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por Carla Hilário Quevedo, em 05.06.05
Por falar em testes...


Congratulations! You are Bree Van De Kamp, the
Martha Stewart on steroids, whose family is
about to mutiny.

Cá está.

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publicado às 21:56

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por Carla Hilário Quevedo, em 05.06.05
Introducing...*


Fotografia roubada ao Miguel Manso

«É desta que corto as veias do tornozelo com a gillette, que o meu marido esqueceu na casa de banho antes de emigrar para Madrid.» (17) Assim começa O Livro da Rititi. Ora, em vez de cortar as veias do tornozelo, a Rita fez as malas e partiu para Madrid. Foi aí que nasceu uma espécie de amiga imaginária - ou de eu imaginário: a Rititi.

São várias as preocupações da Rititi. Por exemplo, preocupações ginecológicas: «Pesam-me as mamas, não posso com as minhas pernas, já para não falar da dor de rins.» (142) A Rititi fala dos bastidores das mulheres e daquilo que não é glamouroso nem sedutor.

A Rititi tem preocupações femininas: «Detesto trabalhar. Rezo no duche a Santa Rita para que o meu querido enriqueça rapidamente e me possa dedicar às tarefas de dona de casa (deixando à Adriana a limpeza, o ferro e a cozinha). (129) A Rititi é uma mulher à antiga, mas que quer o melhor dos dois mundos. Quer tempo e descontracção com mordomias. Não é a única.

A Rititi preocupa-se com o declínio do sexo masculino: «Para complicar ainda mais as coisas agora temos estes metrossexuais da treta a ganharem pontos aos mecânicos e camionistas nas fantasias erótico-festivas do gajedo pré-idade madura!» (109) Trata-se de uma verdadeira conservadora, que gosta de homens sem ambiguidades. Ou melhor, que gosta do marido. Também na sua vida em Madrid, lamenta os tempos modernos e escreve: «(?) os habitantes do antigamente, os tipicamente espanhóis e castiços, desses já há poucos, e, se existem, só devem sair à noite para encher bares e vomitar à porta do meu prédio.» (88) É provável que a Rititi more numa espécie de Bairro Alto madrileno.

Finalmente, preocupa-se com as minorias e diz: «É sempre bom confirmar a razão pela qual não gosto de gajas, penso eu, enquanto me imagino a partilhar tampaxes e ginecologista com o amor da minha vida.» (165) A Rititi preocupa-se com os homossexuais, com os aficionados das touradas, com as senhoras invejosas. E com a vizinha do 3.º D.

A Rita, no seu blogue, partilhou angústias e alegrias com todos nós, ao escrever textos, que foram comentados, que provocaram indignação e que foram levados em ombros por essa blogosfera fora. A sua escrita apressada, tão precipitada quanto sincera e, sobretudo, muito divertida foi recebida de braços abertos pelos desconhecidos internautas do costume. Talvez por ser uma eterna optimista, a Rititi indigna-se, reivindica, estica o dedo no ar e diz de sua justiça. Tal seria absolutamente insuportável se nos textos não houvesse humor. Teríamos uma espécie de Francisco Louçã de saias. Mas não. Graças a Deus, a Rititi, quando aponta o dedo, diz uma piada, o que faz toda a diferença e a torna infinitamente mais interessante.

Tenho estado a falar da Rita e da Rititi indiscriminadamente. A Rita fez de si própria uma personagem - a Rititi -, exagerando o quotidiano, acrescentando muitos pontos a muitos contos. Julgo que a Rititi é a Rita completamente à solta. Mas não sei onde acaba uma e começa a outra, nem me interessa. Aquilo que, de facto, importa - os textos - está aí para ser lido e desfrutado por todos.

Poucos blogues sobrevivem além da blogosfera. Uns porque tratam apenas do efémero e repetem notícias; outros porque são de facto diários, e como tal, demasiado íntimos, pouco virados para fora, escritos apenas para os próprios e para os amigos. Temos depois as excepções, que justificam, na minha opinião, a sua publicação em papel: os blogues que se transcendem a si próprios. Isso não significa que o blogue, lá por ser publicado, seja superior àquele que não é publicável. O blogue publicável é aquele que, além de ter um prazo de validade mais extenso do que o habitual, pode interessar a pessoas que nada têm a ver com a blogosfera, que não sabem sequer da sua existência.

