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(Via Jansenista)
Juliet Macur faz no The New York Times um retrato da preparação dos atletas chineses participantes nas Olimpíadas de Pequim, sendo muitos originários do interior da China e nascidos no seio de famílias pobres. À primeira vista, as excepcionais condições atléticas seriam o passaporte certo para uma vida melhor. Mas não parece ser o caso. A obsessão do governo chinês em ganhar medalhas de ouro transformou a preparação desportiva em algo muito parecido com a escravatura. Mesmo o êxito nas competições não garante um futuro confortável. Muitos vencedores de medalhas em olimpíadas anteriores vivem com escassos recursos e sem segurança, um mau prenúncio. Outros, depois das vitórias alcançadas, serão levados a treinar futuros campeões. A dedicação exigida não deixa lugar a mais nenhuma actividade, nem à vida familiar. O prazer efémero da vitória na China olímpica será ainda mais fugaz. Julgar-se-ia que tudo ali é diferente e que não podemos olhar para aquele povo com os nossos redondos olhos ocidentais da mesma forma com que olhamos para nós. Mas aqueles atletas estão à beira da depressão. E isso não nos torna assim tão diferentes.
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 28-06-08.
Não sei se por causa da paralisação dos camionistas, se por causa da praia, lembrei-me da expressão «isso é muita areia para a tua camioneta». É certo que uma camioneta não é um camião, mas para todos os efeitos há um «cami» em comum. De onde virá tal ideia? Talvez o primeiro desabamento de areias transportadas há muito, muito tempo por terras do Oriente esteja na origem desta expressão. Há a possibilidade de um dia ter sido literal: havia muita areia e havia uma pequena camioneta. Muitos séculos depois estamos em Portugal, e pelas estradas do país observamos a passagem destes veículos de caixa aberta, com uns montes de areia mal tapados por lonas bege. Os grãos de areia voavam em fiozinhos muito ligeiros e quase a conta-gotas, como a água pingaria se fosse essa a mercadoria transportada. Por todo o país, a cena repetia-se: sempre a areia a fugir entre a lona mal presa. Alguém terá perguntado: «Ó Tó! Tu não levas aí muita areia para a tua camioneta?» Ao que o outro terá respondido: «Pá, não! Isto aguenta tudo». Acaba por ser uma versão de viação da expressão gastronómica «tem mais olhos que barriga», estando a primeira no passado, pois a areia já lá está.
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 28-06-08.
Absolutamente a ver. Uma maravilha!
Não deixa de ser uma sorte que os gatos não tenham memória. Se tivessem, nem que fosse um bocadinho muito, muito pequenino, o Varandas nunca me perdoaria a maldade que lhe fiz há umas semanas, quando decidi que o melhor a fazer depois da tosquia era pespegar com ele no veterinário. Tudo porque me dava imenso jeito, banho e tosquia e médico, tudo no mesmo sítio, uma só deslocação, que egoísta! Portou-se como o santo felino que é, quieto, sem nunca miar, nem manifestar sequer uma vaga impaciência. Termómetros, análises, tudo visto, olhos, dentes, bons dentes, e a desparatização? Como disse? Os comprimidos para os parasitas, há quanto tempo não toma? Parasitas o Varandas? Saberá a senhora doutora veterinária de que animal está a falar? Maneiras! Haja maneiras. Errr... Não me lembro de alguma vez lhe ter dado tal coisa, mas se tem de ser. É melhor, quanto pesa, ah, pesadinho, dois comprimidos inteiros e mais três quartos de um terceiro. Mas, mas. Ao primeiro, o Varandas reagiu com alguma surpresa, mas limitou-se a tentar fugir com a cabeça. Já ao segundo, o bicho transformou-se num puma, mudou de olhar, outra pessoa, nada a ver. Revelou por fim a sua natureza, felizmente, pois começava a duvidar da nobre descendência de honoráveis chitas, pumas, linces, tigres e toda a espécie de gatos de grande porte que não apreciam ser aborrecidos por bípedes primitivos. Ao primeiro quarto do terceiro comprimido, o animal ficou duro como uma pedra e, além do olhar de ódio profundo que me lançou, abriu a boca e mostrou os dentes pontiagudos de serpente. É interessante que depois de horas de gente à volta a chatear, uma pessoa se transforme num animal feroz. Não tem mal nenhum. Até me parece normal. Muito parado rosnou quando ingeriu o segundo quarto e ao terceiro e último bocado de comprimido enfiado pela boca abaixo, o gato já não era puma mas uma cobra muito irritada e pronta a atacar. Assisti à transformação sempre a acenar com a cabeça, sim, tem toda a razão e eu nenhuma, isto não devia ter acontecido, estiquei a corda. Se o Varandas me tentar morder, não vou fugir. Não mordeu porque o mantive fechado no saquinho de transporte. O tempo passou e o bicho voltou ao seu estado habitual, doce e calmo. Gatinho lindo.
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