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por Carla Hilário Quevedo, em 26.10.03
Depois de assistir à brilhante intervenção de hoje do Professor Marcelo Rebelo de Sousa fiquei a pensar no seguinte: o Professor não precisa de ter um blogue; o Professor Rebelo de Sousa é todo ele um blogue; um voiceblog. O maior de Portugal e o melhor de todos, a rebentar com qualquer lista de inbound links ou inbound blogs. Um beijo de boas-vindas à vozoblogosfera!

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publicado às 23:06

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por Carla Hilário Quevedo, em 26.10.03
E mais coisas. A querida Vírgula também participa na discussão com o completíssimo comentário: "Os escritores: sou uma leitora muito exigente e muito disponível também. Isto é, parto para um livro mesmo pensando que não será bom. Fico contente quando isso não se confirma, mas sou meticulosa no juízo. Na ficção (é sobre ela que se fala?), dou importância à ideia, à estrutura narrativa, ao estilo e ao imenso campo (para mim) inexplicável que é o prazer puro e duro da leitura. Sou muito sensível à forma como está escrito mais do que ao que está escrito. Contem-me outra vez a Branca de Neve com descrições surpreendentes e personagens densas e têm-me na mão, cheia de expectativas, num próximo livro. Não gosto de escritas com demasiados malabarismos. Acho que um bom escritor nos deixa um texto transparente o suficiente para se ver através dele, opaco q.b. porque não é igual a todos os outros (e, como dizes hoje, cada palavra cabe à justa - como as pedras que faziam as paredes antes dos tijolos, aliás).



Entre nós, o editor: tal como entre o pedreiro e o cliente está o mestre de obras, entre o labor da escrita e o da leitura, trabalha o editor. Quando morava em casa da minha mãe, a vizinha de baixo era uma pessoa muito generosa: dava-me todos os anos no Natal um par de cuecas (com bonecos, até aos 18 anos, de renda, depois). Comprava-as à porta do mercado e talvez por isso fossem horrorosas. Houvesse alguém que editasse as prendas delas e eu não suspirava todos os natais com pena da senhora. Às vezes, há livros que constrangem. Uma pessoa suspira e pensa: mas como é que publicaram isto? Se eu, generosa e desafinada, partilhar, ao vivo e em directo, canções escritas por mim, desiludo certamente. O pior é que nem a contracapa, nem a crítica nos jornais, nem as entrevistas ao Carlos Pinto Coelho, nem as conversas de café podem contar tudo sobre o que diz o livro e, muito menos, sobre como vamos recebê-lo.



Os editores também são muito úteis na correcção dos erros ortográficos. Já em relação à semântica, devem ter mais dificuldades em agir, mas podem, se quiserem são todo-poderosos (duvido deste plural) na sua própria casa. O pior que lhes pode acontecer é ficarem sem inquilinos ou sem visitas - o que é grave."



E do maior crítico do Pipi (olhe que está quase a chegar a 3.ª edição!) chega o seguinte comentário: "Aqui vai uma opinião no epicentro de uma dor de cabeça monstra. Bom, ser escritor... não sei o bem que se entende por isso. Nos Estados Unidos é quem escreve um livro dentro de qualquer área. Em Portugal, País de doutores e de engenheiros, ministros e eminências, a palavra parece estar muito mais ligada à ideia de título que se obtém quando a crítica bate palmas. A única condição para um escritor deixar de ostentar o título depende unicamente da vontade da crítica e os dos jornalistas. A desilusão com um escritor é legítima porque, afinal, o tipo já antes tinha andado dentro da nossa cabeça e tinhamos gostado... e desta vez, a coisa não correu tão bem. Passa-se o mesmo com os bitoques, que variam de dia para dia nos snack-bar dos bairros suburbanos." E eu que pensava que comparar escritores a pedreiros já era provocação suficiente...

