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por Carla Hilário Quevedo, em 30.01.07
A reconciliação

Escrevi o texto publicado em baixo também depois de ter visto o documentário I'm Going To Tell You A Secret, que contém imagens do concerto em Lisboa, a que assisti. Já na altura, tinha tido um desgosto a assistir ao vivo à exposição da costela leftard de Madonna. Mas no documentário há uma cena que me traumatizou: Michael Moore a assistir a um concerto e a cantora a agradecer publicamente a sua presença. Vamos lá a ver, uma coisa é cantar "hanky panky / nothing like a good spanky", outra completamente diferente é ser íntima da extrema-esquerda! Mas fã que é fã aguenta tudo, faz um grandessíssimo denial do que não gosta e saboreia todo o resto. Na altura, não fui capaz de negar, mas não publiquei o texto no blogue. Agora percebo que me queria reconciliar logo a seguir. É isso que agora quero fazer.

O DVD de Confessions é muitíssimo bom. O concerto não deixa de ter a xaropada da propaganda anti-Bush e a imbecilidade de sobrepôr imagens de Ratzinger com as de membros do Ku Klux Klan (ai, uma recaída na reconciliação!), mas tem outras coisas e quase todas magníficas, como por exemplo, uma mistura brilhante de Music com Disco Inferno e Where's The Party:



logo seguida de Erotic (aquele fatinho colado branco podia dar tão mau resultado, ainda por cima com sapatos):



E é verdade que "You are who you are / and I wouldn't want to change a thing". Já não me custa.

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publicado às 16:24

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por Carla Hilário Quevedo, em 30.01.07
A barriga de Madonna

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Numa visita ao madonnalicious, vi uma fotografia de Madonna que me impressionou: vestida com um maillot lilás muito suado, a cantora, de perfil, exibia uma barriga saliente. Apesar da extraordinária forma física de sempre, magra, musculada e firme, a barriga lá estava. Fiz refresh na página. Podia ser um problema de má configuração ou no carregamento das imagens, quem sabe se no próprio computador. Mas não, era mesmo assim: a barriga lá estava, repito.

Recostei-me na cadeira, baixei a cabeça como uma criança e incapaz de quaisquer esforços no sentido de impedir que a frase "a Madonna tem barriga" saísse da minha boca, senti um desalento próprio de quem espera sempre a mais absoluta perfeição daqueles que ama. Amar Madonna pode ser uma ideia um pouco vaga, pouco credível, no mínimo estranha; mas o amor é irracional, sobretudo aquele que sentimos por quem não conhecemos. Não falo de um amor físico nem de um amor amoroso, nem sequer de um amor amiguinho. Falo, sim, de um amor admirado, sempre pasmado, surpreendido. Falo por mim, claro, mas não seria despropositado (não excessivamente, pelo menos) afirmar que as mulheres da minha geração - mesmo aquelas que nunca se interessaram por Madonna - lhe devem alguma coisa: desde as madeixas louras ou os corpetes de renda e cetim, em casos de grau quase zero de influência, à atitude de desafio permanente, associada à disciplina e à concentração, nos casos de influência aguda.

Mas um amor admirado não é totalmente irracional. Madonna é admirável por muitas razões, que não passam necessariamente pela riqueza acumulada ao longo dos anos. Refiro-me ao enriquecimento financeiro porque se trata de uma característica que a maioria sobrevaloriza, retirando-lhe assim o mérito que, neste caso (como noutros idênticos), de facto tem.

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Nem sempre a solidão na infância e na adolescência produzem maus resultados. Madonna era uma rapariga simples, órfã de mãe, que cresceu num lar atribulado, com muitos irmãos e um pai distante. É ainda sobejamente conhecida a história da chegada de Madonna a Nova Iorque, nos finais dos anos 70, com um punhado de dólares no bolso e os primeiros tempos passados na miséria num apartamento degradado da cidade. Madonna representa o sonho americano, aquele que é para os ultrapassados padrões europeus, uma espécie de pesadelo: a possibilidade de "vencer na vida" num espaço democrático e livre e, como tal, selvaticamente competitivo, em que o talento, o mérito e o trabalho são recompensados. Nem sempre acontecerá assim, mas as possibilidades são muitas. Também não podemos esquecer o elemento do acaso, que pode ter surgido no início da carreira de Madonna. Mas vinte anos de carreira não são apenas obra da sorte.

Em Bedtime Stories, co-produzido por Babyface, com uma sonoridade muito soul, no tema Survival, Madonna explica um modo de vida pouco preocupado com a virtude: "I'll never be an angel / I'll never be a saint, it's true / I'm too busy surviving". O instinto apuradíssimo (diria sofisticado, embora entre parêntesis) de sobrevivência é uma das características mais interessantes da sua ascensão e da manutenção da sua carreira. Sem esse ânimo - que é declaradamente sexual e por isso muito incómodo - a sua capacidade de reinvenção (termo que começou a utilizar pouco depois do nascimento da filha, Lourdes, e que é mencionado pela primeira vez na Drowned World Tour) seria muito mais diminuta (arrisco esta espécie de previsão retroactiva). Mas não é apenas de ânimo que vivem as grandes estrelas, sobretudo aquelas com um poder de influência tão vasto e intenso como Madonna. A energia de Madonna é controlada, disciplinada, concentrada e, por isso mesmo, poderosa e voraz. Noutro álbum menos interessante, Erotica, de 1992, no tema de abertura com o mesmo nome, Madonna cantava: "I'll give you love / I'll hit you like a truck", mas o livro Sex, que o CD acompanhava, revelou-se incomparavelmente mais atraente do que qualquer tema do álbum, com textos explícitos sobre sexo, fotografias sem roupa, dentro de água, muito acompanhada e em locais de reputação duvidosa. Embora o escândalo seja uma forma garantida de aumentar a conta bancária, se o seu interesse fosse apenas o de ganhar dinheiro (algo que é legítimo), Madonna há muito que teria desaparecido de cena. Tal não aconteceu.

Um ano antes da publicação de Sex, Madonna gravou um documentário intitulado In Bed with Madonna, com imagens da Blond Ambition Tour e dos seus bastidores, em vários países. A importância do documentário é reafirmada na comparação inevitável com o fraquíssimo I'm Going To Tell You A Secret. Madonna demorou dois anos a lançar o DVD no mercado, o que me leva (talvez inocentemente) a acreditar que talvez não estivesse satisfeita com o resultado.

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Entre In Bed with Madonna e I'm Going To Tell You A Secret passaram quase 15 anos. Madonna agora parece ter barriga. A barriga, apesar de natural, pode ser tornada uma metáfora de uma imposição desesperada (embora muito séria) dos limites. Madonna entretanto cresceu, casou, tem dois filhos. Tendo em conta o seu passado, a teoria da criação dos limites, mais uma vez para sobreviver e se adaptar à sua nova condição, não é de menosprezar. Os limites que impôs a si mesma (demasiado extremados) são a sua barriga mental: a aproximação infantil à religião, mais concretamente a uma espécie de misticismo fanático, muito próprio das seitas, mas à moda da Califórnia (a Kabbalah é algo muito complexo, que não se resume a usar uma fitinha encarnada no pulso, nem a visitar o túmulo de Raquel); passando pela visão propagandística de Michael Moore contra Bush e a intervenção dos E.U.A. no Iraque; e pelo anúncio superficial e algo culpado de desejo de paz no mundo, paupérrimo porque vazio e demagógico. Como pode uma fã incondicional reagir perante tamanha desgraça? Como sempre: amando. Ou seja, compreendendo, aceitando e, sobretudo, perdoando.

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publicado às 10:14