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por Carla Hilário Quevedo, em 11.08.04
Eros - Nível III



É preciso muito amor



É preciso muito amor

para suportar essa mulher.



Tudo que ela vê

numa vitrini

ela quer.



Tudo que ela quer

tehno que dá sem reclamar.



Porque se não, ela chora

e diz que vai embora, oh

diz que vai embora.



Pra satisfazer essa mulher

Eu faço das tripas coração.



Pra ela sempre digo sim.

Pra ela nunca digo não.



Porque se não, ela chora

e diz que vai embora, oh

diz que vai embora.



Samba de Noca da Portela. Em boa hora, a minha querida amiga e madrinha Maria João lembrou esta letra fantástica (olha como está escrito "vitrini"!). Beijos!

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publicado às 20:56

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por Carla Hilário Quevedo, em 11.08.04
Se a vida é chata nem a velhice escapa



Cícero, em 44 a.C., com 62 anos de idade, idade respeitável no mundo antigo (os meus sinceros agradecimentos ao Rui Oliveira por me ter corrigido) escreveu, Cato Maior De Senectute, uma conversa com Catão-o-Velho sobre as vantagens (segundo Cícero) da velhice. Parece-me normal e prova de sabedoria que se defenda a velhice quando se tem 62 anos em 44 a.C. e se é filósofo e sábio. O que estranho é a proliferação de gente jovem que, em vez de andar a saltar à corda e a jogar à apanhada, se preocupa seriamente com o envelhecimento; que quer ser velha, ou pior: que não percebe que ser velho com vinte ou trinta anos é patético, a menos que se seja muito bom (aliás, a quem é bom, tudo se perdoa. Lembro-me, por exemplo, de Kavafis que escreveu, com quarenta anos, poemas belíssimos sobre este tema).



Dizia Cícero: "Nunca concordei com esse antigo provérbio tão celebrado que aconselha: 'envelhece antes do tempo se desejas permanecer eternamente velho'. A falar a verdade, sempre preferi tornar-me velho no momento certo a ter de envelhecer antecipadamente." (10.32) Pois. Cada coisa a seu tempo. As boas vidas resultam em boas velhices (3.9), o que me leva a pensar que o problema não é envelhecermos, mas o que somos, e claro, como vivemos (a velhice não é igual para todos).



E porque tudo é efémero, como disse Mimnermo, que achava que era melhor morrer depressa porque a velhice só trazia maleitas, ruína e tristeza (Hélade, p. 112): "pouco dura o fruto da juventude - o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra", ou mesmo como cantou Carlos Gardel em Volver: "sentir, que es un soplo la vida, que veinte años no es nada, que febril la mirada errante en las sombras te busca y te nombra", é bom que aproveitemos muito bem a juventude (será este o início do hedonismo?). Viver bem para bem envelhecer parece-me uma sábia e óptima receita. Obrigada, Marco Túlio Cícero.

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publicado às 19:01