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T.T. ou Tiago Teixeira

por Carla Hilário Quevedo, em 16.10.08

Quando há uns anos, Miguel Esteves Cardoso inventou no seu blogue Pastilhas o termo «otoverme» para rotular os temas musicais que se entranhavam no ouvido do inocente e de lá tão cedo não saíam, o tema Lady, deixa-te levar, de T.T. com Lady V, estava longe dos estúdios de gravação. O refrão é fatal para qualquer esponja auditiva: «Lady, deixa-te levar / Não vais conseguir chegar / Anda vem pra mim / pra miiiimm». Os erros gramaticais não evitam a repetição logo seguidos do breve diálogo «ela: eu quero me deixar levaaar / ele: então porque é que andas sempre a evitar (a miiiimm)». A preposição «para» está na moda. Vemo-la a reger qualquer verbo – vir para, falar para, ligar para – e a desembocar num complemento circunstancial de lugar brasileiro: «mim». O problema é que «vem pra mim» é uma aberração linguística que fica no ouvido. Ou seja: a canção é um perigo à solta. Não por causa da mistura com vocábulos em inglês – «baby, eu quero ser tua lady» (a ausência do artigo só fortalece o possessivo) – mas porque dar pontapés na gramática atrai. Mas atentemos no empenho poético do compositor: «Não penses que contigo não quero estar / Não penses que o meu número eu não quero dar»...

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-10-08.

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publicado às 18:41

Bom apesar de tudo

por Carla Hilário Quevedo, em 16.10.08

Graças à televisão por cabo, habituámo-nos ao nível excelente das séries norte-americanas. Mas nem por isso deixam de surpreender. A minha última descoberta chama-se Huff e é a Fox que a transmite. O Dr. Craig Huffstodt (Huff) é um psiquiatra que experimenta um momento trágico no seu consultório: um adolescente, seu paciente, suicida-se à sua frente. Está assim dado o mote para a primeira temporada. A série, que não me parece ter sido muito publicitada, tem qualidades que a assemelham a outras, com a singularidade de nos apresentar um psiquiatra que é sobretudo boa pessoa. Esta particularidade pode parecer anódina mas não é. A avalanche de séries de televisão de qualidade notável há uma sobredosagem de heróis e personagens cínicos, aparentemente imorais e com poucos escrúpulos. Pela primeira vez vemos um protagonista inteligente, bondoso e interessante. Não há lamechices nem grandes mistérios na história e, no entanto, conquista a atenção de imediato. Tive pena de saber que Huff não foi além da segunda temporada. Apesar das muitas nomeações para tudo quanto é prémio de televisão, o público americano não gostou. Mais uma vítima dos mercados.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-10-08.

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publicado às 18:34

Difícil de perceber

por Carla Hilário Quevedo, em 16.10.08

"What is a good man like? How can we make ourselves morally better? Can we make ourselves morally better? These are the questions the philosopher should try to answer. We realize on reflection that we know little about good men. There are men in history who are traditionally thought of as having been good (Christ, Socrates, certain saints), but if we try to contemplate these men we find that the information about them is scanty and vague, and that, their great moments apart, it is the simplicity and directness of their diction which chiefly colours our conception of them as good. And if we consider contemporary candidates for goodness, if we know of any, we are likely to find them obscure or else on closer inspection full of frailty. Goodness appears to be both rare and hard to picture." Iris Murdoch, The Sovereignty of Good, p. 51.

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publicado às 18:24

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 16.10.08

Joan Crawford

 

... ainda sobre lembrar e esquecer e esquecer e lembrar, penso a esta hora da manhã que o verbo-chave é descontrair. Talvez lá mais para o fim da tarde tenha outra ideia (ah, les femmes...). Num modo de vida cool não há espaço para muitas ligações com um excesso de intensidade tal que só podem levar à desgraça. As ligações mais arriscadas (a pessoas, a situações), sobretudo de afecto, requerem cuidado. Cuidado com as pessoas de que gostamos, cuidado em situações de maior fragilidade. Para isso é preciso memória, sim. Porque a memória está associada à atenção que damos às coisas. O que quero dizer é que a atenção, na grande maioria dos casos, é mais interessante do que a memória propriamente dita. Ter atenção, sim. Mas lembrarmo-nos para sempre dessa atenção, não. Isto pode parecer superficial. E se calhar é. Pode ser também o que nos salva.

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publicado às 07:00