Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Inimigos úteis

por Carla Hilário Quevedo, em 04.08.09

Para que serve um inimigo na indústria musical? Para explorar e ganhar dinheiro à sua custa. O rapper Eminem é bom exemplo de inventor de inimizades às custas das quais vai sobrevivendo. Os alvos da sua preferência são sobretudo mulheres. Jessica Simpson, Britney Spears e Mariah Carey são algumas das presenças frequentes nas suas letras difamatórias. Mas a vulgaridade tem um preço: a (muito pouca) piada desapareceu e nos últimos tempos a misoginia de Eminem deixou de vender. Até há pouco as caluniadas tiveram um comportamento tipicamente feminino, dedicando a Eminem um mutismo de enfado. Mas Mariah Carey, que talvez esteja com problemas de liquidez, resolveu quebrar o silêncio. No tema Obsessed, Mariah Carey acusa Eminem de ser um drogado, doente e um homossexual encapotado: «Lying that you’re sexing me (when everybody knows)». Feminina ad nauseam, Mariah canta que o outro está obcecado por causa do despeito. É capaz. Só faltam duas cerejas no topo do bolo: nunca nenhuma mulher gostou dele. A começar pela própria mãe. Parece que faltam estes dois singelos versos, mesmo numa letra repleta de pérolas como «I'm the press conference, you a conversation».

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 31-07-09.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:15

Amo este povo

por Carla Hilário Quevedo, em 04.08.09

A maioria das pessoas desconhece que da comunidade argentina residente em Portugal poucos são os que não são adeptos do Futebol Clube do Porto. Também desconhecedora mas das lides futebolísticas, tentei perceber a que se devia esta ligação. Explicaram-me, então, que portistas e argentinos têm um certo estilo em comum e que partilham uma espécie de garra no campo. Não é muito mas pode ser o suficiente para explicar o número de jogadores argentinos integrados na equipa do FC Porto. Para mim, de uma perspectiva de quem não se interessa nada por futebol, a graça dos jogadores argentinos está nas suas actividades extra-curriculares. Não falo de Maradona, que não entra em nenhum campeonato. Falo, por exemplo, de Jorge Valdano, futebolista e escritor, e de Santiago Solari (que começou a sua carreira no mesmo clube de Valdano, o Club Atlético Newell’s Old Boys), futebolista e licenciado em Literatura. Para que queremos mulheres bonitas e inteligentes quando podemos ter atletas intelectuais? Agora chegou ao Futebol Clube do Porto um jogador chamado Diego Valeri, conhecido por o Bibliotecário. Futebolista e apaixonado por literatura. São tantos que até parece uma piada de argentinos.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 31-7-09.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:10

O Escobar dos rins

por Carla Hilário Quevedo, em 04.08.09

Levy Rosenbaum era conhecido pelos vizinhos em Brooklyn como um respeitável empresário de construção civil. Na verdade, é o maior traficante de órgãos conhecido até hoje nos Estados Unidos da América. Tinha os rins como especialidade. Este homem, respeitado pela sua comunidade de judeus ortodoxos, cometeu durante muito tempo um crime moderno. Digo moderno porque uma coisa destas só pode ter sido inventada nas últimas décadas do século passado. Rosenbaum angariava os clientes receptores – os que queriam comprar um rim. Ainda não conheço os pormenores da angariação dos ditos órgãos mas parece que Rosenbaum comprava por dez mil dólares e vendia por 160 mil. Foi também noticiado que levava sempre um revólver para o negócio não fosse o «dador» mudar de ideias. Embora no começo desta macabra descoberta se falasse de uma rede que incluía rabinos e políticos, estes foram ilibados de imediato e libertados. Logo quando estava disposta a aceitar os rabinos traficantes de órgãos. Afinal de contas, todas as religiões têm os seus problemas: os muçulmanos têm os bombistas e os católicos têm os padres pedófilos. Até os ateus têm os seus criminosos. Não há pano sem nódoa nem família sem pecado.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 31-7-09.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:05

Até que enfim

por Carla Hilário Quevedo, em 04.08.09

O DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) está a preparar a sua quinta versão corrigida e aumentada. O aumento não é pequeno. Não falo de número de páginas mas das renovadas disorders. Christopher Lane, na Slate, escreveu com indignação justificada sobre as novas perturbações mentais que a prestigiada associação de psiquiatras americanos quer ver incluídas no manual. Ao ressentimento de que já aqui falei há umas semanas, juntam-se agora a compulsão para as compras e as horas infindáveis passadas à frente do computador a navegar na Internet. Lane, com sensatez, começa por perguntar quantas compras e quantas horas são necessárias para que estas actividades sejam merecedoras do epíteto de doença. É certo que quem compra até se arruinar, quem odeia ao ponto do assassínio ou do suicídio ou quem perde a mulher, o trabalho, os entes queridos por passar o tempo todo na Internet merece ser tratado como um egoísta irresponsável e, se calhar, até doente. Mas isto merece mais bibliografia. Entretanto, daqui um bem-haja para Christopher Lane. Ainda havemos de ter uma doença chamada Obsessão por Diagnósticos de Perturbações Mentais.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 31-7-09.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:01