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por Carla Hilário Quevedo, em 08.11.06
Unus dies deest

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"O meu pai morreu há já seis anos. Lembro-me de não ter acreditado, quando me telefonaram de Buenos Aires. Lembro-me de apanhar o avião como quem parte para uma viagem de negócios. Lembro-me de apanhar uma valente bebedeira com dois ou três Mogadans que tomara na esperança inocente de dormir. Lembro-me do francês sentado ao meu lado que me falou da sua mulher brasileira - o avião fazia escala no Rio - e que para fazer conversa me perguntou se eu ia à Argentina em visita, em trabalho ou fazer o quê, e de lhe responder com uma calma assustadora: pas de tout, pas de tout, c'est a cause de mon pére qui vient de mourrir. Voulez vous un whisky? Espécie de cretino. Não ele, claro: eu e todos aqueles que não somos capazes de sentir com dignidade a nossa dor. Odeio o pranto como odeio as gargalhadas histéricas de alegria. Qualquer sentimento manifestado sem pudor soa-me a falso por mais sincero que possa ser. Expressar exactamente o que se sente, sem mais nem menos, se não é sabedoria, é pelo menos maturidade. Dito ou escrito assim parece óbvio, mas é tão difícil sermos o que sentimos mesmo quando sinceramente pensamos que o somos."

Carlos Quevedo, Já não me lembrava - os delírios da Kapa e outros textos, Lisboa, Oficina do Livro, 2006, p. 211.

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publicado às 09:38

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por Carla Hilário Quevedo, em 08.11.06
The sound of bomba: Que me quiten lo bailado, Julio Sosa.

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publicado às 01:02