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por Carla Hilário Quevedo, em 02.12.04
Grave, grave, muito grave



Decorre no submundo do submundo da blogosfera (ou seja, no e-mail) uma discussão sobre uma certa e determinada ementa a ser saboreada num certo e determinado dia, a certas horas, em determinado lugar. Ora põe-se agora o problema (a meu ver escandaloso e comprometedor da presença de alguns distintos convidados) de terem sido excluídos o saltitante arroz (preferência do sempre jovem Alberto) e a fiável batata (tubérculo que estimo e que me acompanha quase diariamente... no bolso). Deixo à consideração do Presidente da AAP e dedico ao estimadíssimo adversário (o arroz é para crianças, pá!) umas palavrinhas sobre a Batata, essa Grande Senhora, para que a nossa tão grande amiga não se veja assim ostracizada. Entre o arroz e a batata, venha o Presidente da AAP e escolha a segunda! E já agora...



O Elogio da Batata







Porque tem a batata de ser elogiada? À primeira vista, parece não haver razões para sequer falar sobre ela. Talvez por ser um tubérculo, um ser vivo incapaz de se deslocar, bruto de aspecto e às vezes amargo de sabor. Sabemos que a batata não é um animal, nem uma pessoa nem uma cidade e que, por isso, não se integra em nenhuma das categorias passíveis de serem objecto de encómio. A aparente insignificância da batata afasta-nos de qualquer interesse que tenhamos em pesquisar a sua história. Mas se ultrapassarmos esta barreira, rapidamente chegaremos à conclusão de que as aparências iludem e de que o ser aparentemente mais banal pode afinal aliviar, ou mesmo solucionar, um dos mais problemas mais avassaladores do mundo: a fome.



Julgo que o elogio é a melhor forma de destacar algo que até agora não mereceu destaque. Neste caso, por uma razão: porque ao pesquisarmos as origens e os feitos desta planta, e os comparamos com os de outros tubérculos, compreendemos a sua importância. O elogio da batata é uma forma de exprimirmos a nossa gratidão por esse tubérculo que nos acompanha silencioso diariamente há milhares de anos sem nunca nos dar um motivo de decepção.



A batata (solanum tuberosum) foi cultivada pela primeira vez há dois mil anos nas montanhas do Peru, tendo sido descoberta pelos Espanhóis e levada para a Europa em meados do século XVI. Este facto histórico é importante porque nos permite perceber que a batata não é uma planta nova. A passagem do tempo transformou a batata, mas esta manteve-se fundamental para os povos que a cultivavam. Através da selecção e de processos de cruzamento biológico, inicialmente feitos pelas civilizações incas que a tornaram comestível, a batata passou de tubérculo originalmente amargo, pequeno e multicolor a planta cultivável em qualquer tipo de terreno, ambiente e em quaisquer condições climatéricas. A batata acabou por se adaptar a climas tão diferentes como o dos países do Mediterrâneo ou o dos países do Oriente, dando origem aos cerca de cinco mil tipos de batatas que existem hoje em dia.



A batata é um alimento rico em vitamina C, vitamina B6, fibra, proteína, carbo-hidratos, fósforo, magnésio e ferro. Na pele da batata estão concentrados proteínas, vitaminas e potássio. E, ainda por cima, ao contrário do que nos ensinaram, a batata não engorda. Os molhos que inventaram para torná-la ainda mais saborosa são os verdadeiros responsáveis pelo seu aumento calórico. Mas que alimento é tão versátil na sua feitura e junto com as suas capacidades nutritivas tem um sabor que tem aprovação universal? Pode não se gostar de batata cozida, mas gostar-se de batata frita. Será, no entanto, possível não se gostar de batata cozinhada de maneira nenhuma? Não me façam rir!



Os índios Aimará incrementaram cerca de duzentos tipos de batatas e descobriram um método de secagem, ainda hoje utilizado, que permite o armazenamento das batatas durante quatro anos. Os Incas respeitavam a batata e acreditavam nos seus poderes premonitórios. Também para os Incas, os diferentes tempos de cozedura da batata correspondiam às unidades de tempo real. O culto do tubérculo está patente na cerâmica com forma de batata e pequeninos olhos gravados frequentemente descoberta em escavações de sítios de interesse arqueológico no Peru e na Bolívia.



