Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



...

por Carla Hilário Quevedo, em 17.03.04
Pois é, Diogo... Zeus decidiu, há seis anos, que ao ouvir de um barbudo as palavras "Solteira? Casada? Viúva?" me riria. A partir desse momento já não havia mais nada a fazer, a não ser casar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:36

...

por Carla Hilário Quevedo, em 17.03.04
Minha querida, nada de medos a comentar comentários de professores! Comentar é sempre um sinal de reconhecimento da existência e da importância do que e de quem se comenta, algo fundamental na passagem do conhecimento e imprescindível ao exercício do espírito crítico. Por isso, no fear!



Agamémnon tinha de morrer (uma espécie de Romeo Must Die mas com gregos fortalhudos), claro, embora fosse bem protegidinho por Zeus. Nem Zeus tem a capacidade de atribuir a imortalidade aos humanos, nem àqueles de quem gosta muito. O amor de Zeus também não é suficiente para dar aos heróis uma vida propriamente fácil. Zeus ordena a Agamémnon que sacrifique Ifigénia. Não há dilema nenhum. Aí está o erro que fez com que hoje em dia, secretamente, estejamos do lado de Clitemnestra e achemos que he had it coming, que é como quem diz, estava a pedi-las. Pois. Mas não estava. O texto em grego é claro. A tradução lança a dúvida sobre se Agamémnon podia ter escolhido ficar em Aulis porque o preço para sair era demasiado alto. Não há dúvida nenhuma. Há uma ordem que não pode deixar de ser cumprida. Não é por ofensa, nem por ameaças que Agamémnon sacrifica a própria filha. É porque assim está determinado. Agamémnon demora-se na decisão (que não é uma decisão dele) e isso para nós, leitores ávidos de descobrir nas entrelinhas coisas que não estão no texto, já tem um significado: pois, está a demorar porque não sabe o que é que há-de fazer à vida. Não. Demora porque, embora não tenha consciência de si, não é uma marioneta nas mãos de Zeus. Demora por causa da dor da decisão que lhe foi imposta.



Para nós, criaturas despegadas dos deuses e crentes nos conselhos que a literatura light (desculpem, mas depois das tragédias, para mim tudo é light) nos dá, nada disto faz sentido. O quê? Há um gajo barbudo que lança trovões quando se aborrece comigo? Que determina o meu destino em conjunto com outras divindades esquisitas e, com certeza, foleiras? Era só o que faltava! Pfff... Zeus... olhaolha... deve ser deve... e assim por diante. Mas para Agamémnon não existe "comigo" nem "meu". É outra coisa e não é nada excêntrica. Os excêntricos aqui somos nós e cada vez mais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:35