Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Evelyn Waugh é um génio

por Carla Hilário Quevedo, em 23.03.08

Li há cerca de um mês, dois ou três, The Man Who Liked Dickens de Evelyn Waugh. Fiquei na altura impressionada com a história do pobre diabo, Henty, controlado por um diabólico Mr. McMaster, como aliás o próprio nome indica, não se desse o caso de o leitor ter dúvidas sobre quem dominava quem. Não é que tenha ficado impressionada com a história, mas porque dei por mim a tomar o partido do óbvio vilão, Mr. McMaster, o tal homem que gostava de Dickens. À partida, nunca defendo o mau da fita, não sou uma criatura fascinada pela maldade, nem sequer a admiro, por isso os demónios acabam sempre por me aborrecer. No entanto, há qualquer coisa nesta personagem que a torna encantadora, e eu sei o que é: McMaster é muito cool. Ocupado durante o dia com os seus afazeres (que nunca percebemos muito bem o que são), tem como excentricidade querer ouvir Henty a ler em voz alta a certa hora do dia. Mr. McMaster não sabe ler e o destino traz à sua presença, no meio da Amazónia, um pateta de nome Henty (doente e abandonado pelos companheiros de expedição), aparentemente uma boa alma, mas que é incapaz de perceber o que lhe está a acontecer.

 

Uma espécie de menino das tias inútil, Henty recebe da própria mulher a notícia de que está apaixonada por outro homem. Muito curiosa a informação de que é a segunda vez que se apaixona por outro durante o casamento que dura há oito anos. Parece piada mas é crueldade pura, útil para denegrir aquela que será a vítima da história. Na mesma noite em que a mulher lhe dá a notícia, Henty resolve aceitar um convite para acompanhar o Professor Andersen numa expedição ao Brasil, sendo que não percebe nada de antropologia nem de expedições nem de brasileiros. A sua intenção não deixa de ser típica: quer dar tempo à mulher para ela viver a sua relação amorosa ao ponto de se cansar, além de pensar que ficará bem visto por fazer uma viagem exótica e arriscada. Tudo corre muito mal e, passado pouco tempo de ter chegado ao Brasil, Henty acaba por se ver sozinho no meio da selva, pois até o Professor que acompanhava morre de um tipo maligno de malária. À deriva, como parece ter andado sempre na vida, dá por si deitado numa rede, com Mr. McMaster a tomar conta dele. E pior: a dizer-lhe que vai tomar conta dele...

 

O preço não parece alto: Henty só tem de ler para Mr. McMaster, tarefa que lhe dá prazer; afinal de contas, no primeiro ano de casamento, sempre que podia lia em voz alta para a mulher, até ao dia em que esta lhe disse que "aquilo era uma tortura para ela". Durante estas peculiares sessões de leitura, Mr. McMaster (que não sabe ler, repito) revela perceber bastante de Dickens, ao contrário de Henty (que sabe ler, claro), que não percebe nada de nada do que lê. Gostei muito do interesse de McMaster pelas personagens. Mas este interesse parece-me ter uma explicação prática: é mais difícil fixar uma história que se ouve do que uma que se lê, daí as perguntas sucessivas sobre as personagens, mais do que sobre a história. Interessa-lhe conhecer as pessoas, saber como funcionam.

 

Entretanto Henty melhora e começa a falar sobre ir embora. Nessa noite, McMaster quase não lhe dá comida. Da segunda vez, quando exige ser libertado, McMaster responde que ninguém o está a manter ali à força e mais tarde mostra-lhe subtilmente a arma. Só ele tem uma arma nas redondezas, e a tribo dos índios naquela zona só lhe obedece a ele. Fazendo outra tentativa, Henty dá um bilhete a um estranho que entretanto cai ali, só com o seu nome rabiscado, mas nada parece acontecer. Está sozinho com Mr. McMaster que lhe vai pedindo com toda a doçura e delicadeza do mundo para lhe ler e reler passagens do Oliver Twist. No final da história, quando há uma esperança de Henty finalmentese libertar, McMaster impede-o, desta vez drogando-o com uma bebida que o obriga a sair de cena durante o tempo em que um grupo de ingleses chega para o levar (o resultado do tal bilhete). Quando Henty acorda, já o grupo partiu, segundo lhe diz McMaster, pesaroso, ao mesmo tempo que - já agora - lhe pede para reler umas passagens belíssimas de Little Dorrit.

 

Tudo isto é contado de forma sublime e também manipuladora. Não houve um instante em que não pensasse que Henty era culpado por não agir contra Mr. McMaster. Não houve um só momento em que não me passasse pela cabeça que para ser McMaster é preciso ter as condições adequadas: estar isolado, ter a única arma da zona e ser pai de uma tribo de filhos. Já para ser Henty não é preciso nada de especial. Na verdade, Henties há muitos, como dizia o outro. Mas o problema dos aspirantes a McMaster, que, como tal, não reúnem as condições ideais para controlar o próximo, é darem por si um dia com a tal arma apontada à cabeça, logo por uma criatura que erradamente calcularam ser Henty. Esse dia é bom porque corre sempre mal aos aspirantes a McMaster deste mundo.      

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:27

Brideshead Revisited (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 23.03.08

É muito bom e muito triste. Lembro-me de ser bom, mas não me lembrava do triste que era. Se calhar não dei por isso na altura ou então achava que não haver salvação era giro. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:26

Brideshead Revisited

por Carla Hilário Quevedo, em 23.03.08

 

Eu também quero um Aloysius!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:22