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por Carla Hilário Quevedo, em 12.09.06
Dos Não-Tão-Modernos-Como-Isso

O mais que puderes

E se não conseguires fazer da tua vida o que queres,
então pelo menos tenta,
o mais que puderes; não a menosprezes
no contacto abundante com o mundo,
nas muitas acções e palavras.

Não a menosprezes no vaivém
frequente, expondo-a
à estupidez diária
de relações e amizades
até que se torne um fardo estranho.

Konstandinos Kavafis, 1905. Tradução de Carla Hilário Quevedo. (Traduzi este poema pela primeira vez em 1996, em Atenas. Esta é a quarta versão e não será a última.)

A resignação, que aparenta ser uma atitude menor (uma espécie de satisfação com o que é possível) parece ser, afinal, o que possibilita a elevação de pensamento. O esforço de tentarmos fazer da nossa vida "o mais que pudermos", embora seja nobre, não nos confere por si só elevação. A importância de preservarmos a nossa vida, separando-a da mesquinhez exterior à mesma, sobrepõe-se a qualquer objectivo prático, por muito digno que seja. Tentar fazer o mais que se pode apresenta-se neste poema como um objectivo indissociável de um sentimento profundo de aceitação dos revezes da vida. No caminho é preciso evitar os desvios prejudiciais, como o "contacto abundante com o mundo", as "muitas acções e palavras", o "vaivém frequente" ou ainda a exposição "à estupidez diária de relações e amizades".

Cuidarmos da nossa vida apresenta-se como o mais importante. Tal implica que a nossa intervenção no destino, que (quase paradoxalmente) a cada um cabe cumprir, se faça, sobretudo, no isolamento. A alteração do objectivo parece-me determinante no modo de vida que se lhe exige: não se trata de conseguir o que se quer, mas de tentar conseguir o que se quer, sempre com a consciência da inevitabilidade do insucesso, que por sua vez não é necessariamente visível, nem tão-pouco necessariamente perceptível no momento em que acontece. Na verdade, o falhanço é o menos importante. Não se trata de negar a vida, não tentando sequer, mas de a viver com coragem, tentando sempre. A tentativa parece similar à dos Troianos (tal como se apresenta num poema homónimo belíssimo também da autoria de Kavafis), embora menos alegre, talvez mais consciente do falhanço. O esforço na modernidade é individual, restando-nos preservar a única coisa que nos pertence: a nossa vida, cuja elevação parece possível através da concretização de preocupações tão antigas como o despojamento do que é mundano, trivial, superficial e, por tudo isso, desgastante. A frase de Samuel Beckett - tão excessivamente citada que chega a parecer banal - "try again, fail again, fail better" leva-me sempre a pensar neste poema, que se fosse ainda mais curto e muito mais antigo seria um epigrama didáctico de Teógnis.

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publicado às 19:04

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por Carla Hilário Quevedo, em 12.09.06
Coisas que melhoram algumas vidas (49)

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publicado às 12:23

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por Carla Hilário Quevedo, em 12.09.06
The sound of bomba

"Why can't the English teach their children how to speak?
Norwegians learn Norwegian; the Greeks have taught their Greek.
In France every Frenchman knows his language fro "A" to "Zed"
The French don't care what they do, actually, as long as they pronounce it properly."

Why Can't The English? My Fair Lady.

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publicado às 10:22

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por Carla Hilário Quevedo, em 12.09.06
Eu hoje acordei assim...

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Nastassja Kinski

... quem era aquele senhor ontem no Prós e Contras, apresentado como tendo escrito ou traduzido ou ambos mais de 150 livros e que, coitadinho, é altamente influenciável pela televisão? E o outro sentado ao lado que se afirmava muçulmano (pois com certeza que era, claro), mas que na verdade era um tuga tuguíssimo? Helena Matos óptima, a dar um excelente exemplo ("os chineses não se fazem explodir") perante o olhar confuso (coitadinho) do intelectual dos 150 livros, tradutor entre outras obras do Corão e que me pareceu ter dito a uma dada altura que as mulheres usavam a burka no Afeganistão porque queriam. Pacheco Pereira teve a absoluta sensatez de chamar guerra ao que é de facto uma guerra e de dizer tudo aquilo que deveria pertencer ao domínio do senso comum, mas que infelizmente não pertence. Como se pode sequer comentar a frase de Mário Soares: "Os terroristas fazem mal, mas os que o combatem fazem ainda pior"? E sempre o discurso de eterna desculpabilização: porque são pobres e - meu Deus! - porque se sentem humilhados. A questão da alegada humilhação dava um tratado sobre a relação entre a inveja e o terrorismo (isto para quem acredita que a inveja é uma coisa muito séria e grave; ou seja, três ou quatro pessoas). Sempre que Soares falava, Pacheco Pereira ficava mais novo. Quase no início, Mário Soares disse qualquer coisa como: "Você não quer Convenção de Genebra, não quer Direito Internacional, não quer ONU", mas a única coisa que ouvi foi: "O menino não quer estudar, não quer comer, só quer brincar no computador, vá já para a cama!" A partir daí o debate nunca mais foi o mesmo.

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publicado às 10:12