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O carisma

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.08

Vou falar durante uns minutos sobre a palavra carisma, e em que sentido a utilizamos hoje em dia. Pensando de imediato no exemplo «George Clooney é carismático», percebemos que algo estranho se passa no uso corrente desta palavra. Mas antes de chegarmos ao adjectivo, comecemos pelo início como sempre convém.

 

O vocábulo grego xárisma significa graça, favor ou dádiva divina, que como tal não implica uma retribuição. A bênção é dada sem custos; como se diz obrigada em grego moderno – evxaristó, traduzindo à letra «boa graça» – sem pedir nada em troca. A gratidão e a graça são portanto amigas. É grato quem foi agraciado, sendo a ingratidão a incapacidade de reconhecimento da bênção recebida. Quem é grato não agradece por querer algo em troca mas porque reconhece o carácter excepcional ou generoso da dádiva, e que tanto pode ser a de um filho como a de estar vivo hoje. Assim, podemos brevemente concluir que sem temor não há gratidão.

 

Voltando um pouco atrás, a xárisma, o verbo que dá origem a esta palavra é xarízomai. Se o meu grego antigo não me falha, esta terminação –omai é típica de verbos reflexivos ou marca de uma voz passiva, o que me leva a pensar que as razões por que temos tanta dificuldade em definir e consequentemente em reconhecer o carisma têm que ver com certas características que parecem ser intrínsecas a certas pessoas, que pertencem à sua natureza, e assim até a gramática nos dificulta a explicação. Não vamos desistir lá porque nos dizem que o carisma não se explica, que ou se tem ou não se tem, por isso voltemos a xarízomai, que associo intuitivamente a generosidade. Os significados deste verbo são tão variados como: ser agradável, cordial ou apenas fazer a vontade a alguém. Como se vê, exemplos de actos de generosidade. Só é generoso quem oferece sem pedir nada em troca, sendo grato quem reconhece uma tal acção praticada com desapego. Dar sem ter nenhum motivo para isso, coisa rara mesmo nos aparentemente mais magnânimos, tem a sua recompensa sempre que o mesmo acto se reproduz por aquele que é grato. Quem é grato, é invariavelmente generoso, porque agradecer é, por sua vez, também uma forma de dar sem pedir nada em troca. Talvez por isso o comentário frequente seja «de nada», uma espécie de diminutivo de «não tem que agradecer, porque tudo o que fiz – se é que de facto fiz alguma coisa –, fi-lo desinteressadamente». Parece claro, então, que tanto o grato como o generoso estabelecem ligações com o mundo que os rodeia, com os outros. Podemos dizer que têm carisma? Estou certa de que sim, e continuo a tentar explicar porquê.

 

Se aceitarmos que ter carisma é ser grato e abençoado, temos de ter em conta noções como obediência e autoridade. Ora, basta olharmos em volta para percebermos que não há muito espaço no mundo para adoptar um modo de vida em que, não só estamos gratos pelo que temos, como essa gratidão se torna o ponto essencial da nossa existência, aquilo que nos move e que nos torna carismáticos aos olhos dos outros. E carismáticos porque a graça que nos foi concedida e que humildemente recebemos é passada para os outros, com a mesma simplicidade e alegria (xápi, em grego moderno, significa favor e ainda alegria). A esta passagem de testemunho sem corrida chamamos influência, e a este tipo de influência arrisco a chamar ensinamento ou aprendizagem, depende. Mais uma vez, precisamos de conceitos como respeito, generosidade, obediência e gratidão, que se perdem num mundo excessivamente individualizado. Mas aceitar que o carisma implica concepções como a gratidão é estar a conferir à palavra um significado religioso que há muito perdeu. Segundo a doutrina católica, os dons espirituais dados pelo Espírito Santo chamados carismas são os do ensino, da liderança, da exortação e visam o bem-estar sobretudo da comunidade. Mas o que acontece se separamos o carisma da fé? Se esvaziarmos o conceito do seu sentido original – e que é claramente religioso – com o que é que ficamos? Talvez com frases como «George Clooney é muito carismático» ou «Tony Soprano pode ser o chefe da máfia em Nova Jérsia mas tem carisma».

 

Nos tempos modernos, o carisma é uma característica própria de actores de cinema e de líderes políticos que fazem subir as audiências e movem multidões. O senador Barack Obama, candidato do Partido Democrata nas eleições americanas, é muitas vezes descrito na imprensa como tendo uma personalidade carismática. É uma escolha curiosa de adjectivo. Barack Obama parece um actor com falas desajustadas, e que inclui no discurso palavras como esperança, que parecem destinadas ao mais profundo esquecimento. O nome Barack significa bênção em árabe, e assim o vemos a conquistar republicanos insuspeitos, a encantar multidões e a influenciar os mais jovens. É provável que a escolha de adjectivo seja adequada à pessoa em questão, mesmo que não saia vencedor. Não deixará de ser carismático quando for completamente esquecido pelos jornais. A diferença é que ninguém mais se referirá a Obama como sendo carismático. Nos tempos que correm, esse pormenor conta, o que me leva a concluir que a questão principal neste caso não é que reconhecemos carisma num político, mas que reconhecemos carisma em celebridades. Concluo, então, que o percurso deste vocábulo terá sido atribulado, tanto como o de qualquer outro que pertença a um círculo restrito e que passe para o domínio público.

 

Antes de sair de casa, googlei por curiosidade a palavra carisma. Na web apareceram o Mitsubishi Carisma, uma empresa de peças para automóveis na Pensilvânia e um portal de consultoria política. No banco de imagens deparamo-nos com as fotografias mais variadas desde carros, barcos a camas, todos com a marca carisma. Haverá com certeza um perfume chamado Carisma, porque neste mundo tem de haver um líquido qualquer com que nos borrifemos diariamente e que preencha esta ilusão cada vez mais necessária de que somos detentores de qualquer coisa especial, mas paradoxalmente de muito fácil acesso, e que nos distingue dos demais de tal forma que leva a que todos nos respeitem e considerem como seres únicos. Tudo isto é possível, por isso deve haver à venda num frasco de vidro. Obrigada.

 

Texto lido hoje na Igreja Baptista de Benfica. Foi um prazer ter partilhado a mesa com o ilustre palestrante Pedro Sobrado, obrigada. Agradeço ainda ao Tiago Cavaco o mui amável convite.

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publicado às 23:51

Blogotelegrama

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.08

caríssimos Combustões, Jansenista e Réprobo stop li os vossos textos com muito agrado stop e sei que amanhã stop vou acordar assim stop a comentá-los como merecem stop

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publicado às 11:47

Dia Internacional da Mulher (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.08

 

Anthony Perkins a fazer de John Cleese e Brigitte Bardot de adorável francesa que acha graça ao pateta inglês. O momento final é tipicamente feminino: há prioridades a cumprir.

 

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publicado às 11:31

Dia Internacional da Mulher (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.08

 

Brigitte Bardot teve uma formação intensiva em dança clássica, como qualquer rapariga que se preze. E neste clip está muito bonita, ao contrário do que sempre dizem dela. Gosto desta mulher que teve a distinta lata de envelhecer como bem lhe apeteceu. É assim mesmo. 

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publicado às 11:24

Dia Internacional da Mulher (1)

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.08

 

A sabedoria de Brigitte Bardot aos 22 anos leva-a a gostar muito dos animais. Cães, macacos e agora focas. Entendo-a perfeitamente. É tão boa a resposta que dá sobre a seriedade das actrizes. Será uma actriz séria quando for velha, mas agora não. Confunde  "dogs" com "love" e é uma delícia de criatura doce e inteligente. 

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publicado às 11:07