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por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.05
O menino da mamã e da avó (5)

Uma mulher jovem, sentada a comer uma tangerina, no escritório do tio Adolphe, olha para Marcel, de visita, e comenta: "Como ele se parece com a mãe." (84) Mau.



Afinal não. Respiro de alívio.

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publicado às 18:10

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por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.05
O menino da mamã e da avó (4)



Giotto, Caritas, Invidia, 1305-6, Cappella Scrovegni, Padua.

"A moça da cozinha era uma pessoa moral (...) quando [Swann] nos pedia notícias da moça da cozinha dizia-nos: 'Como vai a Caridade de Giotto?' De resto, ela própria, a pobre moça, engordada até às faces que lhe caíam direitas e quadradas, se parecia bastante, efectivamente, com aquelas virgens fortes e varonis, melhor, aquelas matronas, nas quais as virtudes são personificadas na Arena. (...) A Inveja, essa, poderia ter mais uma certa expressão de inveja, mas também nesse fresco o símbolo ocupa tanto espaço e é representado como tão real, a serpente que silva nos lábios da Inveja é tão grossa, enche-lhe tão completamente a grande boca toda aberta, que os músculos da cara estão distendidos para poderem contê-la, como os de uma criança que enche um balão soprando, e toda a atenção da Inveja - e ao mesmo tempo a nossa -, concentrada na acção dos seus lábios, pouco tempo tem para prestar a invejosos pensamentos." (Do Lado de Swann, pp. 88-89)

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publicado às 10:20

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por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.05
O menino da mamã e da avó (3)

Quando Swann chega para jantar, Marcel percebe que tem a noite estragada. Será enviado para o quarto, sem direito ao beijinho de boas-noites por que espera durante todo o dia. Uma vez no quarto, Marcel envia um bilhete à mãe, por intermédio de Françoise, a criada, que logo o olha com profundo desprezo: "Então não é uma infelicidade para os pais terem um filho assim?" (36) A mãe mandou que Françoise repetisse: "Não tem resposta." (38) Finalmente, depois da saída de Swann, a mãe sobe as escadas e encontra o filho, ansioso, no corredor e, encolerizada, manda que Marcel desapareça, para que o pai não o encontre "assim à espera, como um tolo!" (42) Nessa noite, o pai, farto daquelas "pieguices" (43), deixa que a mãe durma no quarto de Marcel. A mãe compreende a sua dependência: "(...) parecia-me que, com mão ímpia e secreta, eu acabava de traçar na sua alma uma primeira ruga e de nela fazer surgir um primeiro cabelo branco." (45) Mas suporta o episódio com doçura: "Aqui está a minha moeda de oiro, o meu canarinho, que vai fazer da mãe uma palerminha tão grande como ele, se isto continua assim." (46) Mesmo assim, "o palerminha" lamenta-se de a noite ser "artificiosa e excepcional" (50) e só pensa no dia seguinte, passado longe da mãe, à espera da noite e do beijinho. Já disse que Marcel era uma criança muito feia, não disse?

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publicado às 10:19

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por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.05
O menino da mamã e da avó (2)

Nó na garganta (com risos à mistura): "Não tardaria a ser meia-noite. é o momento em que o doente que foi obrigado a partir de viagem e teve de dormir num hotel desconhecido, despertado por uma crise, rejubila ao distinguir debaixo da porta uma tira de luz. Que alegria, já é de manhã! Daqui a pouco os criados estarão a pé. Poderá tocar a campainha, alguém virá socorrê-lo. A esperança de ser aliviado dá-lhe coragem para sofrer." (Do Lado de Swann, p. 10)

Aperto no coração: "Talvez a imobilidade das coisas à nossa volta lhes seja imposta pela nossa certeza de que são elas e não outras, pela imobilidade do nosso pensamento diante delas. Mas a verdade é que quando acordava assim, com o espírito a agitar-se para procurar saber onde estava sem o conseguir, tudo girava em redor de mim na escuridão, as coisas, as terras, os anos." (Do Lado de Swann, p. 12)

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publicado às 10:18