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por Carla Hilário Quevedo, em 05.06.07
Caracóis, sandálias e traições (4)



Este foi o melhor episódio desta segunda temporada. Foi também o mais violento. A sorte das Átias deste mundo é poderem sempre contar com os dedinhos gulosos das criadas, bem como com a benevolência dos argumentistas e da própria História. A hora de Átia ainda não chegou. E my dearest Rui, pois tu próprio já disseste e muito bem porque é que este episódio foi até agora o melhor. O facto de teres apresentado argumentos contra esta ideia é apenas um pormenor. Olha:
1) num breve estudo comparativo entre Átia e Servília, a conclusão a que chego após os episódios finais da primeira temporada, uma tentativa de envenenamento e uma sessão de tortura é a seguinte: Átia é muito mais má do que Servília. Em português soa mal, mas é mesmo assim. Servília quer matar Átia. Terá as suas razões. É discutível, pode dizer-se "olhe, não faça isso". Mas Átia está muito interessada no sofrimento de Servília. A sua morte será apenas uma consequência natural do longo caminho de tortura e humilhação por que passará. E quando sabemos isto? Neste episódio.
2) Tito Pulo e Lúcio Voreno recuperam a amizade e juntos partem para o campo de escravos onde estão os filhos, bastardo incluído. Os dois amigos unem-se e Voreno abandona as tropas de Marco António. E quando sabemos isto? Neste episódio.
3) Timão revolta-se contra Átia. E quando percebemos isto? Neste episódio.
4) Octávio César decide regressar a Roma com o seu exército. E quando sabemos isto? Antes de responder, deixa-me dizer-te, meu querido Rui, que já sabemos a resposta à tua pergunta. A solução para credibilizar Octávio na série é mudar de actor. O outro parecia uma criança, não dava para vitórias triunfais. Ah, e neste episódio.
5) Marco Agripa declara a sua paixão por Octávia, que por esta altura já devia ser uma mulher casada e mãe de três filhos. E quando sabemos isto? Neste episódio.
6) A cena mais violenta até agora passa-se neste episódio. A morte do escravo às mãos de Timão num beco escuro e sujo. "Don't kill me. I'm only sixteen." Repito que foi neste episódio.
O Daniel Cerqueira era o Mémio, como bem indica a Ana Cláudia. Quanto à relação entre a flacidez de Átia e a sua decadência moral, pois estou certa de que diria o mesmo se tivesse emagrecido. Qualquer alteração física tem um significado naquela personagem.

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publicado às 07:55

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por Carla Hilário Quevedo, em 05.06.07
Um amor demasiado caro

Todos os anos vou à Feira do Livro na esperança de comprar a metade do preço um manual técnico um bocado caro nos restantes dias do ano. No ano passado, visitei a Feira do Livro todos os dias e todos os dias rondava a barraquinha, sorrindo para o livro sempre em exposição. Em nenhum momento o dito livro passou para aquele sítio ao meio tão desejado, o daquele num expositor com um desconto fenomenal - mínimo de quarenta por cento - que transformam a aquisição numa espécie de vitória do comprador sobre a tirania do livreiro, do próprio editor e mesmo do desgraçado do autor que é quem menos ganha no meio disto tudo. Mas será verdadeiro um amor que tem de ver o seu preço muito reduzido para ser conquistado? Garanto que mais genuíno, puro, sincero e amor não pode ser. Todos os anos faço tentativas de aproximação, pego no livro com delicadeza sempre que o vejo e acaricio a capa azulinha e brilhante. Quanto vezes não dissemos já na vida: «Eu quero, mas não posso»? Pois a questão não é bem essa: eu quero e até podia, mas agora decidi ser um ponto de honra não gastar mais do que um determinado valor na extraordinária obra em questão. Mantenho a esperança. Talvez este ano seja finalmente livro do dia e viveremos felizes para sempre.

Publicado na Tabu (Cinco Sentidos), 2-06-07.

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publicado às 07:46