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por Carla Hilário Quevedo, em 16.06.04
Porque não há Joyce a mais



- O Quartzo, Feldspato & Mica generosamente publica uma carta quase inédita de James Joyce.

- O maradona recomenda a leitura do Arts & Daily Letters de hoje, sugestão que sigo com alegria.

- A Sofia fala de beijos que levam a que se leiam livros como o Ulysses em dois textos muito bonitos.

- E, last but not at all least, o Aviz comemora hoje o seu primeiro aniversário. Citando Joyce: "Yes".

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publicado às 15:39

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por Carla Hilário Quevedo, em 16.06.04
Cenas da vida conjugal



- Amor, hoje tens de sair de casa com uma batata no bolso.

- Isso significa que vais dormir com o Boyle, e que depois vais passar o resto da noite a dizer-me que sim?

- Pronto, festejamos o Bloomsday doutra maneira.

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publicado às 14:45

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por Carla Hilário Quevedo, em 16.06.04
Primeiros parágrafos



Outra coisa que tenho observado é uma espécie de obsessão por primeiros parágrafos. Provavelmente porque a leitura, quando é vazia, se fica por aí. Bom, mas não quero deixar de me associar ao Movimento dos Primeiros Paragrafosos e transcrever na íntegra o melhor primeiro parágrafo do século XX. Porque já sabem o que significa fazer a coisa por menos.



"Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed. A yellow dressing-gown, ungirled, was sustained gently behind him by the mild mornig air. He held the bowl aloft and intoned: - Introibo ad altare Dei."



James Joyce, Ulysses.

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publicado às 14:26

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por Carla Hilário Quevedo, em 16.06.04
Citar é humano, mas nem por isso nos torna melhores pessoas



É verdade: sou rapariga desconfiada de quem muito cita, e sobretudo de quem muita porcaria cita, descontextualizada, e ainda por cima sem razão aparente. Há, a meu ver, neste caso dois problemas : quem cita e o que cita. Bom, o "quem" é definido ao longo do tempo por esse "o quê". Custa-me a crer que não se perceba que ao citarmos estamos a mostrar um bocadinho do que somos. Não chega, evidentemente. E temos de ter cuidado com as mentiras óbvias, com os casos de fraude. E para isso servem o contexto, as ideias, a coerência, até a originalidade mesmo na citação. E o tempo. Ao longo do tempo vamos percebendo o valor das pessoas. Parece-me normal que assim seja. Citar autores medíocres, acreditar que aquilo é bom, que de certa forma aquele excerto ou aquela frase substituem aquilo que se pensa, mas que não se tem coragem, destreza, talento para escrever, só revela a mediocridade de quem escolhe. É por isso que não me interessa: nem a citação, nem quem o cita. E não me venham com as tretas de "o que é bom para mim, pode não ser bom para ti". Não. O que é brilhante é consensual.

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publicado às 14:06

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por Carla Hilário Quevedo, em 16.06.04
Joyce por Attridge, Bloom e Nabokov





Ler o Ulysses de James Joyce será tarefa hercúlea, vedada ao comum dos mortais? A verdade é que mesmo que o não seja, a publicidade feita à leitura desta obra não é das mais aliciantes. Basta que olhemos para o programa de Literatura Inglesa para constatarmos a ausência de uma das obras essenciais da literatura mundial. E por quê? Por ser "demasiado difícil", "hermética", "sobrelotada de neologismos" e mesmo "ininteligível". Atribuir culpas ao sistema académico ou à falta de interesse da maior parte dos alunos parece-me dispensável; confesso apenas que gostaria de ter lido o Ulysses mais cedo (li-o quando tinha 30 anos). Mas esse lamento faz parte de uma ansiedade característica de quem acredita que o tempo nunca é suficiente para as coisas importantes.



