Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



...

por Carla Hilário Quevedo, em 18.12.06
The sound of bomba: Se eu soubesse que tu vinhas, Simone.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:50

...

por Carla Hilário Quevedo, em 18.12.06
Se eu soubesse que tu vinhas...*

Entrámos naquela época do ano em que todos esperamos que nos dediquemos uns aos outros, que perdoemos as pequenas traições e, já agora, as grandes, e que nos esforcemos por compreender e tolerar coisas que, na Primavera ou sob o sol escaldante de Agosto, desprezaríamos sem pestanejar. Com o Natal chega uma vaga ideia da necessidade da partilha. Vaga porque há coisas mais importantes para fazer, como comprar, comprar e comprar. Substituímos a partilha pela troca, por uma espécie de intercâmbio rotineiro. No outro dia, quando percebi que ao meu lado, na livraria, estava um cavalheiro a comprar 15 exemplares do mesmo livro, pensei que havia qualquer coisa estranha neste neo-Natal. Não que seja errado oferecer o mesmo livro a 15 pessoas diferentes, mas lá que é estranho é. Quando cheguei a casa, percebi que o meu problema era outro: tinha ficado roída por não ter tido essa ideia genial. Mas ainda vou a tempo.

O encanto da partilha consiste simplesmente em dar qualquer coisa a alguém, talvez mesmo a muita gente e ao mesmo tempo, sem esperar nada em troca. Sempre que penso em "partilha" imagino uma aula, uma conferência, um almoço de família, uma conversa entre amigos. A partilha é colectiva e implica a presença de todas as pessoas envolvidas nesse acto de generosidade. Uma argentina residente em Portugal deu-me um bom exemplo de partilha. Ao conversarmos sobre o mate - uma infusão popular no Uruguai, no Paraguai, no Rio Grande do Sul e na Argentina -, a Paula explicou-me que não se trata de uma actividade solitária, como tomar uma chávena de chá a meio da tarde. O encanto do mate está na partilha: cada pessoa toma a infusão do mesmo recipiente e pela mesma bombilha. A água quente é acrescentada à medida que vai sendo necessária. Mesmo que não se goste da bebida, o ritual é interessante.

Outro hábito do Natal, que muitos fazem cada vez mais por esquecer, é a hospitalidade. Aparecer sem ser anunciado, bater à porta sem aviso prévio, é mal visto, mesmo no Natal. Não haverá aqui uma contradição flagrante? O espírito natalício está pela hora da morte! Em vez do habitual Jingle Bells, proponho que cantemos "Se eu soubesse que tu vinhas», como a brasileira Simone: "Ai, meu bem, se tu soubesses / Que a surpresa da presença / Me maltrata mais que a dor / Que eu sofri com a descrença". Aparecer de surpresa pode ser mais terrível do que permanecer desaparecido. Embora o tema de Martinho da Vila seja sobre a paixão, associo-o a uma distorção da ideia de filoxenia grega, ou de "amor pelo estrangeiro".

Quando na Odisseia, Atena disfarçada de rei Mentes entra no palácio de Ulisses, ninguém questiona se o estrangeiro há-de ser recebido de braços abertos ou com um sorriso amarelo acompanhado de um "volte mais tarde". Penélope sofre com a presença dos pretendentes no palácio, mas não os expulsa. Um caso de hospitalidade aguda? Gostaria de pensar que sim, mas a explicação é mais prosaica: Penélope era uma mulher frágil, o marido estava ausente e naquele tempo não havia espingardas. A pergunta "o que está aqui a fazer?" não é feita ao filho de Ulisses, Telémaco, quando aparece acompanhado por Atena, de novo disfarçada, na corte do rei Nestor. Ambos são convidados a sentar-se, a comer e a beber. Só depois o rei se dirige aos estrangeiros e lhes pergunta quem são.

Do amor ao estrangeiro (filoxenia) passámos ao ódio ao estrangeiro (xenofobia). A partilha está presente no primeiro conceito e ausente no segundo. Os gregos inventaram os opostos e o mundo civilizado fechou-se em casa a ver televisão.

* Texto publicado a 10-12-05, na Única.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:44