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por Carla Hilário Quevedo, em 26.12.04
Etimologia hebdomadária (actualizado)



A palavra para hoje é pesadelo. Mesmo sem sabermos nada desta palavrinha, intui-se imediatamente um peso ali algures. Pois é. Trata-se do pensare latino, exactamente o mesmo que depois levará ao nosso "pensar". Afinal de contas, o pesar tanto pode ser o da reflexão como o da balança. Neste caso, fixemo-nos no segundo. O pesadelo, como diz José Pedro Machado, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, vem de pesado, "pois a pessoa que tem pesadelos sente aflições como se tivesse coisas pesadas a calcar-lhe o peito". Mas vejamos o que Jorge Luis Borges diz sobre o pesadelo*: "Em grego a palavra é efialtes: Efialtes é o demónio que inspira o pesadelo." Nas minhas pesquisas não descobri nenhum demónio chamado Efialtes (só o traidor das Termópilas), mas cheguei a ipiálos, que estará na origem de efialtes (by the way, a palavra mantém-se em grego moderno). Ora este ipiálos significa uma febre com tremores (suores), o que me leva à palavra febre em grego moderno: piretós. Muitas coisas aconteceram on the way, mas é muito provável que a evolução seja esta. Mas continuemos a ouvir Borges: "Em latim temos o incubus. O íncubo é o demónio que oprime o adormecido e lhe inspira o pesadelo. Em alemão temos uma palavra curiosíssima: Alp, que viria a significar o elfo e a opressão do elfo, a mesma ideia de um demónio que inspira o pesadelo. (...) Chegamos agora à palavra mais sábia e ambígua, o nome inglês dos pesadelos: the nightmare, que significa para nós 'a égua da noite'. (...) Porém, segundo os etimologistas a raiz é diferente. A raiz seria night mare ou night maere, o demónio da noite." Leiam o texto todo, demónios incluídos.



* Jorge Luis Borges, Obras Completas, "O pesadelo", Lisboa, Editorial Teorema, 1998, vol. III, pp. 228-239.



Adenda: no Avatares de um Desejo está o quadro de Füssli, The Nightmare, de que Borges fala no ensaio a respeito do Alp (elfo) alemão. Brrr... Medo... Obrigada, Bruno!



Segunda adenda: do blogue A Seita de Fénix recebi a seguinte mensagem, que desde já agradeço: "(...) a propósito da etimologia de «pesadelo», diz que nas suas pesquisas não descobriu nenhum demónio chamado Efialtes. Parece-me, no entanto, que talvez seja de recordar que Efialtes é um dos Gigantes vencidos (salvo erro...) por Júpiter. Nos Lusíadas, por exemplo, há uma passagem qualquer sobre as guerras que opuseram os Deuses aos Gigantes. Os Gigantes são seres monstruosos. Não poderia Borges ter buscado aí «o demónio que inspira o pesadelo»? [cada um dos Gigantes haveria, presumo, de ter uma característica distintiva... ? poderia ser por aí?]. Só como curiosidade: há-de ter reparado que no mesmo volume das Obras Completas que citou (v. p. 116), um dos poemas da Rosa Profunda tem, exactamente, o título Efialtes. Sempre me pareceu ambígua esta ideia de «pesadelo» que parece emergir deste poema: porque «pode ser a prisão a crescendo em labirinto», mas pode também «ser um jardim». E é ao pesadelo (a Efialtes, portanto) que Borges se refere no final do poema, quando fala na «insensata rosa»? [outra vez a ambiguidade ? uma rosa insensata...]. Seja como for, parece não haver dúvidas de que Borges vai buscar a ideia de pesadelo exactamente a Efialtes (a um dos Gigantes, portanto): repare que «o pesadelo» cujo «horror não é deste mundo» «vem de outroras de mito e neblina»... (...) Enfim, conhecendo-se Borges não é ilícito supor que, partindo de um ser monstruoso da mitologia clássica, se atreveu a extrapolar para a etimologia o que à etimologia não pertence..."

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publicado às 10:14