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A propósito do debate de hoje

por Carla Hilário Quevedo, em 06.03.08

De vez em quando aparecem nos blogues lusos umas lamúrias escritas aqui e além: a blogosfera dantes é que era boa; havia muita polémica; agora ninguém linca ninguém; os mais antigos calaram-se; não há discussão e nem sequer conversa; e mesmo os blogues que aparecem de novo lincam pouco. Resumindo, para muitos a brincadeira terá perdido a graça. Resta tentar perceber para quem, porquê e o que se passou entretanto.

 

A blogosfera portuguesa caminha este ano para o seu quinto ano de existência. Cinco anos é muito tempo, não é? Sobretudo a um ritmo diário de publicação, como é o caso dos vários blogues amenos que persistem num espaço intrinsecamente briguento e hostil. Será uma contradição que criaturas sobretudo pacíficas sobrevivam num meio que intimida o pior dos rufias? Talvez para aqueles que interpretam a tranquilidade como um sinal de cobardia (bem como a acidez e a má-criação como manifestações de verdade e sinceridade). A prova de que o conflito reles e insultuoso (ou «polémica» como muitos se apressam a classificar) não compensa está à vista dos que têm capacidade de observação e memória. Os blogues truculentos não têm uma vida longa, e é natural que assim seja. A ira desgasta e por muito que suscitem curiosidade, ao fim de um tempo (curto, visto que na blogosfera tudo é passado com uma ideia ilusória de presente) afasta mesmo a mais irada das criaturas, porque acaba por haver sempre mais que fazer. Mesmo os leitores mais zangados não o são sempre e precisam de sossego. Já para não falar de que este género de blogueadores nunca funciona em conjunto. Há sempre um mais encolerizado que é sacrificado no auge da fama. O espectáculo não é bonito mas é natural. A exposição da ira tem um preço alto na blogosfera. Ninguém no seu perfeito juízo atura gente que se dedica a chatear o próximo. Quem optar por fazê-lo adoece rapidamente.

 

O fenómeno de haver menos linques em posts está relacionado com o desgaste de brigas às cegas e ainda com a existência cada vez mais evidente de grupos fechados que não admitem novos membros. Assim como no recreio da escola o grupo dos giros não fala com o grupo dos totós e dos feios, que por sua vez não fala um com o outro, também na blogosfera existe esta tendência. Sempre que um dos feios passa para o grupo dos giros, o grupo despeitado nunca mais o linca. Só aqui temos uma série de linques que ficam por fazer! Virá por isso algum mal ao mundo blogosférico? Nunca saberemos. Com certeza há muitos mais motivos para não exercer o nobre ofício da lincagem. É preciso voltar a lembrar que cinco anos é muito tempo. Dá para nos conhecermos, para nos tornarmos amigos e para não nos suportarmos uns aos outros. Ainda por cima temos de lincar? E talvez por causa de um assunto que podemos perfeitamente discutir à mesa? A intimidade deu cabo de muitos linques, isto para contrariar os que resumem a blogosfera a amiguismos e coisas do género. Não, nada disso. Lincar um amigo para quê? Aos cinco anos de blogo-idade nada disso faz sentido (se é que alguma vez fez). E também há pessoas que lincam menos porque deixaram de ter o tempo que tinham quando eram novas. Lá por ser uma razão evidente, não significa que deva ser esquecida.

 

Ora menos linques leva a menos conversa e a um maior grau de autismo, que pode não ser desinteressante. Depende dos casos. Penso que é precisamente neste ponto que as águas blogueiras divergem. Os blogues mais autistas ainda activos «after all these years» precisam de ter opinião. É isso: sobrevivem os que pensam por si próprios e que têm capacidade de opinar a respeito de assuntos que lhes interessa, não sendo horrorosamente intimistas. Embora sejam autistas porque lincam menos (ou pouco) não são necessariamente narcísicos. Exemplos da minha tese são os blogues A Causa Foi Modificada, Mar Salgado e Portugal dos Pequeninos, bem como três blogues mais recentes: O Jansenista, Vida Breve e Meditação na Pastelaria. São blogues que falam bem sozinhos, e para isso é preciso imaginação e arte.

 

Para responder à pergunta «porque é que os mais novos não lincam tanto?» tenho de voltar à imagem do recreio. Onde é que já se viu um miúdo novo na brincadeira a ir logo falar com um dos giros? Não vai, tem vergonha, sente-se intimidado, tem medo de ser enxovalhado. Nos blogues é exactamente a mesma coisa. É preciso não esquecer que até os que insultam o fazem no anonimato. O terror é uma coisa muito bonita.

 

Concluindo que já se faz tarde, e o Paulo Pinto Mascarenhas ainda me deslinca, nada disto perdeu a graça. A piada continua mas de outra maneira. Talvez agora sim a blogosfera esteja instalada no recreio. Finalmente, é só o que tenho a dizer.

 

Texto publicado na Atlântico de Janeiro. (Estava um gelo na Casa Fernando Pessoa. Para a próxima liguem o aquecimento!)

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publicado às 22:37

Ontem o Público atingiu a maioridade

por Carla Hilário Quevedo, em 06.03.08

E o Miguel Esteves Cardoso escreveu um texto brilhante, intitulado Os pêlos públicos, onde a dada altura podemos ler: "Faz bem a rapaziada cool em não mexer uma palha para mudar as coisas, porque já não há remédio. Mas não tem valor, porque não sabem o que perderam nem o que perderam nem o que poderiam ter ganho. Em contrapartida, faz bem a ralé em indignar-se, porque é indecente o estado em que as coisas estão. Mas estragam tudo com a superstição de haver, talvez, um remédio." Parabéns, caramba. 

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publicado às 10:41

Bomba-correio

por Carla Hilário Quevedo, em 06.03.08

 

Obrigada, Rui!

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publicado às 09:54

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 06.03.08

Marion Cottilard (para a Vanity Fair)

 

... o último filme dos Coen é muito, muito bom. Mas não o suporto e tive vontade de vomitar. Por causa do final que me mói; por causa do vazio que leva à indiferença; porque confirma tudo o que penso relativamente ao que é o mal; por ser possível e mesmo nada improvável, o que o aproxima da normalidade; porque é um exemplo de como a loucura e a maldade são diferentes. Esta distinção perdeu-se. Custa a aceitar que o mal vence, embora neste caso a escolha da arma ajude à invencibilidade. Nada que uma bazuca não resolvesse. Ou um acidente de viação um bocadinho mais eficaz. Mas há tanto a dizer sobre No Country For Old Men que fico por aqui.

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publicado às 09:13