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Em defesa da frivolidade

por Carla Hilário Quevedo, em 02.06.08

Nesta época em que tudo parece inconsequente, é natural que se anseie por gente circunspecta, que «meta isto na ordem». Que daqueles com responsabilidades directas sobre a vida dos outros se exija firmeza não me parece mal. No entanto, cultivar esse modo de vida destrói dois aspectos importantes: a própria inconsequência, vital à criação e à individualidade, bem como a oportunidade de crescer de uma vez por todas, sem estar sempre à espera de alguém que arrume a existência alheia. Não precisamos de seriedade para evoluir mas sim de uma boa dose de frivolidade. Dizem que temos disso em excesso mas julgo que tudo não passa de um equívoco. Onde parece haver leveza há apatia e desapego sombrio. Nem sequer um vazio festivo, que diabo! Aí haverá pelo menos alguma liberdade, lugar para a esperança e para a promessa de algo que até pode ser grandioso. Na apatia não. Nesse estado em que nada se distingue, não há como criar de novo. Se a apatia tivesse um equivalente na natureza, seria um lamaçal ou areias movediças. À frivolidade associo os acrobatas no circo. Há que evitar os pântanos e aplaudir os equilibristas e os funâmbulos.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 31-05-08.

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publicado às 18:23