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por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.07
Verdade, mentira, certeza, incerteza...
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho.
Verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade - os meus joelhos e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.

Alberto Caeiro

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publicado às 21:25

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por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.07
Mutatis mutandis

Assim como não tenho maneira de saber o que não mudou na minha vida, também não tenho muitas hipóteses de saber o que não me aconteceu (com excepções óbvias, comuns a quase todos); a não ser que pense nessas coisas que não me aconteceram como sendo naturalmente opostas às que me aconteceram. Por exemplo, tive sarampo por oposição a não tive sarampo, tendo o primeiro facto acontecido (já na idade adulta, obrigando-me a ficar semanas de cama) e o segundo não. Quanto ao que mudou na minha vida, posso reconhecer alguns aspectos práticos e outros ditos menos práticos - ex. mudei de casa ou tornei-me menos intolerante - mas o que não mudou, isso, eu não posso mesmo saber. (Introduzi o elemento "acontecer", porque me parece importante perceber que para mudar, é necessário que aconteça alguma coisa. Nem que seja só na nossa cabeça e nunca partilhemos essa informação com ninguém.)

Admito que a corrente dos dez livros que não mudaram a vida não me interessou tanto quanto as reacções que provocou. Quando as elites apresentam listas de obras literárias que não mudaram as suas vidas, sem hesitar, sem nada questionar, é inevitável que pensemos que alguma coisa não está bem. Dando o ar da sua graça, incluindo nas ditas listas algumas das maiores obras da literatura mundial, prestaram um péssimo serviço, esquecendo no que consiste afinal o seu dia-a-dia. Eu não ia querer que um professor meu anunciasse que Proust não mudou a vida dele; nunca o respeitaria. Mas isso é comigo. E só mais uma coisa: enxovalhar os mortos é muito fácil. Pena que não tenham mencionado nenhuma obra de nenhum escritor português vivo. Pode ser que para a próxima corrente.

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publicado às 19:40

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por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.07
Podia agora contar uma história: sobre um livro que mudou a minha vida, não apenas a minha maneira de pensar sobre a literatura como o meu quotidiano. Este livro, que me foi oferecido em 1994 e me acompanhou até 2004, trouxe-me alegrias, desânimo, ansiedade, e, por fim, um certo orgulho. Não o escrevi, nada disso, mas dediquei-me a compreendê-lo, lendo outros livros que com ele de alguma forma se relacionavam, ainda que muitas vezes nem sequer muito obviamente. É certo que o li numa altura crucial, num estado de paixão, e isso teve o seu peso. Mas dizia, então, que podia agora contar uma história sobre o livro que mudou a minha vida. Já contei. O que não poderia fazer seria contar o que não mudou na minha vida durante esse mesmo tempo, por exemplo. Não tenho como verificar essa não mudança. Talvez porque não existe tal coisa como não mudar.

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publicado às 19:39