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por Carla Hilário Quevedo, em 08.09.03
O Mata-Mouros premiou o diálogo sobre a ambiguidade entre o Retórica e Persuasão e esta vossa criada fardada. O Américo já agradeceu a estatueta e fez-me um elogio muito bonito. E a segunda pergunta? A das garantias (muito gosto eu desta palavra). Passamos to the next level ou fazemos um intervalucho para comer um gelado? Mas ainda antes da segunda pergunta e só para concluir a discussão gostaria de saudar o Extravaganza que meteu o bedelho e muito bem - até porque obrigou o Américo a escrever coisa que é sempre de louvar - e de transcrever uma parte de uma mensagem que me foi enviada pela Maria Manuela, uma leitora que seguiu o nosso diálogo. Obrigada, minha querida.



"Entretanto, eu, do lado de cá, entusiasmada também, a seguir a conversa e a pensar no assunto, diria que a ironia é talvez a forma mais honesta de expressar uma ambiguidade ou quando se pretende enfatizar a ambiguidade do que se quer transmitir. A ironia é honesta porque não pretende ser enganadora. Mas, como bem diz, não é para todos. Ou, pelo menos, temos de ter em conta o alvo (leitor ou destinatário, porque comecei a pensar para lá da escrita) para, de acordo, escolher até onde se pode refinar a ironia ou mesmo se é de optar por dizer "curto e grosso", sem ambiguidade nenhuma e desperdiçando a graça, de que acabamos por nos rir sozinhos. A ambiguidade, ainda no mesmo contexto em que - e cito-a - não serve para ninguém, é desonesta porque normalmente é construída para se poder negar a posteriori o sentido verdadeiro (subentendido) do que se pretendeu transmitir."



Como imagina, gosto da ideia de associar a ironia à honestidade, porque o sentido está na frase que não é compreendida por todos, e gosto da ideia de associar a ambiguidade à desonestidade. É quase sempre irresistível associar o que julgamos ser contrário ao seu contrário. Dá uma bela frase, convincente para muitos. Mas não sei se desonestidade é uma boa caracterização para ambiguidade. E penso nisso porque penso em mim (e é aqui que está o perigo do preconceito).



Voltemos à pergunta inicial: a ambiguidade é um erro? Como muito bem referiu o Américo, a pergunta é desde já algo ambígua porque revela pouco. Eu teria com certeza uma opinião (como tenho relativamente às duas perguntas a que falta responder) sobre o assunto. Isso revela más intenções da minha parte? Temos duas possibilidades para resolver o problema: 1) a pergunta é ambígua e eu sou uma manipuladora do caraças ou 2) a pergunta não é ambígua; é uma pergunta de quem tem algumas ideias sobre o assunto e as quer discutir com quem percebe disso. Na verdade, trata-se de descrever o problema de maneiras diferentes e não de o resolver. Sei qual é a resposta, mas será isso o suficiente?



A Maria Manuela conclui: "(...) a mim apetece-me, antes, perguntar: e o Shaw, enviou ao Churchill bilhetes para o dia seguinte? E o Churchill, foi? É que muitas vezes, pela ironia, estabelecem-se grandes cumplicidades."

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publicado às 02:14