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por Carla Hilário Quevedo, em 18.11.03
Dong dong dongdong, dong dong dongdong, dong dong dongdooong...

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publicado às 19:19

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por Carla Hilário Quevedo, em 18.11.03
O João Pereira Coutinho acedeu muito gentilmente ao meu pedido de esclarecimento da questão sobre o conservadorismo e enviou-me o texto que agora publico. Obrigada, João.



"Aquilo que a Carla escreve é a velha disposição conservadora - os teóricos chamam-lhe «conservadorismo natural» - que constitui a base do pensamento conservador propriamente dito: saber que, por cada mudança anunciada, há uma perda prometida - e consequente reacção. Oakeshott (sempre ele...) capturou tudo isso no clássico On Being Conservative, que é muito mais do que um texto de filosofia pura. É um ensaio literário devastador que funciona, implacavelmente, como inspiração para quem o lê.



Claro que nada disto é pacífico. Quando se fala de conservadorismo, existem essencialmente três formas de encarar o fenómeno.



A primeira é a visão tradicional, que olha para o pensamento conservador como uma forma de proteger interesses particulares - interesses associados a pessoas detentoras de poder ou estatuto. É a visão herdeira de 1789 e das lutas posteriores entre partidários da coroa e republicanos revolucionários. Uma visão que ficou: não admira que, hoje, quando se discute a «doença» do conservadorismo, os detractores acusem os conservadores de protegerem apenas interesses seus contra a vasta massa ignara.



Depois, existe uma segunda «escola» que olha para o conservadorismo, não como defesa de classe - mas como um sistema de valores («ontológico», dizem os sábios) que pode funcionar para todas as classes. É o conservadorismo de cardápio, que gosta de aplicar a todas as situações da realidade a mesma hierarquia de valores. Pode ser a família, a Pátria, a Igreja, blá, blá, blá, conhece a conversa. É um conservadorismo monolítico que acredita - erradamente, je pense - que a realidade é uniforme e as necessidades reais são uniformes também.



E depois existe uma terceira forma de olhar o pensamento conservador. Uma atitude reactiva que, alicerçada nesse seu «conservadorismo natural», questiona a mudança - mas não procura aplicar a ela, como nas duas vertentes supracitadas, o mesmo standard de valores. Não falo aqui de relativismo puro, em que as circunstâncias determinam os valores. Falo de uma atitude essencialmente plural que, embora reconhecendo a universalidade de certos valores basilares à vida humana (que devem ser protegidos SEMPRE), abre espaço para particulares concepções de vida - quer a nível social (baseadas nas tradições de comunidades específicas), quer a nível individual. É a única posição legítima, acho eu, para defender uma posição conservadora «real»: afirmando certos valores universais que devem ser protegidos e defendidos, embora reconhecendo a pluralidade da existência humana nas suas dimensões sociais e individuais. Reagimos à mudança quando sentimos que a mudança implica perda. Mas acomodamos a mudança - e acomodamo-nos à mudança - quando somos capazes de reconhecer que esta não só não ameaça os valores fundamentais da existência humana, como é apenas parte da sua diversidade - e, no extremo, da sua riqueza também. Como ter bordéis à porta de casa. Dão mau nome ao bairro - mas, em contrapartida, é sempre bom saber que, em caso de emergência, temos tudo à disposição num raio de cem metros: farmácias, lojas de conveniência, putas brasileiras etc. (machismo, claro)."

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publicado às 16:29