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por Carla Hilário Quevedo, em 24.12.05
O segredo

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Keith Haring

Não sei quando deixei de acreditar no Pai Natal, por isso não deve ter sido nenhuma experiência traumática. Talvez desconfiasse de que seriam os pais a colocar os presentes na cozinha, fazendo de conta que havia alguém que descia pela chaminé. Lembro-me de pedir pormenores sobre a descida e de ficar impressionada com a dificuldade da tarefa: havia alguém que se sujava, que sofria para nos dar qualquer coisa. Porque na minha cabeça o senhor descia mesmo, com o saco às costas e tudo. Não era como agora se vê nos jogos de computador, em que atira os presentes de qualquer maneira pela chaminé abaixo e já está. Havia ali um cuidado, qualquer coisa de muito pessoal.

À medida que os anos passam, gosto cada vez mais do Natal. Quando era criança, adorava. Esse tempo nunca mais se repetirá. A diferença é que há já uns bons anos que não faz mal que não se repita. Cada coisa tem o seu lugar no tempo. O Natal na infância vive em todos os natais, embora estes sejam vividos de outra maneira. Mas há algo que se mantém: o secretismo em torno dos presentes.

A coisa começa mais ou menos no início do mês de Dezembro, com insinuações do género: "No outro dia, vi uma coisa giríssima para te dar". Durante todo o santo mês, a pessoa é massacrada com frasezinhas e sms a despropósito do estilo: "Não sei se já te disse que já comprei uma coisa que vais adorar..." É muito enervante, suscita a curiosidade, alimenta as expectativas e é divertido. Trata-se de um exercício de manipulação amorosa, de diversão no seu estado mais puro; enfim, um acto de cuidado, atenção e amor. A pior coisa que pode acontecer durante esse mês é alguém saber o segredo e, inadvertidamente, contá-lo. Estraga o jogo, arruina a piada, põe-me doente. Toda a preparação até ao dia em que o segredo é desembrulhado é o que realmente tem graça nesta história de darmos coisas uns aos outros. O elemento da surpresa, mais do que não dever ser esquecido, tem de ser estimulado. Na verdade, trata-se de espicaçar o próximo, de o levar a que entre no jogo, ou a um estado de loucura tal, que vamos dar com ele a remexer os armários. Mas os profissionais não guardam surpresas nos armários. As coisas têm sempre de estar noutro sítio. Um bom segredo não se fecha numa gaveta qualquer e pronto. Tem de se levar, buscar, trazer, dá uma carga de trabalhos e é por isso que dar um presente a alguém é um acto de amor. Não é dar simplesmente. É massacrar o próximo com uma informação de que não dispõe e fazer com que acredite na verdade: sim, trata-se de qualquer coisa magnífica de que o outro gostará muitíssimo. Quando chega o dia - ou seja, hoje - ninguém se decepciona.

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publicado às 09:21