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por Carla Hilário Quevedo, em 17.07.04
Ílion

 

Gostei do filme Tróia. Julgo que se trata de uma adaptação muito boa da Ilíada, embora fuja por vezes à história homérica. Parece-me, por exemplo, normal que se arranje um romance para Aquiles. Na Ilíada há falta de gajas. É só guerra e mais guerra e corpos esventrados e sangue. Não há espaço para paixões intensas. Ora um filme com Brad Pitt (lindo de morrer e um actor excelente; a verdadeira gaja boa e inteligente com que tantos homens sonham), em que não haja a little bit of butt não é filme que se preze. Percebo e desculpo e Homero com certeza também. As cenas das batalhas são excelentes e a do combate entre Aquiles e Heitor muito, muito boa (só faltou a fuga de Heitor com Aquiles a correr atrás dele à volta das muralhas, mas enfim, também não interessa) e com um final (refiro-me ao do duelo) muito fiel ao que é descrito na Ilíada.

 

Os dois grandes problemas deste filme são, a meu ver, os seguintes: Briseida e o problema da hieraquia. Sobre Briseida já disse que era preciso arranjar par para o herói. Briseida aparece no início da Ilíada como parte dos despojos de outra batalha para depressa ser esquecida. Faz parte do motivo da ira de Aquiles (não conto mais para lerem a história que vale a pena). No filme, Briseida adquire protagonismo, aparece como troiana e prima de Heitor, mas compreende-se a sua necessidade.

 

A questão da hierarquia é mais complicada de explicar, mas tentarei fazê-lo. O problema está em definir quem mata quem. Briseida não mata Agamémnon. Tal nem seria possível. O Rei de Micenas ser morto por uma escrava? Não. Agamémnon é morto pela mulher, Clitemnestra, quando volta a casa. O episódio é contado na Odisseia (XI, 441-61) e tem consequências terríveis (Orestes volta para vingar a morte do pai e comete matricídio, sendo depois perseguido pelas Erínias, as deusas vingadoras dos crimes de sangue). Segundo nos conta o Dicionário de Mitologia Grega e Romana, de Pierre Grimal, Aquiles, filho da deusa Tétis e de Peleu, inteiramente submerso pela mãe nas águas da imortalidade, à excepção do calcanhar (o seu ponto vulnerável), é morto pelo deus Apolo, que terá direccionado a seta atirada por Páris. No filme, isto não está claro porque os deuses estão ausentes. A cena não está, contudo, mal pensada, porque Aquiles retira as setas cravadas no peito antes de tombar apenas com aquela espetada no calcanhar. Tudo isto para que não se pense que Aquiles foi de facto morto pelo cobarde Páris.

 

Apenas uma nota sobre Helena. A beleza de Helena fazia com que velhos se ajoelhassem. Monica Bellucci teria sido melhor escolha para o papel.

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publicado às 23:11

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por Carla Hilário Quevedo, em 17.07.04
Passear pela blogosfera é bom e faz crescer

 

- Felicito tardiamente o Senhor Carne pelo primeiro blogoaniversário. Compensarei esta minha falha com gins tónicos cá em casa. Parabéns, ó bigodes!

- Não sei se vou a tempo (algo me diz que talvez), mas gostaria de ajudar o lado feminino deste blogue a não ter insónias. Chumbo, à partida, três modelos: a "versão eram-da-minha-avó-mas-já-se-sabe-que-a-moda-é-uma-coisa-que-vai-e-vem"; o "super-dazzling-get-out-of-my-way chique" e os "simplórios, confortáveis e muito chinelantes". Os primeiros têm a desvantagem de estar mesmo fora de moda, as tiras atadas na perna dos segundos são capazes de matar qualquer top model habituada a toda a espécie de sandália estranha e os terceiros são demasiado simples, bons para idas ao banco e aos correios, mas fracos para uma grande festa. Restam, então, a "versão assassina de pés" e o "ultra-barroco chique". Pois agora depende da indumentária porque nenhum dos sapatinhos preza pelo conforto. Os primeiros são um clássico, sem nada que enganar. Acho, contudo, graça aos "ultra-barroco chique". Tudo depende do vestido.

- O Luís anda, como o vosso casal luso-argentino, a ver a Copa América na Sport TV (as coisas que uma rapariga faz para provar o seu amor ilimitado). Vejo os jogos de forma intermitente, uma vez que dão na televisão às duas, três da manhã. Mas o Brasil-Costa Rica passou-nos! Como é possível? O meu Marido pergunta qual foi o resultado, embora saiba que o Brasil ganhou (grr). Adenda às 23h: o Luís respondeu ao meu apelo. Obrigada. Tive pena de não ver o jogo precisamente por causa do vulcão. A Argentina já está a jogar contra o Peru. No outro dia vi a Argentina jogar contra o Uruguai (4-2, a favor da Argentina). Que jogo empolgante! E com muita pancadaria à mistura. Estes sul-americanos não são para graças.

- A Rititi há uns tempos destacou-me para o seu governo como Ministra da Cóltura Compusilva, responsável pela alfabetizaçao das classes operárias, criando campos de concentraçao intelectual para o povo viciado em Quim Barreiro. Mal aceitava de lágrima nos olhos e palete de lenços de papel na mão, e de tal estado miserável e esborratador de maquilhagem agressivas ainda não tinha saído, já os Marretas davam a garantia da minha presença carismática no Ministério da Agro-Cultura. Ora pensei muito e decidi: desculpem, meus queridos amigos e obrigada pelos convites aliciantes, mas não tenho dúvidas do meu perfil de Presidente da República. Aquilo sim é para mim. Ele são problemas para resolver, audiências e converseta, dissolver ou não dissolver, convocar ou não convocar, e sobretudo reunir e pensar e pensar e reunir. Uma loucura de vida, um stress como poucos cargos provocam. 'Tá pra mim. Ou isso ou Presidente do Conselho de Administração de qualquer coisa. Se não, pode ser mesmo Dona do Mundo que também me parece bem.

- Finalmente, coisas sérias. O José Pacheco Pereira, que é um homem que não existe, e digo-o por causa da sua renúncia ao cargo da Unesco (uma maravilha de cargo... a viver em Paris, a comer maravilhosamente, com tempo, com chofer, sem maçadas, ai...), é coerente com tudo o que defende e com tudo o que ataca. E esta coerência (a que costumava chamar honestidade - uma palavra cujo significado parece perdido nos tempos que correm) faz dele uma pessoa especial, no sentido em que é aqui que ele se destaca dos restantes muito bons, com capacidades intelectuais, inteligência, rigor etc. Há pouquíssimas pessoas que tomam na vida uma posição pública e definida que vá ao encontro dos seus príncipios. Provavelmente porque muitas começam por ter uns princípios algo esfrangalhados, o que não é nada bom princípio (e cá está o trocadilho para desanuviar). Mas espera lá... queria falar do Abrupto... Ah! Por causa do livro do Ribeiro Ferreira que aconselha! Pois claro. Que de política nada percebo (como se fosse preciso tal coisa). Mas não é aí que está quase tudo, não. É na obra estrondosa The Cambridge Ancient History. Tsc, tsc... não lê o bomba e depois dá nisto.



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publicado às 10:48