Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



...

por Carla Hilário Quevedo, em 29.03.04
Sobre a leitura, a escrita e a neurose



Nota inicial: este texto refere-se à leitura e à escrita de textos de análise ou de opinião.



As pessoas não sabem ler. Mesmo as que o sabem, não o sabem de facto e mesmo as que lêem muito bem e que não só percebem o que lêem como, ainda por cima, desenvolvem o que acabaram de ler, também, um dia, hão-de ler mal. Não há volta a dar-lhe. Estamos todos metidos neste panelão de mal-entendidos. Essa incapacidade na leitura ou ausência de talento ou falta de concentração atinge o seu auge na blogosfera. E quem não sabe ler, muito dificilmente saberá escrever e a confusão instala-se. Lemos mal algo que por sua vez está mal escrito e que não oferece nenhuma outra hipótese excepto a de ser mal lido. E não saímos daqui.



A meu ver, há um problema principal que contribui para uma leitura errada e uma escrita pior: a neurose. E a neurose consiste em (resumindo) deslocar os problemas. Exemplo de neurose na escrita é o insulto deslocado que muito se lê pela blogosfera fora: o blogueador ataca x ou y porque não pode atacar o patrão, ou o funcionário, ou o marido, ou a mulher ou o carteiro, seja quem for que de facto deseja insultar, mas que não o faz por confundir os sujeitos. Quando os blogueadores insultados não respondem, lá voltam os escritores neuróticos à carga. E é assim que o silêncio dos insultados funciona como um espaço de libertação para os ferozes insultadores. “Ah, o gajo está calado, ‘bora bater mais porque ele não responde.” Ora no dia em que o blogueador insultado se cansa do papel que não pediu a ninguém – o de psiquiatra, que ouve, ouve e nada diz – e responde à letra, o insultador, de corajoso escriba anónimo passa a ratazana de esgoto e desaparece. A neurose passa a medo e fica tudo bem. O equilíbrio é restabelecido.



Outro problema é o da neurose na leitura. Aliás, o problema começa aqui. E o que é isto de ler “outra coisa”? É uma chatice. Lê-se “outra coisa” por muitas razões, mas sobretudo porque a coisa que importa resolver não foi resolvida e, de repente, há uma possibilidade de a ver resolvida ali. Quando lê “outra coisa”, responde a essa “outra coisa” e a bola de neve vai rolando e aumentando.



Por isso, não há nada a perder. Eu sei que serei inevitavelmente mal interpretada por alguém. Há-de haver sempre alguém que lerá tudo ao contrário, por estar o próprio “todo ao contrário”. A responsabilidade não é tanto a de quem escreve, mas a de quem (e como) lê. E para ler bem é preciso ter a cabeça bem arejada e sim: é preciso ser saudável. Mesmo assim não há garantias de uma boa leitura, mas pelo menos há uma maior probabilidade de compreensão do que está escrito. Felizmente, há no mundo pessoas saudáveis e bons leitores. E uns são muitas, muitas vezes, os outros.



E não, não vou agora falar do preconceito. Fica para a próxima.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:39

...

por Carla Hilário Quevedo, em 29.03.04
Otoverme do dia: hug me, hug me, kiss me, squeeze me, hug me, hug me, kiss and caress me. Kevin Lyttle, Turn me on.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:38