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por Carla Hilário Quevedo, em 15.09.03
A caminho do dentista, aconteceu-me uma coisa que nunca me tinha acontecido na vida: fiquei fechada no elevador. Como acho que nunca é nada comigo, fiquei sentada à espera que me viessem buscar. O tempo foi passando e comecei a ficar com o cabelo molhado de tanto calor que ali estava. Decidi que talvez não fosse má ideia usar o telefone do elevador e carregar num botão que dizia alarme. Nada. Sentei-me outra vez. Como aquilo já se estava a tornar uma sauna, resolvi dar umas pancadas (de menina) na porta e perguntei "está aí alguém?" um bocadinho a medo e um bocadinho sem medo. Do outro lado, ouvi: "Ah! Está aqui! Vamos já buscá-la!" Sentei-me. E depois de muitas voltas no elevador, que de parado passou a subir e a descer feito louco, fui parar ao rés-do-chão. Dois seguranças esperavam-me com um sorriso simpático. E assim passei meia hora da minha existência.

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publicado às 19:23

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por Carla Hilário Quevedo, em 15.09.03
No dentista



- Indique-me o dente que lhe dói.

- É este...

- Este? (bate com um instrumento estranho prateado mesmo no dente doente)

- AAAAIIII! Esse mesmo...

- Hm... vamos ter de fazer uma epicectomia.

- Nós quem?

- Eu a si.

- Ah... e vai cortar-me a ponta de quê?

- Errr... da raiz do dente que está solta.

- Agora?

- Não! Daqui a uma semana. Tem de tomar umas coisas.

- E dão sono?

- Sim.

- Óptimo!

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publicado às 19:11

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por Carla Hilário Quevedo, em 15.09.03
Acorda uma pessoa cheia de dores de dentes e depara-se com a transcrição de um e-mail de ódio no Dicionário do Diabo. Pedro, não há direito! Pois claro que podes fazer o que te dá na real gana no teu blogue (aliás, não precisas de avisar ninguém de nada), mas publicar um texto horroroso daqueles para quê? Para suscitar terror e piedade? Para percebermos que há pessoas que destilam ódio e inveja e que odeiam o mundo? Mas isso não se sabe já? A pergunta, Pedro, é por que razão perdes o teu tempo precioso a dedicar-te a esses miseráveis? De repente, o mal que está no e-mail que te enviaram - e que é de lamentar - passou para ti próprio porque o publicaste. Não poluas o dicionário com essas coisas. Esta tua leitora agradece.

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publicado às 12:02

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por Carla Hilário Quevedo, em 15.09.03
Ando há uns dias para aqui com uma pergunta a cirandar na cabeça: direi mais sins ou mais nãos? Tudo por causa de um poema de Konstandinos Kavafis, cuja tradução é da autoria de Joaquim Manuel Magalhães e de Nikos Pratsinis.



Che fece... il gran rifiuto



A algumas pessoas um dia cai

em que o grande Sim ou o grande Não sobrevém

dizer. Logo surge ao de cima a que tem

pronto dentro de si o Sim e ao dizê-lo vai



além da sua honra e do que está convencida.

A que negou não se arrepende. De novo interrogada

voltaria a dizer não. Mas tem-na derrotada

aquele não – o correcto – toda a sua vida.



(Embora não seja fundamental à compreensão do poema, explico que o título é tirado do Inferno de Dante, III, 60 e que significa “aquele que fez... a grande recusa”. Kavafis omitiu deliberadamente (julgo) as palavras que se seguiam “per viltà” – por cobardia.)



Concluo que sou uma pessoa do sim. Do “sim, és um atrasado mental”, do “sim, gosto de sopa de agrião”, do “sim, vai passear” e do “sim, amo-te”. E não o serão todas as mulheres?



A este propósito, afasto-me do poema de Kavafis e peço desculpas ao Leitura Partilhada, porque tenho de falar do último capítulo do Ulysses. No capítulo dedicado a Molly Bloom podem contar-se 83 yes. A adaptação goetheana de “Ich bin der Geist der stets verneint” (“Eu sou o espírito que sempre nega”) é clara na frase “Ich bin der Fleisch der stets bejaht” (“Eu sou a carne que sempre afirma”), escrita por Joyce numa carta ao amigo Frank Bugden, em que se refere a este capítulo.



A palavra yes no pensamento de Molly está sobretudo associada a características femininas. Mesmo nas recordações de infância mantém-se essa feminilidade: “Yes, I had the big doll with all the funny clothes, dressing her up and undressing (...)”. O yes é ainda a afirmação da vaidade feminina: “Would I like to be that bath of a nymph with my hair down? Yes, only she’s younger (...)”. O yes de Molly é o yes feminino, o yes de “(...) and I thought well, as well him as another”, talvez a frase mais representativa do universo feminino revelado por Molly Bloom.



Vladimir Nabokov, em Lectures on Literature, termina a sua reflexão sobre o último capítulo do Ulysses com uma interpretação algo misógina do yes final de Molly: “Yes: Bloom will get his breakfast in bed.” Esta interpretação é estranha porque não se enquadra no seguimento do discurso de Molly. Se assim fosse, uma interpretação mais “literal” poderia ser: “Yes, I will marry you, because as well you as another”, uma vez que Molly, quando profere o último yes está a recordar o pedido de casamento de Bloom e os tempos de felicidade passados em conjunto.



A frase de Nabokov pode querer remeter-nos para o início do capítulo em que Molly fala do pequeno-almoço de Bloom, insinuando que Joyce teria levado esta técnica circular ao extremo mais tarde no Finnegans Wake. A interpretação de Nabokov pode então ser uma metáfora para uma possível reconciliação do casal Bloom, uma vez que Molly não tinha o hábito de levar o pequeno-almoço ao marido. “Yes, things will change if you want to.”



James Joyce percebeu, seja qual for a interpretação das suas palavras. E a compreensão do poema de Kavafis pode levar a uma sempre agradável saída da caverna. Fico contente por saber que a literatura ainda me comove.

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publicado às 00:53