"I was taught not to like Joyce", afirma Derek Attridge, na introdução à obra Joyce Effects. Na década de 50, este incitamento à condenação do autor devia-se sobretudo a questões de ordem moralizadora, uma vez que Attridge foi educado segundo os valores vitorianos, numa colónia sul-africana. Segundo refere Attridge, D. H. Lawrence era um dos inimigos mais ferozes de Joyce, ao mesmo tempo que se destacava como um dos mais influentes autores do século XX. A opinião de Lawrence teve, sem dúvida, influência sobre a maneira como se estudava Joyce, publicando frases mortíferas como a seguinte: "James Joyce bores me stiff, too terribly would-be and done-on-purpose, utterly without spontaneity of real life." (Joyce Effects, 2)



Mas as coisas mudaram. A proliferação de ensaios sobre a obra de Joyce chega a dificultar a pesquisa, sendo o investigador obrigado a "separar o trigo do joio" e sobretudo a delimitar o corpus da sua busca. A maioria dos textos sobre Joyce e a sua produção literária - e agora voltando a Ulysses - tentam decifrar o texto, por vezes quase dando a sensação de que resolvem os nossos problemas de leitura, revelando-nos as soluções dos múltiplos enigmas propostos por Joyce. Decifrar os puzzles, os neologismos e reconhecer as imensas referências do texto ao universo da literatura é importante para a compreensão do texto, mas de certa forma impede-nos de usufruir da sua beleza e grandiosidade. Derek Attridge comenta precisamente esta questão, referindo-se à sua experiência de leitura e ensino da obra de Joyce: "What I had valued most up to now was explication: the meticulous, ingenious and sometimes inspired deciphering of parallels, allusions, deformations, and parodies. What I found now were ways of thinking of Joyce's texts not as extremely complicated puzzles with no final answers (for I had always found myself resisting conclusions) but as stagings of some of the most fascinating and important properties of language, culture, and the psyche." (Joyce Effects, 6) Attridge é profundamente bartheano no que escreve, senão veja-se o que afirma Roland Barthes em O Prazer do Texto: "Texto de fruição: aquele que coloca em situação de perda, aquele que desconforta (talvez até chegar a um certo aborrecimento), faz vacilar as bases históricas, psicológicas, do leitor, a consistência dos seus gostos, dos seus valores e das suas recordações, faz entrar em crise a sua relação com a linguagem." (57) De Attridge a Barthes e de Barthes a Joyce - associações naturalmente contestáveis.



O prazer na leitura de Ulysses também passa pela descodificação das associações joyceanas porque faz parte de um processo de dar "mais sentido" ao texto, ou seja, faz parte do processo da interpretação. Mas não se concentra no que poderá ser uma dissecação interruptora da fruição literária. Além do mais, essa decifração poderá iludir o leitor quanto à existência de uma solução possível do texto, uma ideia redutora e errada. Derek Attridge afirma o seguinte: "Any critical text which claims to tell you (at last) what a work of Joyce's is 'about', or what its structure, or its moral position, or its symbolic force, 'is', has to be mistrusted, therefore; not because it will not be useful to you in a reading of the work in question, adding to your pleasure as you move toward that impossible goal of total understanding, but because it is making a claim that, taken literally, would exclude all other ways of reading the work, now and the unpredictable future." (The Companion to James Joyce, 3) Se decifrar é interpretar, a leitura de Ulysses (ou de qualquer outra obra) de forma unívoca é necessariamente quimérica e errada.



A teoria da multi-interpretabilidade dos textos defendida por Umberto Eco na Obra Aberta ou por Paul Ricouer em Teoria da Interpretação leva-nos a duas questões fundamentais para Harold Bloom e Vladimir Nabokov: a razão por que lemos e a distinção entre bom e mau leitor. Julgo que estes são temas essenciais para a abordagem de uma obra tão hermética e por isso mesmo "aberta" como o Ulysses de Joyce.



