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M.S. Lourenço (1936-2009)

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.09

"Em Oxford, nos anos 60 do séc. XX, um estudante ainda tinha além do seu tutor pessoal na disciplina, no meu caso Michael Dummett, também um tutor administrativo, que tinha a incumbência de vigiar a execução do plano de estudos e de se interessar pela vida pessoal, e eventualmente ajudar nas dificuldades, do seu tutee. Quando Mr. Harré soube que, fora do meu plano de estudos, eu frequentava aulas do departamento de literatura sobre James Joyce, chamou-me ao seu gabinete e disse-me, depois de outras sobre o cumprimento das minhas obrigações, estas frases que ainda hoje ecoam na minha cabeça: 'Mr. Lawrendzow, such nonsense! Reading James Joyce, are you? Do you know what you are doing to your future?'

 

 

(...)

 

E foi assim que, logo após as minhas primeiras aulas, se me tornou completamente claro que o meu problema em filosofia tinha que passar simplesmente a ser, não como descobrir resultados novos mas antes como tornar acessíveis, a um público completamente alheio à disciplina, alguns resultados importantes já existentes.

 

(...)

 

Na minha experiência, um aluno que incorreu num disparate representou sempre para mim uma oportunidade de crescimento e não uma perda. Um aluno aprende ao ser-lhe mostrado o erro: a sua concentração aumenta, a sua atenção tem um foco e, em geral, erros que são corrigidos a tempo não são repetidos.

 

Estou a pressupor um caso padrão, de um aluno com uma inteligência média ou acima da média. Infelizmente, tive alguns alunos com uma inteligência abaixo da média, para os quais a situação de erro era tida como uma situação de pânico. Estes alunos são vítimas da ideologia igualitarista, segundo o qual todas as pessoas são igualmente inteligentes e tornam-se às vezes agressivos contra a disciplina quando descobrem que são menos inteligentes do que alguns dos seus colegas. Tentei travar a agressividade procurando mostrar que não é a disciplina que está errada mas antes a ideologia igualitarista. É do ponto de vista psicológico no entanto interessante constatar que algumas daquelas pessoas, que viveram na pele o erro da ideologia igualitarista, não a consideram por isso refutada e continuam a insurgir-se contra a disciplina."

 

Entrevista de Miguel Tamen. Publicada em A. M. Feijó & M. Tamen (eds.) A Teoria do Programa. Uma homenagem a Maria de Lourdes Ferraz e a M. S. Lourenço. Lisboa: Programa em Teoria da Literatura. 2007.

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publicado às 23:16