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por Carla Hilário Quevedo, em 13.08.03
Tenho estado para aqui a pensar numa frase dita pelo Vasco Graça Moura num programa em que contracenava com Eduardo Prado Coelho chamado Duelos Imprevistos, transmitido há uns dias largos pela SIC Notícias. Disse VGM que um espectador confrontado com uma peça de música contemporânea não pode gostar da mesma porque não a percebe e porque para gostar da dita peça (ou seja, para a perceber) teria de ter ouvido antes (percebido e gostado, digo eu) Bach, Mozart etc. Ou seja, para chegar a esse ponto supostamente mais complexo da criação musical teria de ter percorrido um determinado caminho.



Esta frase coloca alguns problemas.



Primeiro: não há garantias. Ninguém me garante que se ler (ou perceber e gostar de) Platão, Kant e Hume perceba Wittgenstein. Porque perceber e gostar (que a meu ver são coisas diferentes, mas isso terá de ficar para outra altura) de Platão não significa perceber e gostar de Wittgenstein; significa tão-somente (ou nem por isso) perceber e gostar de Platão. Não existe um perceber em potência lá porque se tem a chamada “base de conhecimento” (escrevo estas palavras entre aspas sem as perceber e, por acaso, sem gostar delas assim juntas).



Segundo: a ideia do saber em potência é perigosa e incentiva a mediocridade. É perigosa porque mete na cabeça das pessoas a ideia de que podem potencialmente perceber tudo se seguirem os tais passos determinados por quem “já passou por isso”. E incentiva a mediocridade, por outro lado (é um outro lado, embora não o pareça), impossibilita a que se chegue seja onde for no conhecimento porque não se leu isto ou aquilo.



Sou das poucas pessoas que acreditam ser perfeitamente possível perceber o Ulysses sem ler a Odisseia. O próprio Joyce abandonou o esquema de correspondência da estrutura do poema homérico porque se entusiasmou com outras influências e porque Joyce sabia que era mais que Homero. Porque o importante é ler o Ulysses quando se quer ler o Ulysses. Só. O que o leitor do Ulysses perceberá será aquilo que ele próprio é juntamente com o que já leu, os filmes que viu, o que gosta de comer ao pequeno-almoço, as horas a que se deita, os amigos que escolhe. Se ler a Odisseia, verá outras coisas porque é natural que assim seja. Ou não verá nada porque a Odisseia pode, naquele momento, dizer coisas que não lhe interessam para a leitura do Ulysses.



Terceiro: a ideia de que todos podemos ser educados da mesma maneira é no mínimo ingénua (Eduardo Prado Coelho falou durante o programa de uma tal mediatização da cultura, um conceito estranhíssimo para mim, que parece pretender a uma ideia ainda mais bizarra de uma educação dos públicos...). As coisas (a música, a escultura, a pintura, a literatura) dizem-nos coisas diferentes a todos nós. Porque somos todos diferentes a viver em épocas diferentes, a absorvemos coisas diferentes de um modo diferente, a comermos coisas diferentes de maneiras diferentes. Há alturas em que coincidimos. Há alturas em que coincidimos muito durante muito tempo com várias pessoas que elegemos como nossas amigas. Há alturas em que não.

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publicado às 19:26