está escrito: "obrigada e beijos para todos".



Prometo que só falarei destas coisas uma vez por mês. No máximo, duas.

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publicado às 12:04