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por Carla Hilário Quevedo, em 15.08.06
Eu hoje acordei assim...

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Christy Turlington

... a pensar no último Of Beauty and Consolation que vi, desta vez com o escritor húngaro György Konrád. Desta série de programas, traduzi dois, há cinco ou seis anos. Um deles foi este de que agora falo; o outro foi o último, em que estão todos os participantes reunidos. Ambos foram traduzidos (como a maioria dos programas desta série) sem guião: ou seja, com tudo tirado de ouvido (assim se costumava dizer). Fiz a tradução, não a legendagem, e nunca cheguei a ver o resultado final. O horário impróprio que a SIC escolheu para transmitir a série (entre as duas e as quatro da manhã) e a falta de lembrança para gravar contribuíram para que nunca tivesse visto nada. Agora já fico acordada até mais tarde e tenho um super-gravador de vídeo. A entrevista com Konrád foi profundamente triste. Chorei, claro. Não do princípio ao fim desta vez, mas caíram lágrimas quando Konrád disse que havia limites para contar a sua história de sobrevivência ao Holocausto e que era imperdoável. Simplesmente assim: imperdoável. Nem sequer disse a palavra em inglês, mas balbuciou-a em francês. No contexto da entrevista, há que perceber que Konrád não falava dos que mataram a sua família e os seus amigos, mas de si próprio. Falava de si como sobrevivente aos onze anos (quase doze, corrige a certa altura, como se fizesse diferença); falava da sua experiência como um dos judeus deixados para trás, um dos que não foram escolhidos para morrer. Há limites para falar da sua culpa, assim o entendi. Há também limites para a curiosidade do entrevistador, dos espectadores. A culpa de ter ido para Budapeste, de ter sobrevivido àquele absoluto horror. Konrád insistiu muito e de muitas maneiras no tema da consolação: que não existe. Mas o entrevistador não desistiu e Konrád acabou por dizer algo que me pareceu, de certa forma, um sinal de consolo. Qualquer coisa como, as acções e as respectivas justificações não se perdoam porque não podem ser apagadas nem deixar de existir (ficam congeladas no tempo, afirmou); mas os indivíduos devem ser perdoados, por serem simples pecadores. Mas haverá perdão sem consolação? Talvez.

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publicado às 10:31