Porque é que lemos? Uma resposta irreflectida e comum seria: para sabermos mais sobre o mundo ou a vida. E que garantia temos que ao lermos a Ilíada saberemos mais sobre a Guerra de Tróia? Quais são afinal as nossas expectativas? Será que as temos conscientemente? Por todas estas perguntas, posso deduzir que a resposta inicial não só é errada como perigosa. Errada porque não há garantias de nada que seja independente de nós e perigosa porque, ao abordarmos a leitura com essas certezas, fazendo todos os possíveis por encaixarmos o que lemos na resposta que demos, sofreremos uma desilusão deslocada - a leitura ficará reduzida a uma leitura. Nabokov pergunta indignado sobre esta questão: "Can we expect to glean information about places and times from a novel?" E dando o exemplo de Bleak House de Dickens, confirma: "And Bleak House, that fantastic romance within a fantastic London, can we call it a study of London a hundred years ago? Certainly not." (Lectures, 1-2)



Para Nabokov, "great novels are great fairy tales." (Lectures, 2) A imaginação com que os romances são escritos deve suscitar a imaginação de quem os lê, embora essa característica importante não seja suficiente para a compreensão das obras. Assim, da leitura como acto de "recolha" de informação passamos à leitura como exercício criativo. A ideia parece-me mais interessante e próxima do que realmente se passa em literatura. Com a leitura de Ulysses não sabemos mais sobre a Dublin do início do século XX, mas imaginamos o estranho Leopold Bloom todo vestido de preto a comprar Sweets of Sin para Molly ou a caminho do funeral de Paddy Dignam. Mas a imaginação não é apenas visual; quanto menos descritivo e "compreensível" for o texto, mais interpretações poderemos ter sobre o mesmo (esta "fórmula" aplica-se na perfeição no caso de Ulysses). A imaginação é fundamental porque, para Nabokov, a literatura é invenção, engano e ilusão. Como tal, nunca deveremos querer "identificar" a realidade na mesma: "We should always remember that the work of art is invariably the creation of a new world, so that the first thing we should do is to study that new world as closely as possible, approaching it as something brand new, having no obvious connections with the worlds we already know. When this new world has been closely studied, then and only then let us examine its links with other worlds, other branches of knowledge." (Lectures, 1) Segundo Nabokov, a literatura é uma coisa e a realidade é outra.



Harold Bloom, em How to Read and Why, apresenta-nos uma teoria contrária à de Nabokov e propõe-nos a seguinte receita: "(...) find what comes near to you that can be put to the use of weighing and considering, and that addresses you as though you share the one nature, free of time?s tyranny." (22) Ou seja, primeiro devemos perceber a nossa proximidade com o texto, pois só poderemos compreendê-lo na medida em que se relaciona com o que somos. Mas Bloom acrescenta: "Ultimately we read - as Bacon, Johnson and Emerson agree - in order to strengthen the self and to learn its authentic interests." (22) Segundo Bloom, lemos para nos aproximarmos da verdade, porque acreditamos que a literatura nos pode mostrar algo que não vemos ou não conseguimos dizer; que nos pode revelar uma verdade sobre nós que de outra forma não conheceríamos. Esta teoria de "auto-melhoramento através da leitura" parece-me também oferecer poucas garantias. Quem me garante que por ler as obras completas de Platão me tornarei mais justa e melhor? E a pergunta desta vez é: lemos para sermos melhores? Bloom na seguinte frase responde que sim: "Self-trust is not an endowment, but is the Second Birth of the mind, which cannot come without years of deep reading." (25) O conhecimento leva ao melhoramento e esse conhecimento só poderá ser obtido através de inúmeras leituras e releituras. E acrescenta: "We read Shakespeare, Dante, Chaucer, Cervantes, Dickens, Proust and all their peers because they more than enlarge life." (28)