Não há melhor campo de treino para a escrita do que um blogue. Porque é giro e porque é público. Quando se escreve, escreve-se em público, mas na blogosfera há uma particularidade diferente: o contacto imediato com o leitor. Também as reacções públicas, de louvor ou de rejeição, permitem que a escrita seja testada. Ter um blogue é fazer um teste a si próprio. A taxa de chumbo é altíssima, mas por uma vez não faz mal nenhum que assim seja. A Rita passou com a nota máxima.

O blogue da Rita, embora escrito na primeira pessoa, nunca foi um blogue privado nem intimista. A Rita, ao observar o que a rodeia e a partilhar connosco as suas angústias e alegrias, de uma forma tão aparentemente despudorada, disse-nos qualquer coisa sobre nós. Muitos lêem os seus textos e pensam, «sim, as coisas são mesmo assim» ou «não, não é nada disto!», mas nunca ficam indiferentes às suas palavras. Não basta escrever bem; há que ter alguma coisa para dizer. A Rita começou agora. Temos escritora. Saudemos O Livro da Rititi!

* Texto de apresentação de O Livro da Rititi, lido no 4 de Junho de 2005, pelas 18h20, na Fnac do Chiado.

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publicado às 15:30

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por Carla Hilário Quevedo, em 05.06.05
The sound of bomba: ontem comprei um CD magnífico, Acapulco. Na capa podemos ler a seguinte citação de Miles Davis sobre João Gilberto: "He could read a newspaper and sound good." O tema comovedor que ouvem chama-se O Sapo.

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publicado às 15:23

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por Carla Hilário Quevedo, em 05.06.05
Coisas que melhoram algumas vidas (25)

Ouvir, no Bombyx Mori, James Joyce a ler uma parte do sétimo capítulo de Ulysses, de "Impromptu" e "From the Fathers". Não resisto a transcrever o excerto.

"He began:
- Mr Chairman, ladies and gentlemen: Great was my admiration in listening to the remarks addressed to the youth of Ireland a moment since by my learned friend. It seemed to me that I had been transported into a country far away from this country, into an age remote from this age, that I stood in ancient Egypt and that I was listening to the speech of some highpriest of that land addressed to the youthful Moses.
His listeners held their cigarettes poised to hear, their smoke ascending in frail stalks that flowered with his speech. And let our crooked smokes. Noble words coming. Look out. Could you try your hand at it yourself?
- And it seemed to me that I heard the voice of that Egyptian highpriest raised in a tone of like haughtiness and like pride. I heard his words and their meaning was revealed to me.

It was revealed to me that those things are good which yet are corrupted which neither if they were supremely good nor unless they were good could be corrupted. Ah, curse you! That's saint Augustine.
- Why will you jews not accept our culture, our religion and our language? You are a tribe of nomad herdsmen; we are a mighty people. You have no cities nor no wealth: our cities are hives of humanity and our galleys, trireme and quadrireme, laden with all manner merchandise furrow the waters of the known globe. You have but emerged from primitive conditions: we have a literature, a priesthood, an agelong history and a polity.
Nile.
Child, man, effigy.
By the Nilebank the babemaries kneel, cradle of bulrushes: a man supple in combat: stonehorned, stonebearded, heart of stone.
- You pray to a local and obscure idol: our temples, majestic and mysterious, are the abodes of Isis and Osiris, of Horus and Ammon Ra. Yours serfdom, awe and humbleness: ours thunder and the seas. Israel is weak and few are her children: Egypt is an host and terrible are her arms. Vagrants and daylabourers are you called: the world trembles at our name.
A dumb belch of hunger cleft his speech. He lifted his voice above it boldly:
- But, ladies and gentlemen, had the youthful Moses listened to and accepted that view of life, had he bowed his head and bowed his will and bowed his spirit before that arrogant admonition he would never have brought the chosen people out of their house of bondage nor followed the pillar of the cloud by day. He would never have spoken with the Eternal amid lightnings on Sinai's mountaintop nor ever have come down with the light of inspiration shining in his countenance and bearing in his arms the tables of the law, graven in the language of the outlaw."

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publicado às 15:06