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por Carla Hilário Quevedo, em 10.03.05
A experiência que não ajuda

Cair na mesma esparrela enerva qualquer pessoa interessada em melhorar a sua vida. Por que batemos com o joelho sempre naquela esquina da mesa ou todos os dias bebemos o chá a ferver? Lamentavelmente, não é com o joelho cheio de nódoas negras nem com a língua pejada de bolhas que percebemos a necessidade de uma nova decoração e as vantagens dos batidos de frutas.

Não aprender com os erros é comum e coisa triste. Embora a experiência não se resuma às patas metidas nas poças lamacentas da vida, é verdade que quase nunca fixamos as emendas que timidamente fizemos. "Para a próxima, não me apanham às seis da tarde na Av. da República", dizemos um dia, certos de que nunca mais faremos um trajecto de dois - pronto, cinco - minutos numa hora. Na semana seguinte lá estamos de novo porque nos "pareceu estar mais descongestionada".

Ora, se assim é, talvez seja melhor acreditarmos que a aprendizagem é também independente da experiência. Se não preciso de me atirar de uma janela para saber que chego lá abaixo em más condições, também não será imperativo experimentar o sabor de um peixe molarengo para viver um dia de agonia intestinal. Assim como não me parece essencial visitar o Rio de Janeiro em Dezembro para saber que faz calor, não julgo ser fundamental atirar-me para debaixo de um comboio para perceber o desespero de Anna Karenina. Graças à ficção podemos andar à solta a descrever e a compreender situações extremas por que nunca passámos.

Mas nem só de exemplos de enganos vive o homem. Quando Virgílio Expósito, compositor argentino, escreveu a partir de versos do seu irmão, Homero Expósito, "primero hay que saber sufrir, despues amar, despues partir e al fin andar sin pensamiento", parte do belíssimo tango Naranjo en Flor*, tinha 19 anos de idade. E como diabo o sabia?

* O que estão a ouvir é precioso. Trata-se de Virgilio Expósito, com 80 anos de idade, a cantar Naranjo en Flor. A letra completa antes de cá estar, já cá estava.

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publicado às 10:59