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por Carla Hilário Quevedo, em 02.01.04
Brevíssima explicação do post anterior



A 10 de Dezembro de 1920, James Joyce escreve uma carta a Frank Bugden em que fala sobre o último capítulo do Ulysses: “I am going to leave the last word to Molly Bloom – the final episode Penelope being written through her thoughts and body Poldy being asleep.” (Selected Letters) Joyce finalizava a sua obra e decidira que a última palavra a teria Molly. A 16 de Agosto de 1921, Joyce volta a escrever a Frank Bugden revelando-lhe pormenores sobre o último capítulo, desta vez com o Ulysses terminado: “Penelope is the clou of the book. The first sentence contains 2500 words. There are eight sentences in the episode. It begins and ends with the female word yes. It turns like the huge earth ball slowly surely and evenly round and round spinning, its four cardinal points being the female breasts, arse, womb and cunt expressed by the words because, bottom (...), woman, yes. Though probably more obscene than any preceding episode, it seems to me to be perfectly sane full amoral fertilisable untrustworthy engaging shrewd limited prudent indifferent Weib.” (Selected Letters)



Na biografia de Joyce, Richard Ellmann conta-nos como o autor adquiriu o interesse pela técnica do monólogo interior. Joyce estava em Paris, em 1903: “On the way, he picked up at a railway kiosk a book by Édouard Dujardin, whom he knew to be a friend of George Moore. It was Les Lauriers Sont Coupés, and in later life, no matter how dilligently the critics worked to demonstrate that he had borrowed the interior monologue from Freud, Joyce always made it a point of honour that he had it from Dujardin.” (James Joyce, Richard Ellmann) De uma obra menor com uma “boa” ideia – um solilóquio em que o herói se encontra num processo autocriativo – Joyce escreve Ulysses.



A técnica do monólogo interior parece-me útil num processo de probabilidade de verdade. Isto porque, por vezes, desenvolvemos a mentira, sobretudo quando fazemos associações de ideias. Na escrita, o desenvolvimento de uma mentira tem muito interesse (os grandes clássicos o que são senão grandes e rotundas mentiradas?). E assim a vida difere da arte. No dia em que acharmos que não há diferença nenhuma, teremos de ser submetidos a um tratamento adequado. Até lá, vamos experimentando.

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publicado às 17:58