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Saudades das más

por Carla Hilário Quevedo, em 15.03.11

Provavelmente a última femme fatale: Kathleen Turner, em Body Heat

 

Na revista Obit, Kevin Nance queixa-se da extinção da femme fatale no cinema americano. Com amarga ironia, insinua que o mais parecido com uma mulher vingativa e manipuladora que tivemos nos filmes candidatos aos Óscares foi Matie Ross, a menina de 14 anos, de True Grit, interpretada por Hailee Steinfeld. É certo que já não vemos mulheres belas e amorais como dantes. A misoginia foi canalizada de outra maneira, assim como a maldade deixou, a pouco e pouco, de ter um nome de mulher, talvez por receio de retaliações feministas. No entanto, Nance lembra que o modelo da mulher independente, que resistia a ser uma vítima, era representado pela femme fatale de policiais extraordinários. Belas, insolentes e, acima de tudo, determinadas a conseguir o que queriam, eram irresistíveis, não só para os homens, que eram ludibriados por elas, mas também para o público, que torcia por elas e ansiava por que a história acabasse bem. Ou melhor, mal para todos os outros. Talvez seja tarde para repetir estes demónios de olhos angelicais e pernas que não acabavam. Agora, as raparigas só choram e sofrem e sofrem e choram. Ou matam com golpes de karaté. Uma seca.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-3-11

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publicado às 18:51

You know I know how

por Carla Hilário Quevedo, em 15.03.11

To make 'em stop and stare as I zone out

The club can't even handle me right now

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publicado às 18:46

Os novos doadores

por Carla Hilário Quevedo, em 15.03.11

Li um artigo perturbador no New York Times, de Christian Longo, um prisioneiro no corredor da morte da prisão estatal do Oregon. Longo matou a mulher e os três filhos. Tem 37 anos e está há oito à espera de ser executado. O tempo serviu para negar o que fizera, tentar enganar os outros sobre o que fizera, reconhecer o seu crime hediondo e cancelar os pedidos de perdão da pena. Longo aceita que tem de morrer pelo crime que cometeu e pede que seja cumprido um último pedido: quer doar os seus órgãos. O pedido foi recusado pelas autoridades prisionais, apesar de não haver nenhuma lei que o proíba. As três drogas nas injecções letais danificam permanentemente os órgãos. Mas não acontece assim em todos os estados. No Ohio ou em Washington, é usada uma quantidade maior de um barbitúrico forte, que não tem esta acção destruidora. É desconcertante que um condenado à morte sugira uma maneira menos intoxicante de morrer, com a intenção de salvar vidas anónimas. Outros condenados à morte acompanham Longo no seu pedido e nenhum pede alterações à pena. Visto que uma boa acção não compensa outra má, por que não aceitar a doação? Não os vai salvar do inferno.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-3-11

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publicado às 18:42