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Uma salva de palmas

por Carla Hilário Quevedo, em 29.12.09

David Teniers the Younger, Archduke Leopold Wilhelm in his Gallery, 1647, oil on copper, 106 x 129 cm, Museu do Prado, Madrid

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publicado às 15:32

O hábito faz o monge

por Carla Hilário Quevedo, em 29.12.09

Li no Times Literary Supplement que a venda da máquina de escrever de Cormac McCarthy foi um acontecimento. A Olivetti Lettera, comprada pelo escritor por cinquenta dólares em 1963, foi vendida por 254 mil e quinhentos dólares a um coleccionador. A receita reverte a favor do instituto de pesquisa interdisciplinar de Santa Fé. O organizador do leilão afirmou ter ficado espanto por McCarthy ter escrito as suas magníficas obras naquela gerigonça, e que «era como escalar o Monte Rushmore com um canivete suíço». A analogia é ridícula. Sabemos que os computadores apareceram há poucas décadas e que muitos escritores no século XX se recusavam a trabalhar numa máquina de escrever. Tenho a certeza de que ainda hoje um ou outro prefere escrever à mão a usar o portátil. No entanto, talvez seja uma questão de hábito mais que uma teimosia anti-moderna. McCarthy, como outros, após toda a vida ter escrito à máquina não terá tempo nem pachorra para mudar o seu hábito. Compreendo e acho natural. Por outro lado, ter vendido a máquina de escrever pode ser um sinal de mudança. Pode ter ficado rendido aos encantos de uma máquina de escrever eléctrica tão na moda nos anos setenta.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 24-12-09

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publicado às 15:26

Como os avós

por Carla Hilário Quevedo, em 29.12.09

A segunda temporada da série Mad Men, transmitida pela RTP 2, às sextas-feiras, por volta das 22h40, é muito bem escrita e interpretada. É, no entanto, demasiado crua e triste para o meu gosto televisivo. Defendo a tese de que Mad Men surge como uma oposição vingativa ao número desproporcionado de séries nos últimos anos dirigidas ao público feminino. De Sex and the City a Desperate Housewives, as mulheres foram o principal motivo de interesse das cadeias televisivas. A excepção será The Sopranos, que se manteve misoginamente fiel à si própria. Misoginias à parte, o guarda-roupa de Mad Men é deslumbrante. O estilo do início da década de 60, com Jackie Kennedy, etc., parece estar a ser revivido pela nova geração nova-iorquina, sobretudo pelos rapazes. As personagens mais bem vestidas da série são Donald Draper e Roger Sterling. Samuel Rascoff, professor de Direito na Universidade de Nova Iorque, contou ao The New York Times que os alunos voltaram a ter um interesse em vestir bem enquanto os mais velhos, acima dos 45 anos, ainda pensam que estar na moda é usar calças de ganga. Se Mad Men for capaz desta mudança, talvez mude de ideias.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 24-12-09

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publicado às 15:18

A canção da década

por Carla Hilário Quevedo, em 29.12.09

 

A revista Rolling Stone elegeu Crazy, dos Gnarls Barkley, como a melhor canção da década. Fiquei agradavelmente surpreendida com a escolha. A surpresa talvez se deva a uma ideia um tanto desactualizada desta publicação especializada. A especialidade da Rolling Stone afinal não é o rock ‘n’ roll nem a música alternativa ao circuito comercial. Bem pelo contrário. Se percorrermos a lista dos cem melhores temas da década é evidente como o pop, o R&B e o hip-hop tomaram conta da cena musical. Parece aliás não haver mais música além desta. Não sei o que a Rolling Stone entende por «melhor», quando no segundo lugar encontramos Jay-Z com o tema 99 Problems, que pode ser muitas coisas mas não é um tema memorável, logo seguido de Crazy in Love, de Beyoncé, uma daquelas canções engraçadas, como Hung Up de Madonna (em 76.º lugar), mas que cansam depressa. A lista inteira parece tirada da MTV, o que suscitou violentas críticas online dos fãs que acusam a revista de se ter vendido às Britneys e às Beyoncés da vida. Talvez tenham razão. Mas Crazy é uma grande canção. Basta ouvir as muitas versões do tema para confirmar que ganhou muito bem.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 24-12-09

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publicado às 15:06