Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



...

por Carla Hilário Quevedo, em 07.05.06
Etimologia hebdomadária

A palavra para hoje é errar. Mal olhamos para o verbo, pensamos em erro, engano, falta e só depois - alguns talvez nunca - em vaguear, andar por aí sem destino, à aventura. Pois errare, do latim, começa por ter o segundo significado e só depois, e em sentido figurado, o primeiro; ou seja, o desvio no caminho, a ausência de objectivos (ou, novamente em sentido figurado, a distracção) conduzem à ilusão. Cá está um tema que me interessa há anos: o desvio (ou o engano) como parte integrante ou como consequência da desconcentração. Não sei bem o que chega primeiro, muitas vezes nem sequer como reconhecer o engano. Não será sempre qualquer coisa que fazemos a posteriori, mas por vezes é (talvez erradamente, no entanto). Mas isto é tudo muito complicado (tinha de ir dar uma ganda bolta) e ultrapassa em muito a etimologia. Em vez disso, prefiro pensar em láthos: erro, em grego moderno. Em grego antigo, a palavra muda um bocadinho: é líthos. Assim à primeira vista não parece muito diferente, mas é. Líthos de lithomai, ou mais infinitivamente de uma espécie de Indicativo, de lantháno, que significa escapar, no sentido de não ser visto, de passar por desconhecido, desapercebido. Mas aquele líthomai (uma voz média ou passiva - só problemas e complicações, sinceramente), do qual temos o substantivo líthos, significa esquecer; mesmo esquecer propositadamente, passar por cima, digamos. E, na mesma palavra, passámos do esquecimento ao engano. É incrível como um vocábulo pode conter quase todos os conceitos ou significados que me são menos suportáveis.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:52

...

por Carla Hilário Quevedo, em 07.05.06
Ninho de cucos (52)

O ponto preto, uma espécie de sombrazinha muito ténue, na parede branca, nada mais é do que um ordinário mosquito. O Varandas, sentado em cima da cama, quase bate com o nariz no pobre insecto. Há uma espécie de doçura naqueles grandes olhos amarelos, mesmo no momento anterior a qualquer coisa que imagino corresponder ao fim da vida do sombreado na parede. Passam alguns minutos. O gato contempla a presa (talvez seja demasiado pequena, chego a pensar) e o insecto nada. A proximidade é grande e, de repente, o gato estica-se e zap: dá-lhe uma sapatada lacónica e elegante. O momento é breve, mas o bicho demora uns segundos a voltar à posição inicial. Não percebo se o insecto terá sobrevivido. Não me parece, mas era demasiado pequeno para cadáver. Posso, contudo, garantir que durante uns breves instantes houve ali amor, carinho, intensidade, ternura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:51

...

por Carla Hilário Quevedo, em 07.05.06
Uns sobre outros (especial 150 anos): "Sigmund Freud is the father of psychoanalysis. It has no mother." Germaine Greer

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:40

...

por Carla Hilário Quevedo, em 07.05.06
Verdades absolutas com itálico: não posso tornar-me aquilo que não sou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:39

...

por Carla Hilário Quevedo, em 07.05.06
Blockbomba: Howl's Moving Castle (um filme espantoso). Ellie Parker (excelente Naomi Watts, mas uma neura de filme). In her Shoes (não deve ser fácil ser irmã de Cameron Diaz... Um filme delicioso, inteligente, comovedor, muito bem escrito e interpretado. O que mais se pode querer? Dois poemas extraordinários, sim: um de e. e. cummings,

i carry your heart with me (i carry it in my heart)
i am never without it (anywhere i go you go, my dear;
and whatever is done by only me is your doing, my darling)
i fear no fate (for you are my fate, my sweet)
i want no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;
which grows higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart (i carry it in my heart)

e outro, One Art, de Elizabeth Bishop:

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:29