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Dor de Cabeça: Nããããooooo!

por Carla Hilário Quevedo, em 17.06.11

Há seis anos, Portugal elegia José Sócrates com lágrimas de esperança por ter chegado Aquela Pessoa que nos livraria dos braços de Pedro Santana Lopes. Seis anos depois, o País, desgastado e na miséria, despedia o ex-Primeiro-ministro, desta vez com lágrimas de raiva. Ainda não batiam as dez da noite do 5 de Junho, e Sócrates já dissera adeus ao País e ao PS com um sorriso aberto, o suor a cair em gotas, o discurso na ponta da língua e no teleponto, admitindo a derrota e saindo de cabeça ao alto, mal sabíamos nós para onde. O futuro de Sócrates nunca constituiu uma dor de cabeça para ninguém, pois não? Talvez para os fãs, que, à notícia mais esperada dos últimos anos, reagiram com uma intensidade de fazer inveja a qualquer tragediógrafo grego. Ouvimos gritos de emoção quando o querido líder anunciou que agora ia ali e não vinha. Houve gente que o amou. Como acontece a qualquer estrela na despedida, houve especulações sobre o que faria agora o só cidadão Sócrates. Apesar de não ter assim tanto amor para dar, fiquei preocupada com a ocupação do tempo de um compatriota até agora exposto a tanta atenção. Da ausência à melancolia é um instante. Mas a minha preocupação passou a pânico: Sócrates iria um ano para Paris estudar Filosofia. Não era uma notícia do Inimigo Público e temi o pior. Como estou obcecada com o futuro, pensei logo no seu regresso. Sabemos como a influência francesa pode ser perniciosa. Falo da influência intelectual. Basta estarmos atentos à sintaxe dos nossos intelectuais francófilos. Vi de repente Sócrates, com o seu entusiasmo e a sua loquacidade retórica, a falar como José Gil. Ainda pululam perigosos discípulos derridaianos por terras gaulesas. Imaginemos um Sócrates filósofo, em 2012, no Mário Crespo, a comentar a conjuntura política: «A evocação do presente como espaço é a possibilidade do imperativo utópico do não lugar e é por isso que o voto no Partido Socialista em geral e em mim em particular...». E, subitamente, os motivos do meu pânico foram revelados: isto é coisa para levar Sócrates de novo ao poder.

 

Dor de Cabeça é o título da minha nova crónica no Metro, publicada à sexta-feira. O título não se deve à ilustração de George Cruikshank, de 1819. 

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publicado às 17:06

Flying too high with some gal in the sky

por Carla Hilário Quevedo, em 17.06.11

Is my idea of nothing to do

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publicado às 17:01