Será possível, hoje em dia, sequer pensar numa Europa sem batatas? Quando os Espanhóis descobriram a batata em 1537, passaram a dar-lhe importância, não por causa do seu sabor - que apreciavam - mas por verificarem que os marinheiros que a comiam não sofriam de escorbuto. Em 1620, Frederico I da Prússia ordenou que fossem plantadas batatas para resolver o problema da fome, decisão que acabou por salvar muita gente durante a Guerra dos Sete Anos. Parmentier, soldado francês detido em Hamburgo nessa Guerra, acostumou-se à dieta de batata da prisão e quando foi libertado sugeriu a Luís XVI e a Marie Antoinette que o cultivo e consumo do tubérculo seriam benéficos para o país. Para tornar a história mais interessante, Parmentier ordenou aos seus guardas que vigiassem uma grande plantação de batatas nos arredores de Paris. Os camponeses logo trataram de saber que coisa precisava de tanta vigilância. Roubaram as sementes e plantaram-nas nos seus próprios jardins. A partir daí, a popularidade da batata em França nunca mais parou de aumentar. Verificou-se que a batata tinha pernas para andar! Nestas três histórias reais, observamos que o consumo da batata teve consequências na saúde pública e solucionou o problema da fome em tempo de guerra e em período de paz.



A Grande Fome na Irlanda, em 1830, surge como o exemplo máximo da importância da batata, não pela sua implementação (que data de finais do século XVI) mas pela sua ausência. Nas vésperas da Grande Fome, mais de um terço da população irlandesa alimentava-se apenas de batata. Era pouca a variedade de utensílios usada nas cozinhas irlandesas e vasto o número de maneiras de cozinhar o tubérculo. Em 1845, um fungo devastou milhares de plantações de batata por toda a Irlanda, deixando milhões de pessoas numa situação de debilidade extrema. Sem a batata para os alimentar, dois milhões de irlandeses foram obrigados a emigrar e um milhão morreu na Grande Fome. Até hoje, fica por explicar como numa ilha ninguém se lembrou de pescar. Mas esse não é um problema da batata, nem da falta da mesma; é dos Irlandeses.



A grandeza da batata nem com a do arroz se pode comparar. Isto por uma razão muito simples: a batata pode ser cultivada em todos os tipos de terreno, como vimos anteriormente. E é tão resistente que pode mesmo crescer em temperaturas baixíssimas e perto da neve. Daí existirem cinco mil tipos de batata. Com o arroz, nada disso se passa. O arroz precisa de terrenos abundantes em água e de condições climatéricas especiais para se desenvolver. O seu cultivo é, por isso, restrito. O argumento de que existem outros tubérculos - o nabo, a batata-doce, entre outros - não é suficiente para me dissuadir. A verdade é que podemos bem passar sem eles.



Por se poder cultivar em toda a parte do mundo e por apresentar as qualidades nutritivas descritas no início, a batata é um alimento de custos baixos de produção e, consequentemente, de grande consumo. Nos países carenciados, a protecção dos batatais está prevista em directivas estabelecidas pela ONU, para que não volte a acontecer uma tragédia como a de 1845. Hoje em dia, milhões de pessoas dependem da batata, quer como consumidores quer como cultivadores ou exportadores.



O que mais se pode dizer da humilde batata? Nada, a não ser, muito obrigada!



Bibliografia



The Complete Works of Aristotle, the revised Oxford translation, ed. Jonathan Barnes, vol. II, New Jersey, Princeton University Press, 1984, pp. 2152-2269.



The Oxford Companion to Food, Alan Davidson, New York, Oxford University Press, 1999, pp. 406-7, 627-29.

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publicado às 19:39

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por Carla Hilário Quevedo, em 02.12.04
Calma, gente blogueira!



A nova casa do maradona é esta. Perguntam, e bem, se não podia ter arranjado um url maior... O rapaz gosta de dar trabalho às pessoas. Falamos no dia 5, meu menino.

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publicado às 13:11