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por Carla Hilário Quevedo, em 22.03.07
Dos Antigos

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Jupiter & Juno on Mount Ida, James Barry, 1773, City Art Galleries, Sheffield, England

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publicado às 20:49

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por Carla Hilário Quevedo, em 22.03.07
Bebido o copo de água: gostaria de começar por esclarecer que não defendo a punição retroactiva ou geracional. Mas só porque tal raciocínio (fruto de leituras impressionáveis, como eu escrevi, desejando que o estimado Combustões não me levasse a sério nesse ponto) seria uma contradição à máxima bastante do meu agrado: olho por olho, dente por dente. Julgo que a expressão, hoje em dia, se encontra sobrevalorizada. Não se trata de matar tudo o que está à volta (e depois) de quem matou, mas simplesmente de fazer justiça. E a justiça, muitas vezes, não tem nada que ver com o perdão. Há crimes que são simplesmente imperdoáveis, não podem ser esquecidos e devem ser estudados e debatidos com a máxima frequência possível. Uma vez, há uns anos, num almoço com árabes considerados moderados (meto-me em cada disparate) ouvi a seguinte frase: "Mas fazer um Museu do Holocausto para quê? Isso só impressiona as pessoas e sabe-se lá se morreu tanta gente". As minhas capacidades como diplomata foram testadas e devo dizer, com orgulho, que chumbei.

Mas vamos ao Assunto. Quando diz: "julgo que, no que concerne ao extermínio dos judeus, se fez o que se impunha: condenar os criminosos, enforcá-los ou aplicar-lhes pesadas penas de cárcere, indemnizar os sobreviventes, restituir-lhes os bens saqueados e danar a ideologia que propiciara tal monstruoso crime", gostaria de chamar a sua atenção para um aspecto que considero importante. Nem todos os criminosos de guerra foram punidos como deviam ter sido. Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém escreve o seguinte (passo a traduzir): "(...) o doutor Otto Bradfisch, dos Einsatzgruppen, as unidades móveis dos carrascos das SS, foi condenado a dez anos de trabalhos forçados por ter morto 15 mil judeus; o doutor Otto Hunsche, assessor jurídico de Eichmann, e responsável directo pela deportação, decretada nos últimos momentos da guerra, de cerca de 1200 judeus húngaros, dos quais quase 600 foram assassinados, foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados e Joseph Lechthaler, que tinha liquidado os habitantes judeus de Slutsk e Smolevichi, na Rússia, foi condenado a três anos e seis meses." E continua: "(...) Wilhelm Koppe, que organizou as matanças nas câmaras de gás, em Chelmo, e que, depois, sucedeu a Friederich-Wilhelm Krüger, na Polónia; Koppe, um dos mais destacados altos chefes das SS, organizador dos judenrein na Polónia, ocupava, na Alemanha do pós-guerra, o cargo de director de uma fábrica de chocolates." Hannah Arendt conta neste livro assombroso como os alemães se recusaram a denunciar os oficiais nazis depois da guerra, por serem pessoas "com as quais se relacionavam". E continua, e continua.

Quanto à imagem, não tenho nada a dizer. Sempre discordei do embelezamento de imagens de sofrimento. Considero-as amorais. Ver, por exemplo, uma fotografia do Ground Zero muito estilizada dá-me náuseas. O estimado Combustões diz: "Ao olhá-los, apavora-me a falta de humanidade, decência e dignidade de quem os matou. Mas quem o fez não foram apenas os nazis." Discordo da sua conclusão, como já disse. Embora não haja diferenças de níveis entre genocídios, é verdade que há um problema de expectativa em relação a um povo europeu civilizado, no século XX, que produziu génios da música e da filosofia. O que me leva a tentar (muito timidamente) responder a clássica pergunta: como foi possível que num país de tamanha cultura se cometessem há apenas 60 anos semelhantes actos de barbárie? A cultura (entenda-se, o conhecimento, o saber) não é suficiente.

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publicado às 18:19

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por Carla Hilário Quevedo, em 22.03.07
Estimado Combustões, boa tarde: desculpe a ausência de resposta, mas há 72 horas seguidas que estou em trabalho de exploração mineira. Curiosa a expressão inglesa to be in labour. Dá uma bela tradução selvagem! Voltemos então ao Assunto, mas deixe-me só ir ali beber um copo de água. Venho já.

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publicado às 16:45