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por Carla Hilário Quevedo, em 14.10.05
Blogues no feminino


Matt "Florence" Lucas e David "Emily" Walliams

Introdução ao debate*

Quando José Carlos Abrantes, muito gentilmente, me convidou para participar no debate, recusei. À partida rejeito qualquer tipo de discussão que contribua para a separação entre homens e mulheres. Existem, infelizmente, no mundo, questões mais que suficientes a separar as pessoas. Que necessidade havia sequer de mencionar quaisquer «especificidades femininas» e logo nos blogues, um espaço à partida livre de rótulos e de etiquetas? Talvez por causa da irritação, decidi, no mesmo telefonema, aceitar o convite. Uma vez que não posso falar por todas as mulheres que escrevem em blogues, porque não tenho poderes de adivinhação quanto às suas motivações, nem informações especiais acerca de quem as lê, prefiro contar um pouco da minha história na blogosfera.

Tudo começou por piada. Participava, há cerca de dois anos, no Pastilhas, o site do Miguel Esteves Cardoso, quando, um dia, o Macguffin apresentou o seu blogue, Contra a Corrente. Gostei muito da ideia e comecei a seguir o que escrevia, bem como outros blogues que mencionava, como a Coluna Infame. Uma bela noite, decidi entrar no blogger e experimentar. O meu Marido sugeriu o título bomba inteligente e comecei a escrever. Escolhi o mesmo nickname que utilizava no Pastilhas - Charlotte - porque o blogue era uma espécie de continuação da minha participação no site. Charlotte e Carla é exactamente a mesma coisa, como tive também oportunidade de explicar nos primeiros posts. Não há personagens no meu blogue, à excepção, por vezes, do gato Varandas, que embora seja uma criatura estranha, existe mesmo.

A começar no meu nome e a acabar na série O menino da mamã e da avó, tudo no meu blogue faz parte da minha vida diária. Naturalmente que as gracinhas estão relacionadas com o exagero, sobretudo nas séries Eu hoje acordei assim ou Ninho de cucos. Isto para que não pensem que sou a Marylin Monroe ou a Elizabeth Taylor. Mas só porque ainda estou viva e só me casei uma vez. Percebo que o anonimato permita uma liberdade de movimentos, de delírios, de invenções, que podem ser tão literariamente interessantes como levar o seu autor à loucura. Esse tipo de registo nunca me interessou, nem quando assinava apenas com o nickname. Os melhores blogues foram, no entanto, anónimos e mentirosos: O Meu Pipi, Procuro Marido, Dói-me e Malapata. Mas nos quatro casos mencionados, o exagero e o humor eram tão evidentes que não lhes posso chamar mentirosos, uma palavra feia, mas brilhantes, inesquecíveis. Interessa saber se os seus autores seriam homens ou mulheres? Não interessa.

No dia em que publiquei no blogue uma curta gravação com a minha voz, recebi uma série de e-mails de leitores a desculparem-se por terem achado que eu era um homem. Não me lembro se terá sido a primeira vez que me insultaram, mas foi certamente a primeira em que me senti ofendida. Eu, Charlotte, Bomba Inteligente, um homem? Com barba e bigode? E pêlos no peito? Sem mala? Mas por que razão haveria homens (e quem sabe se mulheres) a pensar que um blogue, onde havia posts como «Também quero uma kalashnikov com banho de ouro!», ou discussões burlescas sobre a regra do fora de jogo, era escrito por um sem-dúvida-distinto membro do sexo masculino? Tentei perceber a confusão. Haveria qualquer coisa de rapazola em mim que me tivesse escapado? E o mais importante: teria cura? Como uma boa mulher, decidi dormir sobre o assunto. Na manhã seguinte, percebi que os sinais que mostram o género do autor do blogue são, pelos vistos, muito confusos nos tempos que correm.

Também não sei se terá sido ao segundo insulto, mas lembro-me da segunda vez - e última - em que me senti ofendida. Quando me filmaram por causa do blogue, choveram e-mails (mais uma vez) de leitores a pedir desculpas por terem achado que eu tinha 50 ou 60 anos. Desta segunda vez, percebi que o problema não se punha somente com os sinais que mostram o género do autor do blogue, mas que a confusão e a dúvida chegavam à idade. Se nunca tivesse aparecido, ainda haveria muito boa gente a imaginar que o bomba inteligente era escrito por um sexagenário chamado Carlos Manuel, mesmo assinando Charlotte.

Ora sobre que assuntos falam as mulheres na blogosfera? Falam literalmente de tricô, como a Hilda Portela ou a Rosa Pomar; ou dos filhos como a Vieira do Mar, no Passeai, Flores!, o único babyblogue que visito. Falam da actualidade, de política, de sexo, de homens, de compras, de touradas, de animais, de economia, de futebol, do quotidiano, de moda, de cinema, de literatura. As diferenças no modo como observam estes e outros temas estão relacionadas com o que são como pessoas, com as suas expectativas, com as suas capacidades, e não com o simples facto de serem mulheres. Talvez o único tema na blogosfera exclusivo das mulheres seja o tricô. Mas não o posso afirmar com toda a certeza.

Não faço a mais pequena ideia do que motiva as mulheres na blogosfera. A pergunta terá de ser dirigida a cada uma delas. Posso dizer-vos que não tenho nenhuma motivação em particular. Apenas tempo.

* Apresentação lida (porque sou com uma rapariga tímida e por isso tenho um blogue) ontem, na livraria Almedina, em Lisboa.

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publicado às 10:39