Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



...

por Carla Hilário Quevedo, em 22.05.07
A punição à distância

Hoje em dia, para muitos, a frase «a inveja é um pecado mortal» não tem nenhum significado e isso por um motivo, no meu entender, essencial: banalizámos a inveja ao associá-la a situações triviais do quotidiano e retirámos-lhe a gravidade que tem. Tantas vezes ouvimos que querer ter um par de sapatos igual ao da vizinha era um sinal de inveja, que acabámos por aceitar a frivolidade como uma espécie de substituição do conhecimento de séculos; muito resumidamente, a inveja destrói a vida das pessoas.

De todos pecados mortais, a inveja talvez seja o mais complexo porque embora não seja completamente independente da existência do objecto invejado, depende sobretudo do sujeito invejoso. Ou seja, o invejoso ao mesmo tempo precisa e não precisa do outro para viver no seu processo auto-destrutivo, mas cujas intenções profundas consistem na eliminação do outro, do invejado (sempre que este é de carne e osso, o que nem sempre acontece). O invejoso vive todos os momentos da sua amargurada vida a olhar para o lado mesmo que ao lado nada encontre. O que não está lá é sempre preenchido por imagens de nunca admitida comparação consigo próprio. O discurso da inveja vive de paralelos recorrentes e inclui ataques à credibilidade do invejado, ao modo de vida do invejado, às escolhas do invejado, a tudo e mais alguma coisa do invejado. O invejoso nunca confessa que acredita que é muitíssimo melhor do que o outro; que só não está naquela posição porque não está disposto a fazer tudo o que afirma a pés juntos que o outro tem de ter feito para ali chegar e - o mais importante - que, mais do que tomar o seu lugar, pretende a sua aniquilação. As palavras podem parecer excessivas para os que se habituaram a interpretar a inveja como um pormenor ou um defeito de carácter, uma questão que se resume a uma vontade de ter um par de sapatos igual ao da vizinha. Para outros, estarei a ser demasiado branda.

Somos muitas vezes confrontados com comentários do horripilante estilo: «Z é muito mais inteligente que A, mas, coitado, como não tem os amigos certos, ninguém o convida para escrever nos jornais» ou «se B não fosse filha de quem é não tinha conseguido subir na carreira tão depressa» ou ainda «se X não fosse um homem bonito, os erros que comete não lhe seriam perdoados». A estrutura conspirativa e paranóica, comum no discurso do invejoso, tem como objectivo descredibilizar o outro, o qual, para o invejoso, não pode ser simplesmente original, alegre, ter talento, ser trabalhador, nem pensar pela sua própria cabeça. Assim, para o invejoso, a ilusão da proximidade é muitíssimo importante. Mesmo que nunca chegue sequer a ver o seu alvo, o invejoso precisa de acreditar que aquela pessoa está ali ao lado, pertence ao seu círculo, ao seu meio e que é, na verdade, como ele. Para a comparação ser possível, precisa de se convencer de que está ao mesmo nível do outro, sendo paradoxalmente uma vítima das circunstâncias, das possibilidades, das oportunidades, da família, dos amigos, do cão, do gato e do periquito. O invejoso nivela sempre - naturalmente por baixo, pois nivelar é isso mesmo - de forma a manter a ilusão de proximidade e o consequente discurso comparativo, baseado em eternas justificações.

Henry Fairlie, em The Seven Deadly Sins Today, resume numa frase o problema principal da inveja na modernidade: «A noção de que somos todos iguais foi corrompida pela noção de que somos todos idênticos» (p. 63). A vida em liberdade e democracia tem destas coisas desagradáveis: aumenta o número de invejosos. A existência da distinção, da excelência, da bondade no mundo tão livre quanto tantas vezes medíocre, é encarada com desconfiança, mas também com grande sofrimento. O invejoso sofre constantemente; sofre por tudo e por nada; sofre sempre que alguém (seja quem for) faz aquilo que reclama ser um qualquer estranho direito seu. Mas nesse momento é punido: o seu maior sofrimento é em si mesmo a sua maior punição. Quando o invejoso é obsessivo, a punição é tremenda: o tempo passa e o invejoso passa a ter um lugar cativo como eterno espectador da vida alheia. Todos os dias, o invejoso é forçado a lembrar-se da sua própria mediocridade. Na sua comparação diária é inevitavelmente confrontado com o seu medíocre fracasso: aquele que não implica sequer uma tentativa. É por isso muito importante que o invejado nunca perca um segundo da sua vida com o invejoso (nos casos em que tal seria possível), sob pena de quebrar um procedimento útil: o da punição à distância.

E o que tem isto a ver com a blogosfera lusitana? Tudo.

Texto publicado na Atlântico de Setembro de 2006.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:23

...

por Carla Hilário Quevedo, em 22.05.07
Bom dia, estimado Réprobo: as coisas a que me refiro aqui e que podem melhorar algumas vidas não são os pecados mortais - nenhum deles, nem mesmo a ira que acredito possa ter por vezes alguns resultados menos maus, podem melhorar seja o que for - mas os livrinhos sobre os mesmos. Sobre a inveja tenho uma opinião que não é negociável. Já escrevi sobre o assunto, e vou pespegar aqui o texto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:45

...

por Carla Hilário Quevedo, em 22.05.07
Ninho de cucos (89)

The Daily Kitten.

Obrigada, Fernanda!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:33