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publicado às 22:45

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por Carla Hilário Quevedo, em 26.10.03
É desta que concluo a discussão acerca dos escritores e dos pedreiros. Seguem seis comentários sobre o tema. Todos merecem uma leitura (ou mais).



A Ana Albergaria começa por pôr as coisas nos seus devidos lugares; ou seja, goza com a questão: "Ora bem, acho que a discussão está boa, que está, mas está também demasiado séria e hermética. Isto porque todos estão a entender a palavra 'pedreiro' no sentido mais comezinho. E acho que é preciso alargar os horizontes. Posto isto, cá vai: ser pedreiro é a mesmíssima coisa que ser escritor; só que em versão 'lado B'. Pego aqui, ao calhas, num dicionário e ele que me diz? Que pedreiro é um operário que trabalha em obras de pedra e cal. Muito bem; e que diz mais? Pois que é um morteiro antigo que arremessava pedras; e um gaivão. Era aqui que eu queria chegar. Quê, mais do que um bom livro, é obra de pedra e cal, hã? Quem, a ver pela lista do blogue A Origem do Amor, é que é gaivão? [olha, és tu por exemplo ;) ] Quem, mais do que um escritor, cinzela a pedra, que é a palavra e, depois, em jeito de morteiro a arremessa? Arremessa essas palavras feitas armas? Isto está tudo ligado. Há pedras-palavras, que são mais bem esculpidas; assim como há pedras-calhaus, que são mais mal esculpidas. O artista, minha amiga, é o mesmo!" Roger that!



O leitor António Cruz indigna-se e diz: "Freuagdj rts ue hrtetrasg... isto é escrita automática, sub-género sopa de letras, whatever. E é literatura, claro, porque eu digo que é. Tal como qualquer outra forma de arte, a literatura é cada vez mais o que cada um de nós nomeia como tal. É assim desde que retiraram o exclusivo do imprimatur aos bispos do 'ofício'. Com esta coisa do pós-modernismo e tal, cada um de nós tem a sua capelinha, reza a quem quer e molda os seus santinhos particulares. Se é pena, ou não, que seja assim, é outro assunto. De qualquer forma, é por isso que a literatura nada tem a ver a construção civil. Terá a ver com a construção civil no dia em que derem liberdade aos pobres dos pedreiros de assentar tijolos em alinhamento automático." Claro que não concordo. A literatura não é o que cada um diz que é; é o que muitos dizem que é. O que faz toda a diferença.



O Macguffin volta a pôr ordem na discussão com o seguinte comentário: "Difícil, difícil, é encontrar um pedreiro escritor. Ou um escritor pedreiro. Há uns anos, conheci um. Nessa altura, andava ele a ler Oakeshott, entre baldes de massa e areia peneirada. Inspirado, escreveu o único livro que lhe conheço: Racionalismo e Alvenaria, edições Cimpor."



O leitor Ruben Coelho esclarece o problema: "Na primeira questão, em que compara o escritor a um pedreiro, parece ter-se esquecido que há aqueles que, ainda que fazendo o trabalho de um pedreiro, não o são. Remendam, dão uns toques, disfarçam... e de tal maneira que, sendo até o seu serviço mais acessível e económico, até ganham uns trocos com isso! A segunda questão... não tenho nada a comentar... simplesmente nunca coloquei a fasquia tão baixa! Mais do que aos erros ortográficos, a maior parte das vezes causados por aqueles que processam o texto, tomo bem mais atenção aos erros de construção frásica e destes não podemos apontar o dedo aos pobres desgraçados que passam a vida a copiar. A terceira questão: contraponho à escrita como acto de generosidade, a generosidade de comprar o livro. Não há dúvida de que é necessário muito pretensiosimo para sequer pensar de que escrevem algo que valha a pena ser lido, que têm algo a ensinar / dar às pessoas." Nem mais!



Como o post já vai longo, publico os dois últimos comentários em cima.

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publicado às 22:32