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por Carla Hilário Quevedo, em 13.11.07
Elogio da doçura

Raramente ouço dizer de alguém que é doce e no entanto maior elogio não há. Uma forma de verificarmos a verdade desta afirmação é observarmos como são desagradáveis as características que se lhe opõem, como a aspereza no trato, a rudeza de maneiras, a timidez (insistimos em achar graça ao que não passa de um defeito de educação), o mau feitio (para o qual, francamente, não há pachorra). Uma pessoa doce é o melhor que pode haver porque é conciliadora sem precisar de ser injusta nem traidora, tudo porque é profundamente pacífica, solidamente pacífica. Ao contrário do que se pensa (é verdade que se pensa, não adianta negar) uma pessoa doce não paira, pelo contrário. A doçura permite-lhe compreender bem o sofrimento alheio, pois esta é acima de tudo um modo de relacionamento com os outros. Como tal, é um traço de carácter que deve ser incutido nas crianças e incentivado nos adultos. Muitas vezes pessoas doces passam erradamente por tolas, distraídas ou infelizes para todos aqueles incapazes de reconhecer certa luminosidade fugaz que nos une. Ao contrário da desconfiança, por exemplo, que não pode sustentar nenhum tipo de relação saudável, a doçura une as pessoas de uma forma permanente, muito mais do que a tristeza ou o ódio. O problema é mesmo haver cada vez menos doçura no planeta.

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 10-11-07.

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publicado às 16:44