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O príncipe triste

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.08

Embora não seja monárquica, nada me move contra a monarquia. Até admito que tenha algumas vantagens institucionais quando comparada com o sistema republicano. Tem pelo menos muitas coisas giras, sendo certo que tem outras bastante tristes. Tomemos como exemplo a vida do recém-sexagenário Príncipe Carlos de Inglaterra. É o mais parecido que temos na Europa a princesas deprimidas e fechadas numa torre à espera de um paladino que as salve. A diferença é que Carlos espera pela coroa de rei. Mas a fortuna é madrasta. A mãe é rija como aço e tem uma saúde de titânio. Carlos casou-se sem amor com uma jovem mais querida e popular do que ele. Ainda por cima, Diana era uma lança republicana em solo monárquico. O amor da vida do príncipe era casada com outro, o que faz lembrar a história do tio-avô que abdicou da coroa por uma questão parecida. Carlos é pai de dois filhos que parecem saídos das histórias de encantar já mencionadas. O primogénito, antes de ser oficialmente o Príncipe de Gales, herdeiro da Coroa, é mais estimado agora do que Carlos alguma vez foi. Sim, é uma existência triste e equivoca. Mas não é grave. Sessenta anos de vida principesca ninguém lhe tira.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-11-08.

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publicado às 19:19

Toda a virtualidade será punida

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.08

Esta história deu que falar. Um casal inglês conheceu-se na Internet. Casaram e partilharam a sua paixão pelo Second Life, um mundo virtual onde os participantes adquirem, como o nome indica, uma segunda vida. Continuaram casados na vida real e na outra também. A dada altura, o homem desenvolveu um gosto por prostitutas virtuais. O casal teve a sua primeira briga real quando o marido foi apanhado pela mulher nessas andanças. No entanto, o marido não abdicou das más companhias. A mulher real fartou-se e pediu o divórcio alegando a infidelidade virtual do marido. Parece que este é o primeiro divórcio do género. Numa primeira impressão talvez seja difícil compreender a atitude algo exagerada da mulher. O adultério virtual podia ser punido com um divórcio virtual e assim ficava tudo no computador. No entanto, após uma reflexão mais cuidada chego à conclusão de que se o marido fazia o que fazia no Second Life era só porque não podia fazer o mesmo na vida real. Imagine que o seu marido fiel e dedicado tem um fraco por chamadas de valor erótico e acrescentado. Também há algo de virtual nesta brincadeira. E quantas chamadas toleraria a legítima mulher? Nenhuma, claro.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-11-08.

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publicado às 19:16

Interesses lácteos

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.08

Não fazia a mínima ideia de que não comia um iogurte há dezenas de anos, apesar de lanchar um de papaia e kiwi quase todos os dias. Mas se pensarmos bem, os iogurtes sabem quase todos ao mesmo: a uma mistura artificial de leite em pó e água quando são «naturais», e de leite em pó, água e pedaços de coisas quando são de «fruta». Ou seja, a uma aguadilha com ou sem o ligeiro travo a morango. É raro encontrar hoje em dia um iogurte que fique na memória. Daí a urgência de escrever a respeito de um recente achado lacticínio: os iogurtes soberbos da Emmi (não confundir com o IMI), que publicito sem por isso ganhar um único iogurte extra. Considero que a partilha dos bons sabores faz parte do vasto conjunto das boas acções a praticar. Avisar que os iogurtes com pedaços de ananás e de morango são ainda assim superiores aos da manga «tipo Alphonso, proveniente da Índia, onde é considerada a rainha das mangas» é uma espécie de adenda à boa acção da vulgar partilha. Os de ananás são soberbos porque tudo naquele pequeno boião é verdadeiro; os de morango transportam o consumidor no tempo, e, por fim, os de manga serão com certeza óptimos para os apreciadores de sabores menos ortodoxos.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-11-08.

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publicado às 19:11

'You can’t handle the truth'

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.08

A propósito da recente entrevista de Miguel Esteves Cardoso à Sábado levantou-se uma espécie de tumulto sussurrado repleto de críticas e mau estar. Não sendo advogada de defesa de quem delas não precisa (nem de advogada nem de defesa) devo dizer que o pior da entrevista é o seu melhor: o facto de o autor dizer a verdade. É o pior porque o autor se expõe ao mundo, correndo sérios riscos com essa exposição. Por exemplo, desapontar admiradores fervorosos e fervorosamente moralistas. É também o pior porque no mundo actual parece que só se confia em quem mente. Um paradoxo afinal como tantos outros. Fiquei com a sensação de que dizer a verdade é aceite desde que se repita o que é confortável para os outros. Ou seja, mentir sobre si próprio se calhar não é assim tão mal pensado, dado que poucas pessoas suportam o que de menos adorável há no próximo. Resta saber como este aparente desastre pode ser o melhor. É o melhor na medida em que é uma manifestação de vitalidade, sabedoria – experimentou o que faz falta e o que não faz falta nenhuma – e, sobretudo, de reconciliação com o passado tendo em vista um grande futuro. Até a ser sincero o Miguel é superior.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-11-08.

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publicado às 19:07

Ouvir, ouvir, ouvir

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.08

"Genuine controversy, fair cut and thrust before a common audience, has become in our special epoch very rare. For the sincere controversialist is above all things a good listener. The really burning enthusiast never interrupts; he listens to the enemy's arguments as eagerly as a spy would listen to the enemy's arrangements. But if you attempt an actual argument with a modern paper of opposite politics, you will find that no medium is admitted between violence and evasion. You will have no answer except slanging or silence."

 

G. K. Chesterton, "The New Hypocrite", What's Wrong With The World.

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publicado às 19:01

Variação sobre o mesmo tema

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.08

 

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publicado às 17:21