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por Carla Hilário Quevedo, em 07.09.07
Gostar de homens©

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publicado às 23:29

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por Carla Hilário Quevedo, em 07.09.07
Mais contributos para a discussão do momento

Da Fátima Rolo Duarte: "James Joyce é um dos bodes expiatórios, tal como o foi na altura em que apareceu e o liam e torciam o nariz. Como tantos outros, como Michaux aqui e ainda hoje aqui, não é eterna a raiva? Qual raiva, antes fosse, chama-se-lhe já estupidez, parolice, chamam-se-lhe nomes, disparam palavrões ou um silêncio de pesar. Joyce não chega a ser genial porque representa o fim da literatura, o máximo. A genialidade é feita de aproximações, de qualquer coisa imperfeita que fica por dizer e fazer, Joyce é Shakespeare doutra forma e ambos perfeitos. Não há labrego, pois, que não abra um livro de Joyce e não abra a boca de espanto e isto pela vida das palavras que se reorganizam e comem à mão de Joyce; não há alvar que não se comova, mesmo no pior dos sentidos. Detestando-o, por exemplo. É tudo possível, até escrever que a leitura de Joyce ou Proust não muda a vida de quem quer que seja. Claro que não. Quem tem fome quer lá saber de livros. Quem tem sede quer água."

Do Jansenista: "Tantas vezes me disseram, na juventude, que tinha talento literário, que me convenci de que um dia essa obra literária da minha autoria haveria de aparecer, quase como uma inevitabilidade. Depois de ler Proust percebi que não, que essa minha obra literária ficaria definitivamente por escrever, e com toda a justiça, e que eu seria muito mais feliz superando, através de palavras alheias – fazendo-as falar por mim –, essa ingénua pretensão juvenil. Isso, julgo, é «modificar a vida» no sentido mais poderoso que pode associar-se ao efeito de uma leitura."

Do Luís Mourão: "- (...) Moby dick não mudou a minha vida, aliás ficou a meio, verdade seja dita, mas sei exactamente porque é que isso aconteceu.
- Conta lá, sem ser pessoal... Ou mesmo que seja...
- A questão é que apanhei com Apocalipse now pelo meio, e no dia seguinte devorei o Conrad de O coração das trevas.
- Estou a ver, compreende-se.
- Moby dick foi a obra errada no momento errado. Mas percebo muito bem que possa mudar uma vida, e só não mudou a minha porque ela já se tinha mudado para o lugar para onde ela me ia mudar.
- Quer dizer, recomendas ainda?
- Sempre. E se os livros remetem todos uns para os outros, a minha Moby dick foi O coração das trevas/Apocalipse now."

Do Nuno Miguel Guedes: "(...) por experiência própria nenhum livro maior ou menor (ou outra expressão artística, incluindo formas tão perfeitas e imediatas como as canções) me mudou a vida. Apenas a tornou mais suportável pelo prazer que me deu - um prazer egoísta, solitário e não transmissível, como todos os seguidores de Harold Bloom hão-de entender. E de repente, não estou a ver ninguém a quem uma leitura tenha provocado um terramoto no quotidiano, exceptuando místicos e homens-bomba."

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publicado às 08:45

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por Carla Hilário Quevedo, em 07.09.07
Cartas-bomba

Recebi mais uma mensagem de Abel Barros Baptista, que passo a publicar e que agradeço, muito obrigada.

«Reli agora a minha mensagem que gentilmente albergou no seu blogue. Parece-me que enferma do mesmo defeito da pendência que tem ocupado algumas pessoas bloguistas: não fazer distinções. É que uma coisa é debater se os livros podem ou não mudar a vida das pessoas (o Luís Mourão lembra bem o Quixote e a Madame Bovary, livros sobre o efeito dos livros nas pessoas). Outra coisa é discutir se alguém pode saber sem risco de engano que este ou aquele livro não lhe mudou a vida. E outra coisa ainda é a relevância de cada um declarar quais e quantos não lhe mudaram a vida. Os blogues têm isto de perverso, que é sugerirem que este último problema está resolvido por inerência: dir-se-ia que a própria existência do blogue legitima e torna relevante essa ou outra informação. A verdade é que, pelo mesmo motivo, o assunto não admite discussão. E tem toda a razão o Eduardo Pitta quando se defende assim: "não mudaram, ponto". Ele diz, ele deve saber, e nós podemos acreditar, ponto! Mas apenas acreditamos porque o assunto nos é, a todos e por definição, rigorosamente indiferente, ponto. Não vem dali nenhum mal ao mundo, nem aos livros mencionados, nem sequer ao mesmo Eduardo Pitta. Dissesse ele quais os dez automóveis que não lhe mudaram a vida, e seria o mesmo. A única maneira de tornar a conversa aceitável, digamos assim, seria propor a quem nos dissesse que certo livro não lhe mudou a vida: "Bom, vamos lá então saber que vida tem sido a sua…"»

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publicado às 08:36