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por Carla Hilário Quevedo, em 24.07.07
Para o FNV

"Arina Vlassievna era uma verdadeira aristocrata russa dos tempos antigos; ela devia ter vivido duzentos anos antes, nos tempos da antiga Moscovo. Era muito devota e muito sensível, acreditava em toda a espécie de crendices, adivinhações, magias, sonhos; acreditava em videntes, duendes, silvanos, encontros azarentos, nas mezinhas populares, no fim do mundo próximo. Acreditava que se na Páscoa da ressurreição não se apagassem as luzes toda a noite, o trigo sarraceno cresceria bem, e que o cogumelo não cresceria se fosse visto por olho humano; acreditava que o diabo gostava de lugares onde há água, e que cada judeu tinha no peito uma mancha de sangue. Tinha medo dos ratos, das cobras, das rãs, dos pardais, das sanguessugas, dos trovões, da água fria, das correntes de ar, dos cavalos, dos bodes, das pessoas de cabelo ruivo e dos gatos pretos, e considerava os grilos e os animais impuros; não comia carne de vaca, nem pombos, nem caranguejos, nem queijo, nem espargos, nem topinambos, nem lebre, nem melancias porque a melancia cortada lhe fazia lembrar a cabeça de João Baptista; só falava de ostras com um arrepio de nojo; gostava de comer e jejuava rigorosamente; dormia dez horas por dia, e não se deitava se Vassili Ivánovitch tivesse dores de cabeça; não lia nenhum livro além de Aleksia, ou a Vida na Floresta; escrevia uma ou duas cartas por ano; mas sabia governar a casa, fazer passas e doces, embora não tocasse em nada com as suas mãos e em geral não gostava de sair do seu canto. Arina Vlassievna era muito bondosa e, à sua maneira, não era nada tola. Sabia que havia no mundo senhores que deviam mandar e o povo simples que devia servir - e por isso não lhe repugnava nem o servilismo, nem as reverências; mas tratava os que lhe estavam subordinados com ternura e docilidade, não despedia um único pobre sem esmola e nunca censurava ninguém, embora por vezes se entregasse à bisbilhotice. na juventude fora muito bonita, tocava clavicórdio e falava um pouco francês; mas ao longo dos muitos anos de deslocações com o marido, com o qual se casou contra vontade, engordou e esqueceu a música e o francês. Amava o filho e temia-o extraordinariamente; entregara a Vassili Ivánovitch a administração da propriedade - e não se metia em nada: sempre que o seu velho começava a falar de futuras reformas e dos seus planos, ela soltava ais e abanava-se com o lenço e, assustada, levantava as sobrancelhas cada vez mais alto. Era dada a cismas, esperava constantemente alguma grande desgraça e começava a chorar assim que se lembrava de alguma coisa triste... As mulheres assim já estão a desaparecer. Sabe Deus se nos devemos alegrar com isso!"

Ivan Turguéniev, Pais e Filhos, tradução de António Pescada, Lisboa, Relógio d'Água, 2007, pp. 132-133.

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publicado às 19:46

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por Carla Hilário Quevedo, em 24.07.07
Pretty Things*



Pretty things, so what if I like pretty things?
Pretty lies, so what if I like pretty lies?
From where you are
To where I am now
I need these pretty things

Around the planets of my face
Everything's a sign of my astrology
From where you are
To where I am now
Is it's own galaxy

Be a star and fall down somewhere next to me
And make it past your color TV
This time will pass and with it will me
And all these pretty things
Don't say you don't notice them

Rufus Wainwright

* Para o JMF desta criatura viciadíssima em Rufus Wainwright. As coincidências existem, e esta é uma daquelas felizes. No entanto, deixo aqui um breve amuo por não ter visitado o bomba durante quase seis dias. Com coisas sérias não se brinca! Humpf!

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publicado às 08:09