Mas será mesmo esta a razão por que lemos? Talvez a pergunta seja à partida errada uma vez que pede uma única resposta. Bloom, ainda sobre o tema, responde-a: "We read deeply for varied reasons, most of them familiar: that we cannot know enough people profoundly enough; that we need to know ourselves better; that we require knowledge; not just of self and others, but of the ways things are. Yet the strongest, most authentic motive for deep reading of the now much abused traditional Canon is the search for a difficult pleasure. (...) a pleasure difficulty seems to me a plausible definition of the Sublime, but a higher pleasure remains the reader's quest." (28-9) Nesta longa citação encontro algumas soluções interessantes: lemos por necessidade, conhecimento dos outros e da realidade e sobretudo por prazer. Julgo que este "prazer difícil" de que fala Bloom está relacionado com uma espécie de revelação que a leitura nos provoca. O prazer da leitura consiste precisamente em compreender o texto. O momento em que todas as razões para ler se conjugam - necessidade, reconhecimento, criação - é um momento revelador (quase uma epifania) em que compreendemos realmente as coisas e julgamos estar perto da verdade. Esse momento é um momento de prazer e é nessa demanda que o bom leitor encontra a sua recompensa.



Nabokov define um bom leitor desta maneira: "(...) the good reader is one who has imagination, memory, a good dictionary, and some artistic sense." (Lectures, 3) Nabokov difere muito de Bloom neste aspecto mas aproximam-se quanto à questão da releitura - Bloom chama deep reading ao rereading nabokoviano. Mas a definição é dada por Nabokov: "Curiously enough, one cannot read a book: one can only reread it. A good reader, a major reader, an active and creative reader is a rereader." (Lectures, 3) A importância da releitura é a mesma para ambos, embora Nabokov tenha uma visão mais pragmática do que Bloom - reler é ler de facto porque não podemos reconhecer os pormenores numa primeira leitura. Bloom e Nabokov partilham de um amor (borgesiano) pela literatura e julgo que é neste amor que reside a distinção entre bom e mau leitor.



Finalmente, Nabokov descreve-nos o grande escritor: "(...) a great writer is always a great enchanter, and it is here that we come to the really exciting part when we try to grasp the individual magic of his genius and to study the style, the imagery, the pattern of his novels or poems." (Lectures, 5-6) Nabokov venerava Joyce e esta descrição de grande escritor como alguém que nos encanta define bem o génio irlandês. Tanto Nabokov com a sua visão técnica (e autoritária) da leitura, como Bloom com a certeza da inutilidade da literatura, estão certos no que dizem e tanto num caso como no outro (mais no caso de Bloom), reconhecemos Jorge Luis Borges.



O conhecimento pode ser adquirido de muitas maneiras: por inteligência, leitura ou entusiasmo. Este último factor de acesso ao conhecimento parece-me fundamental na leitura. Entusiasmo tem significado etimológico de "termos deus dentro de nós" ou estarmos "endeusados". Quando li Ulysses senti esse entusiasmo e essa inspiração que me ajudaram a compreender o texto e a sentir prazer nessa leitura.



Bibliografia: 1, 2, 3 e, claro, 4.

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publicado às 13:43

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por Carla Hilário Quevedo, em 16.06.04
Cem vezes Bloomsday



O génio de Joyce não é para ser invejado, nem sequer discutido. Tem de ser venerado, tratado como divino. Temos de lhe lamber as botas depois de morto, caraças! Há lá maior autoridade que essa? Ulysses é o melhor romance do século XX. Eu, que acredito que a literatura não nos modifica, mudei a partir daquela leitura, embora não tenha sido o romance o responsável directo por isso (a ideia de culparmos a arte por aquilo que somos é engraçada, mas não cola). Até dia 31 de Agosto, festeja-se o centenário de Bloomsday. É desta que vou a Dublin.

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publicado às 11:54

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por Carla Hilário Quevedo, em 16.06.04
Diz-me por que equipas torces hoje, dir-te-ei quem és: Portugal, Portugal e Portugal e Grécia.

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publicado às 11:52