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por Carla Hilário Quevedo, em 09.01.04
A Ana Gomes Ferreira enviou-me uma troca de correspondência entre Joaquim Castro Caldas e Pedro Tamen, publicada na Revista de Atitudes Literárias, n.º 1, das Edições Quasi. Leiam até ao fim que vale a pena. Obrigada, Ana.



Subsidio para o suicídio



Um dia – como quase todos – acordei sereno estremunhado à noite. Estava farto do mundo em geral e de Portugal em particular. A cortesia era: vou-me matar. Saiu-me isto mas houve uma resposta porreira do outro lado. O que é mais divertido é que só a comunicação social estrangeira percebeu que eu estava a brincar. Portugal não.



Joaquim Castro Caldas, Abril 2001





J.C.C.

Rua da Lapa, XX-X

1200 Lisboa

tel. XXXXXX



Ex.mo Sr.



De certa forma desenquadrado de e epidermicamente hostil ao tão inculto Surrealismo nacional (movimento irreversível que consiste em Surrar – O – Realismo às Minorias Absolutas através das Maiorias Anónimas) e na fiel linha lunática, tradição suicida e corrrented’ar estética da Poesia Portuguesa, venho por esta brevíssima e humilde missiva solicitar à Fundação Gulbenkian, sempre tão prestável e atenta, uma urgente audiência (na pessoa de V. Ex.a com quem, como tenho vindo ao longo dos anos a constatar e sem qualquer lisonja hipócrita, as novas gerações mais prezam o diálogo civilizado e o respeito pela inteligência) audiência essa destinada à concessão de um mísero (face aos vossos fartos recursos) subsídio que, não sendo por certo habitual pedir nem provar, muito honraria o brilho da vossa já quase secular instituição, contribuindo para uma nobre, sã, airosa, decidida e eficaz saída do meu penoso caso lírico pessoal.



Assim sendo, e não ousando abusar muito mais da infinitamente piedosa e tolerante curiosidade de V. Ex.a, passo d’imediato a expor o detalhado rosário de inconfessáveis e vis matérias primas ou sinistros objectos que me propus atribuir um (eventual) orçamento: um revólver (50 mil escudos); munições adequadas (20 mil escudos); um socrático litro de cicuta, um cálice de cobre e uma rodela de manga, para a hipótese de a primeira tentativa se amedrontar (P.V.); algum cianeto e bastante nitroglicerina, para a hipótese da segunda tentativa não passar de um romântico aperitivo ou de uma inconsequente chantagem moral (preço a regatear); cremação do corpo e lançamento de cinzas ao Tejo (500 mil escudos); cachet de 20 palhaços da Companhia de Circo de Lisboa para a citada cerimónia fúnebre (250 mil escudos); cachet da Banda dos Bombeiros Voluntários que chegarem primeiro executando a canção das Crianças Mortas do Mahler, na ocorrência (500 mil escudos, com desconto para poetas e afins); arredondando a coisa deve andar lá perto dos 1000 contos, o que é isso nos tempos que vai correndo? Convenhamos que toda a Morte que se estime não olha a meios para dignificar os seus fins...



Esperando contribuir com a minha modéstia para uma lufada na monotonia da correspondência de que, desejo temê-lo, V. Ex.a será vítima, e desde já agradecendo o vosso empenho generoso, sem mais por ora me subscrevo, com admiração pela paciência de santo de V. Ex.a, exalando confiança, irradiando ansiedade...



Joaquim Castro Caldas





Fundação Calouste Gulbenkian

Lisboa – 1

PESSOAL





Ex.mo Senhor Joaquim Castro caldas

Rua da Lapa, XX_X

1200 Lisboa



Lisboa, 31 de Julho de 1987



Caro Senhor



Tenho a honra de acusar a recepção da carta de Vossa Senhoria, sem data mas com lata, na qual solicita subsídio que lhe permita morrer com pompa (e não troco os bb pelos pp) e circunstância.



De início interroguei-me sobre a questão de saber em qual dos quatro fins da Fundação Gulbenkian (artísticos, educacionais, científicos e caritativos) tal desiderato se poderia inscrever, mas rapidamente cheguei à conclusão de que em qualquer deles, ou em todos concomitantemente, se inscreveria.



Pensei então em pedir e aliás douto parecer da Agência Barata (se bem que intuitivamente e adivinhasse que ela qualificaria o orçamento apresentado de sumptuário), mas referi, antes disso, procurar nos nossos arquivos antecedentes pedidos para o mesmo fim e verifiquei sem surpresa que - dada a premente necessidade de reduzir as nossas despesas - todos os numerosos apoios financeiros requeridos para viagens alternativas para Inferno, Céu ou Purgatório foram invariavelmente negados e, como é óbvio, não me parece curial a criação de precedentes.



Nestes termos, sinto informar V. Ex.a que não é possível atender a solicitação que me dirigiu, ainda que lamente o consequente facto de ficar condenado a viver mais alguns anos. A não ser que – se me permitir uma sugestão – opte pela solução da corda, do gancho e do banquinho, solução que, por ser barata, poderá até ser apoiada pela Secretaria de Estado da Cultura. Ou ainda (porque não?) – e eis uma variante absolutamente gratuita – a solução do lago do Campo Grande, desde que obtida prévia autorização do Senhor Eng. Nuno Abecassis



Entretanto, sou de V. Ex.a

Atentamente até ao Outro Mundo

e muito mais depois,

Pedro Tamen

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publicado às 16:08