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por Carla Hilário Quevedo, em 28.08.06
Bom em todas as línguas

MUSIQUE GRECQUE

Tant que cette musique durera
nous serons dignes de l'amour d'Hélène de Troie.
Tant que cette musique durera
nous serons dignes d'avoir trouvé la mort à Arbèles.
Tant que cette musique durera
nous sons croirons au libre arbitre,
cette illusion de chaque instant.
Tant que cette musique durera
nous serons la parole et l'épée.
Tant que cette musique durera
nous serons dignes de l'acajou et du cristal,
de la neige et du marbre.
Tant que cette musique durera
nous serons dignes des choses communes
qui ne le sont guère aujourd'hui.
Tant que cette musique durera
nous serons la flèche dans l'air.
Tant que cette musique durera
nous croirons en la miséricorde du loup
et en la justice des justes.
Tant que cette musique durera
nous mériterons ta grande voix, Walt Whitman.
Tant que cette musique durera
nous mériterons d'avoir vu, du haut d'un sommet.
la terre promise.

Jorge Luis Borges, Oeuvres Complètes II, Éditions Gallimard, 1999, p. 958.

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publicado às 11:09

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por Carla Hilário Quevedo, em 28.08.06
Dos Antigos: quando escrevi este post, um amável leitor disse-me: "Tão simples como aquele momento em que Édipo soube que tinha morto o pai." Ando a pensar nisto há um tempo. Concordo assim-assim, que é como quem diz: depende. Parecia tudo bastante simples até Édipo conhecer a verdade sobre o seu destino, desencadeando a violência bem conhecida: suicídio de Jocasta, cegueira auto-infligida. Mas até àquele momento, as coisas eram relativamente simples (nota importante pouco depois do início do post e entre parêntesis: não podemos esquecer a economia de tempo na peça, que necessariamente leva a que pormenores importantes sejam omitidos. Convém ainda lembrar que se trata de uma tragédia e não de uma notícia). Ao fugir da sua terra natal, para não matar o pai como o oráculo previra, Édipo acaba por matar um viajante numa encruzilhada. Chega a Tebas, responde à pergunta da esfinge, salvando a cidade da peste, e casa com Jocasta, a rainha, acreditando ter escapado ao destino. O momento em que Édipo sabe a verdade é simples, embora não seja fácil. Aquele momento não é complicado (mas, isso sim, difícil), se partirmos do princípio de ser essa a verdade. É como se naquele instante tudo se conjugasse e fosse por isso bom (no itálico leia-se "isto é muito discutível"). O momento da verdade - o momento em que conhecemos, em que sabemos, em que juntamos as peças soltas - é um instante luminoso. Talvez por isso os filósofos sejam os únicos seres nesta terra de facto felizes: felizes porque conhecem ou porque têm a capacidade de conhecer. Mas voltemos a Édipo, que não era filósofo. O amável leitor alertou-me para o seguinte problema: não há provas de ter sido Édipo o autor daquele crime. As testemunhas são frágeis (segundo me lembro, há apenas uma testemunha) e a questão do tempo - entretanto passou muito tempo desde a morte de Laio, embora não pareça - não pode ser esquecida. E é por isso que um dos "assins" dito no início deste post é de concordância: o momento pode não ser nada simples, mas totalmente confuso, apenas o princípio do fim. Talvez seja assim: se é verdade que Édipo matou o pai, o momento é simples, apesar de tudo o que acontece depois, porque é claro; doloroso, mas luminoso, uno, absoluto. Se, pelo contrário, é mentira, o momento é complicado, diabólico, escuríssimo. Resta saber em que acreditamos. E assim temos mais uma divisão do mundo: aqueles que acreditam que Édipo matou o pai e os outros que se convenceram de que tudo não passou de um terrível mal-entendido (os mesmos que duvidam da autoridade dos oráculos). Só posso dizer que tenho dias.

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publicado às 09:52