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Nunca é tarde

por Carla Hilário Quevedo, em 03.05.11

Edward O. Wilson é um biólogo reputado que há quarenta anos preencheu a lacuna na teoria darwinista sobre a cooperação entre seres vivos da mesma espécie. A explicação para o altruísmo estava na partilha de genes em comum, como os de parentesco. Defender o seu semelhante era, então, como defender um membro da família. A tese foi um êxito na comunidade científica e as várias obras publicadas sobre o gene altruísta foram baseadas nesta teoria. Na altura, Wilson também foi insultado por dar cobertura a aspectos do determinismo biológico que conduziam a interpretações racistas e misóginas. Há dez anos, descobriu que a sua própria teoria não se verificava com rigor nem respondia a todas as perguntas. Agora acredita que estava enganado. A cooperação no reino animal nem sempre acontece por causa dos laços familiares. O que é importante é defender o grupo, mas não é o grupo que suscita a solidariedade nos indivíduos. A questão é que para pertencer ao grupo há que ser solidário. A comunidade que o amou há quarenta anos agora não o pode ver. Aos 81 anos, Edward O. Wilson regressa ao combate. Deve ser, para o próprio, como se tivesse quarenta outra vez.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 29-4-11

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publicado às 19:07

Entrevista ao Papa

por Carla Hilário Quevedo, em 03.05.11

Pela primeira vez, um Papa aceitou responder a perguntas enviadas por fiéis de todo o mundo num programa de televisão. Respondeu a sete, seleccionadas entre milhares, e o programa foi transmitido na Sexta-feira Santa pela RAI 1. Foi emocionante ver o Papa a responder a dúvidas de pessoas como nós, que precisam de compreender as fatalidades que lhes tocou viver. A uma criança japonesa, sobrevivente do terramoto e posterior tsunami, que perguntou por que devem as crianças sofrer tanto, Bento XVI respondeu que não sabia, que fazia a si próprio a mesma pergunta, e que Jesus, inocente, também sofrera. Talvez não tenha sido o consolo esperado, mas acabou de vez com as superstições de que as desgraças são castigos de Deus. Um casal com um filho em coma há dois anos perguntou se a alma do rapaz ainda estava presente. O Papa comparou o caso a uma guitarra com as cordas partidas. A alma continua lá, só não se exprime nem a conseguimos ouvir. E acrescentou, com extrema delicadeza e sensibilidade: «Tenho a certeza de que esta alma escondida sente o vosso amor, mesmo que não compreenda os pormenores, as palavras». O Papa intelectual trabalha no terreno e dá lições.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 29-4-11

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publicado às 19:00